Quando o Brasil chegou atrasado na 1ª Guerra Mundial
Reportagem Especial

Quando o Brasil chegou atrasado na 1ª Guerra Mundial

Mesmo um tanto pífia, essa odisseia da insensatez nos valeu um assento na Liga das Nações, predecessora da ONU

Na data de hoje se comemora um dos momentos mais importantes da História: o fim da Guerra que poria fim a todas as guerras, também conhecida como 1º Guerra Mundial. E, por uma dessas obras do destino, o controverso batismo de guerra mundial da gloriosa Marinha do Brasil. Em 1918, uma frota brasileira partiu de Fernando de Noronha rumo ao estreito de Gibraltar, onde faria operações de patrulhamento com britânicos contra navios alemães. Só que nem tudo saiu como o esperado. Pelo contrário.

A viagem foi epopeia digna de um blockbuster. Da força de 1.500 homens, mais de 100 marujos morreram só de gripe espanhola, fora outras patologias. Não se sabe se faltava mais carvão ou gente. Sem nenhum combustível, alguns navios, operando com metade da tripulação necessária, foram literalmente puxados por outros. E nessa brincadeira aqueles que puxaram acabaram pifando quando as caldeiras superaqueceram.

A travessia foi tão cheia de problemas, que a frota precisou parar por dois meses no Senegal para reparos. Até que finalmente conseguiu chegar em Gibraltar, algumas horas antes das 11h da manhã do dia 11/11 de 1918, data do armistício que pôs fim ao conflito. O Brasil pode ter chegado no fim da guerra, mas chegou. E mesmo um tanto pífia, essa odisseia da insensatez nos valeu um assento na Liga das Nações, predecessora da ONU.

Frota do Brasil contava cruzadores e contratorpedeiros | Crédito: Reprodução

 Formação

A missão da Marinha do Brasil começou a tomar forma em 30 de janeiro de 1918, quando foi instituída oficialmente a Divisão Naval em Operações de Guerra (DNOG) sob o comando do contra-almirante Pedro Max Fernando Frontin, uma das figuras mais respeitadas da Marinha Brasileira no início do século XX.

Ele havia sido chefe do Estado-Maior da Armada e já comandara o cruzador Bahia, que seria sua nau-capitânia. Frontin foi nomeado para liderar a DNOG em 30 de janeiro de 1918, após o Brasil declarar guerra às Potências Centrais em outubro de 1917.

Era um oficial conhecido por disciplina e austeridade, mas enfrentou sérias limitações materiais e sanitárias na missão; como registram seus diários e comunicações oficiais.

Busto do contra-almirante Pedro Max Fernando de Frontin, comandante do DNOG | Crédito: Reprodução

A frota brasileira

Nossa armada era formada pelos cruzadores Bahia e Rio Grande do Sul, pelos contratorpedeiros Piauhy, Rio Grande do Norte, Parahyba (CT-5) e Santa Catarina, além de um rebocador auxiliar e um navio de abastecimento por ironia chamado Belmonte.

Em 1º de agosto de 1918 a DNOG partiu do Arquipélago de Fernando de Noronha rumo à travessia do Atlântico.  Após escala em Freetown, Serra Leoa, em 9 de agosto, e em Dakar, (Senegal), a esquadra preparava-se para patrulhar o corredor marítimo entre Dakar (Senegal), Cabo Verde e Gibraltar, sob comando aliado britânico.

A odisseia

Durante a travessia, praticamente todos os navios da esquadra sofreram algum tipo de avaria mecânica ou estrutural. Os contratorpedeiros, especialmente o Parahyba e o Piauhy, apresentaram falhas graves nas caldeiras e sistemas de condensação, provocando superaquecimento e perda de velocidade.

Isso obrigou a esquadra a realizar reparos emergenciais e a reduzir o ritmo da travessia.  Segundo os registros da Marinha, o Parahyba chegou a ser rebocado por parte da viagem até que os sistemas fossem restaurados. 

Houve escassez de carvão de boa qualidade, o que reduzia a potência dos navios e causava panes frequentes nos sistemas de propulsão.  Alguns navios também apresentaram problemas nos geradores elétricos e falhas nos telégrafos ópticos e sonoros, comprometendo a comunicação durante a navegação noturna.

A maioria dos navios operou por semanas com tripulações reduzidas a menos da metade do efetivo. O cruzador Bahia chegou a navegar com oficiais substituindo maquinistas mortos ou doentes.

O Rio Grande do Sul e o Bahia sofreram danos nas hélices e no casco devido a longos períodos em mares tropicais sem docagem, e por falta de estaleiros adequados no Atlântico Sul. Segundo relatório do engenheiro-chefe de bordo, “as incrustações e vibrações reduziram a eficiência da propulsão em 20%”.

A chegada em Senegal

Embora não seja uma “avaria técnica”, uma epidemia de grupo espanhola funcionou como um dano humano crítico: mais de 100 marinheiros morreram durante a viagem ou logo após a chegada a Dakar. Outros morreram por diferentes motivos.  

Depois de permanecer em Dakar por dois meses para reparos e recuperação da tripulação a DNOG recebeu ordens para deslocar-se para Gibraltar em 3 de novembro de 1918. 

A viagem prosseguiu até que, em 10 de novembro, a esquadra brasileira chegou ao estreito de Gibraltar, um dia antes da assinatura do armistício que pôs fim aos combates no dia 11 de novembro.

Ou seja, nesse deslocamento final, a esquadra brasileira chegou praticamente quando a guerra se encerrava, limitando a nada ou quase nada, sua participação operacional prática no teatro europeu. Embora, mesmo que simbolicamente, tenha representado a inserção brasileira no esforço aliado.

O legado da participação brasileira

Embora ofensivamente a DNOG pouco tenha atuado além da patrulha e travessia, sua mobilização teve impacto simbólico e diplomático: reforçou a imagem da Marinha do Brasil como um ator internacional, contribuiu para o ingresso brasileiro na Liga das Nações e estimulou reflexões sobre a necessidade de modernização naval e logística.

Internamente, o episódio evidenciou fraquezas, tais como as consequências da gripe espanhola, que matou ou incapacitou mais de cem tripulantes na esquadra.  A participação tardia também limitou os ganhos estratégicos significativos, mas marcou uma virada no protagonismo brasileiro em assuntos internacionais.

Homenagem à Divisão Naval em Operações de Guerra (DNOG) | Crédito: Reprodução

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