No final do século XIX, o governo deu início a uma série de reformas urbanísticas radicais que resultaram no soterramento definitivo da Enseada de São Cristóvão, visando a expansão portuária e a higienização da capital. O projeto, que culminou nas obras da zona portuária e na abertura do Canal do Mangue, transformou o espelho d’água e as praias que chegavam perto da Quinta da Boavista em quilômetros de aterro, trilhos de trem e asfalto. A mudança, motivada por pressões econômicas e sanitárias, apagou do mapa as praias da Zona Norte e alterou permanentemente a relação da cidade com a Baía de Guanabara.
Para quem gosta de histórias com um toque de ironia, a enseada que um dia foi uma praia, manguezal e caminho para embarcações abastecerem a Corte hoje é, na prática, um corredor de trânsito engarrafado e um canal esquecido sob a Avenida Francisco Bicalho. Não é todo dia que se vê um pedaço do mar “aposentado” e substituído por carros e ônibus, mas foi exatamente isso que aconteceu ali, sem grandes cerimônias.
A extinção da Enseada de São Cristóvão é um lembrete de que o Rio é uma cidade inventada sobre as águas. O que perdemos em praias e biodiversidade, ganhamos em infraestrutura que permitiu progresso. No entanto, ao olharmos para o Canal do Mangue e o asfalto que cobre onde antes havia só mar, fica uma reflexão sobre o custo desse desenvolvimento todo. Uma Zona Norte que hoje sofre com o calor e as enchentes, talvez sentindo falta daquele pedaço de baía sacrificado no altar da modernidade.

O que era a Enseada de São Cristóvão?
A Enseada de São Cristóvão localizava-se na região que hoje compreende os bairros de São Cristóvão e Cidade Nova, estendendo-se pelas áreas onde atualmente funcionam o Gasômetro, a Rodoviária Novo Rio e parte do complexo ferroviário da Leopoldina.
Segundo registros da Brasiliana Iconográfica, a água chegava muito próxima aos portões da Quinta da Boa Vista. Era uma reentrância generosa da Baía de Guanabara que permitia uma vista bucólica do mar diretamente das janelas da família imperial.
E sim, havia praias, e elas eram o destino de lazer da elite e do povo. A Praia Formosa e a Praia de São Cristóvão eram os nomes mais célebres. A Praia Formosa, especificamente, era descrita por cronistas do século XIX como um local de águas calmas e límpidas.
De acordo com o historiador Maurício de Abreu em Evolução Urbana do Rio de Janeiro, essa orla foi desaparecendo gradualmente sob camadas de terra para dar lugar aos armazéns do porto e à estação de trens, transformando o “balneário imperial” em um centro logístico e industrial.
A enseada e o Saco de São Diogo são a mesma coisa?
O Saco de São Diogo era uma enseada menor, uma espécie de apêndice da Baía de Guanabara, avançando terra adentro por um manguezal até quase a área da Praça Onze e e, por extensão, com outros corpos d’água que se espalhavam pela área que viria a ser a Tijuca e o Maracanã.
Geograficamente, “saco” é uma enseada ou reentrância costeira alongada, de águas mais calmas e com acúmulo de sedimentos, termo comum na toponímia litorânea brasileira.
No caso do Rio de Janeiro, esses “sacos” eram vitais porque permitiam que embarcações de pequeno e médio porte atracassem com segurança, protegidas das correntes mais fortes da Baía de Guanabara. O Saco de São Diogo era, tecnicamente, o final de uma linha de drenagem natural da bacia do Rio Comprido.

Por que brincam que foi ali que o Rio decidiu virar cidade?
Porque a região do Saco de São Diogo foi o palco das primeiras grandes infraestruturas industriais e de transporte que romperam com o modelo colonial de vila. De acordo com o portal Rio Memórias, foi em torno dessa área que se instalou a primeira iluminação a gás da cidade e onde a Estrada de Ferro Dom Pedro II (atual Central do Brasil) começou a expandir seus tentáculos. Além disso, sua posição estratégica facilitava o acesso à cidade e ao interior através de cursos d’água, funcionando como um pequeno porto natural, ainda que informal, para mercadores e moradores.
As principais mercadorias movimentadas eram alimentos produzidos nas chácaras e roças do interior (como açúcar, farinha, lenha e hortaliças) e materiais de construção (pedra, cal, madeira). Esses produtos eram trazidos por terra ou por pequenos canais até as margens do Saco, de onde seguiam por água para o centro da cidade. Da mesma forma, mercadorias chegadas pelo porto principal eram redistribuídas para o interior através desse eixo
Foi, portanto, ali que a cidade deixou de ser um amontoado de casas perto das praias para se tornar um hub logístico. A transição da Monarquia para a República acelerou esse processo, com o pensamento de que o Rio precisava de “ares de Paris” e “eficiência de Londres”, o que exigia dominar a natureza pantanosa daquela região.
Mas se era tão importante, por que foi aterrado?
Basicamente por dois motivos: saneamento urbano e expansão de infraestrutura. No século XIX, acreditava-se na teoria dos miasmas, segundo a qual doenças (como a febre amarela e a malária) eram transmitidas pelo “ar ruim” vindo de águas paradas e manguezais. O Saco de São Diogo e a Enseada de São Cristóvão tinham áreas de águas muito rasas que, segundo a ciência da época, causavam doenças como a febre amarela e a malária. Secar esses pântanos era visto como uma medida de higiene fundamental.
Ao mesmo tempo, a cidade precisava de espaço plano para se expandir e se modernizar. A região central era montanhosa e congestionada. Aterrar a enseada criaria vastos terrenos planos e valorizados para a construção de novos bairros e para a implantação de infraestruturas como ferrovias (a estação da Central do Brasil foi construída em área aterrada) e avenidas.
Finalmente, dentre as reformas do prefeito Pereira Passos e do engenheiro Paulo de Frontin, no início do século XX, havia a necessidade de construção de uma linha de cais contínua e retilínea. Conforme documentado pelo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, era impossível construir um porto moderno e uma estação ferroviária mantendo as curvas naturais da enseada. E assim o mar foi sacrificado no altar da modernidade.
É verdade que dá para ver onde eram as praias nos mapas de hoje?
Sim. Embora o aterramento maciço e a urbanização tenham apagado a enseada à vista do nível da rua, a “assinatura fantasma” do antigo litoral ainda pode ser vista no Google Maps, na planta urbana e, de forma mais nítida, em mapas topográficos ou de curvas de nível.
A chave para enxergar isso está em observar os padrões do traçado urbano. As antigas curvas das praias e margens da enseada muitas vezes se fossilizaram nas linhas das ruas e nos limites dos quarteirões. Não é como ver uma linha de areia, mas sim ler a “cicatriz” geográfica impressa na malha da cidade.
O Canal do Mangue é resultado dessas intervenções?
Sim, o Canal do Mangue é a principal e mais visível herança dessas intervenções. Ele não existia naturalmente. Foi construído como a solução de engenharia para substituir o curso sinuoso e pantanoso dos braços da enseada e, principalmente, do Saco de São Diogo.
Idealizado por Francisco Pereira Passos e projetado pelo engenheiro canadense William Bragge, suas obras começaram na década de 1850. O canal tinha a função dupla de servir como via de drenagem das águas pluviais e dos rios do interior e como conduto para esgotos, canalizando e “domesticando” as águas que antes se espalhavam pela enseada.

A inspiração em modelos europeus é clara e documentada. O projeto do Canal do Mangue se insere no contexto de reformas urbanas que buscavam embelezar e sanear as cidades à imagem de Paris, reformada pelo Barão Haussmann, prefeito que redesenhou Paris a mando de Napoleão III.
Especificamente, o canal segue a concepção de canais retilíneos e funcionais que caracterizavam as intervenções hidráulicas na capital francesa, como o Canal Saint-Martin. A ideia era substituir um ambiente natural insalubre e desordenado por uma infraestrutura geométrica, moderna e utilitária, típica do urbanismo do século XIX.


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