As praias do Rio de Janeiro reúnem cenários que encantam turistas e moradores, mas também escondem armadilhas capazes de transformar um simples dia de lazer em tragédia. Um levantamento feito pela Agenda do Poder com dados do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio e pesquisadores, indicam as três regiões que concentram os maiores índices de salvamentos: a faixa de Copacabana (do Arpoador a São Conrado), a Barra da Tijuca com parte do Recreio dos Bandeirantes, na Zona Sudoeste, e Cabo Frio, na Região dos Lagos.

Os registros mostram que, entre janeiro e setembro de 2025, essas áreas reuniram dezenas de milhares de prevenções e milhares de pessoas resgatadas. Os números ajudam a dimensionar a gravidade:

  • Leme, Copacabana, Arpoador, Ipanema, Leblon e São Conrado: essa faixa da Zona Sul reúne praticamente metade dos casos, com mais de oito mil ocorrências registradas em 2025.
  • Barra da Tijuca:  praias de grande extensão e correntes intensas, que desafiam até banhistas experientes. Nos primeiros nove meses deste ano, o estado registrou 66.791 prevenções, 234 crianças perdidas e 2.188 resgates.
  • Recreio dos Bandeirantes: outro ponto crítico da Zona Oeste, acumulou 44.841 prevenções, 75 crianças perdidas e 1.034 resgates no mesmo período.
  • Cabo Frio, na Região dos Lagos: destino turístico com grande fluxo de visitantes e alto índice de afogamentos. O destino turístico atrai milhares de visitantes anualmente. Registrou 134.112 prevenções, 67 crianças perdidas e 1.132 resgates.
Praia do Forte, em Cabo Frio, está entre uma das três áreas com maiores índices de afogamentos | Crédito: Arquivo

Três fatores estão por trás da maioria dos incidentes: ondas, profundidade irregular e correntes de retorno. “Cerca de 80% dos afogamentos no estado estão relacionados às valas”, afirma o porta-voz do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio, major Fabio Contreiras.

Em contrapartida, praias mais protegidas, como Urca, Glória e Praia Vermelha, na Zona Sul, oferecem condições mais favoráveis para o banho, diz o oceanógrafo e professor da Faculdade de Oceanografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Marcelo Sperle.

Sessenta salvamentos por dia

Ainda conforme a corporação, entre janeiro e setembro deste ano, foram registrados 16,2 mil salvamentos — uma média de 60 por dia. A maioria das vítimas é de jovens que não têm familiaridade com a dinâmica das praias.

Cada região oceânica do Rio, seja na capital, Região Metropolitana, dos Lagos ou no Norte Fluminense, possui uma geografia que cria áreas de risco nem sempre visíveis para quem está dentro ou fora d’água. Por vezes, essas características passam despercebidas até o primeiro mergulho.

No dia 10 deste mês, Niquelly Pereira da Silva, de 14 anos, se divertia na Praia do Leme com a família, o namorado Paulo Roberto da Silva, 15,  e o pai do rapaz. Em um mergulho comum, todos foram puxados por uma correnteza, mas os jovens não conseguiram sair.

A adolescente desapareceu e foi encontrada dois dias depois no mar da Praia de Piratininga, em Niterói, na Região Metropolitana. O corpo de Paulo Roberto apareceu na Praia de São Conrado, na Zona Sul, cinco dias após o incidente.

Na mesma semana, na terça-feira (16), o corpo de uma criança foi encontrado no Jardim de Alah, entre o Leblon e Ipanema. Segundo as informações, a criança era filha de um bombeiro militar e se afogou no mar de Ipanema por volta das 19h20 do dia anterior.

Quando o desconhecimento é um erro

O instrutor Thales Gomes, especialista em práticas de salvamento pelo Instituto Brasileiro de Atendimento Pré-Hospitalar (IBRAPH) e instrutor no projeto Salvamar Itaqua, afirma que a maioria dos afogamentos está ligada à falta de compreensão sobre o mar.

“O maior erro hoje é, com certeza, o desconhecimento. Quando a pessoa não entende o funcionamento da praia e os riscos, acaba escolhendo o local errado para entrar e se banhar. Esse desconhecimento faz com que ocorram os afogamentos, porque a praia tem muitas armadilhas para quem não está acostumado a frequentá-la”.

A resistência de banhistas em respeitar sinalizações é frequentemente resultado de mal-entendidos. “Muitas vezes ouvimos que o guarda-vidas coloca a bandeira vermelha porque não quer trabalhar, mas nosso trabalho é justamente evitar que o afogamento aconteça. Para mudar isso, o grande caminho é a educação, que começa nas escolas, com palestras e ensinamentos desde cedo”, analisa.

Vista da Praia do Leme: adolescentes morreram afogados em incidente à noite | Crédito: Reprodução

Perfil das vítimas

Em Niterói, especialmente na Praia de Itacoatiara, a maioria das ocorrências envolve adolescentes entre 12 e 20 anos, notadamente do sexo masculino, de acordo com o instrutor. As mulheres se afogam menos, por serem geralmente mais medrosas ou precavidas.

Já para o cabo Henrique Bruto, do 4º Grupamento Marítimo de Itaipu, o perfil de casos passa por crianças e jovens de 15 a 22 anos. Os afogamentos estão associados a questões comportamentais e culturais.

Para ele, as sinalizações nas praias, por vezes, servem para “enxugar gelo”. O militar acredita que as pessoas precisam ser convencidas de que algo vai acontecer para, de fato, se prevenirem.

“A conclusão a que venho chegando cada vez mais é que as pessoas precisam ser convencidas de que pode acontecer com elas. Se o guarda-vidas está falando, apitando e se existe uma placa ou bandeira, é porque aquilo está indicando algo”, reforça.

Entre os perfis de vítimas, um padrão se destaca: o de homens que não conhecem a praia e utilizam transporte público para acessá-la. Isso porque os registros de afogamento coincidem com áreas em que se localizam terminais finais de linhas de ônibus ou estações de metrô. Essas pessoas têm menor contato com o mar e, consequentemente, menor discernimento sobre os riscos.

“A maioria das vítimas são homens jovens, que moram distantes da praia e não estão acostumados ao banho de mar. Essas pessoas tendem a se expor mais, não conseguem fazer uma leitura crítica das condições e muitas vezes não respeitam as orientações dos salva-vidas, mesmo com bandeiras, apitos e sinalizações”, explica o geógrafo marinho e pesquisador vinculado à Universidade Federal Fluminense (UFF), Eduardo Bulhões.

Geógrafo marinho e pesquisador da Universidade Federal Fluminense Eduardo Bulhões – Crédito: Beatriz/ Agenda do Poder

Ondas, correntes e valas: a dinâmica do risco

Para compreender os riscos do mar, é necessário analisar sua dinâmica, como explica o pesquisador. As praias do Rio se enquadram em um tipo específico.

As praias do Rio de Janeiro são chamadas de intermediárias, com bancos de areia móveis. Às vezes a pessoa está em uma área confortável, dá pé, mas logo ao lado há uma vala onde já não consegue mais ficar. Essa movimentação dos bancos contribui tanto para o surgimento das correntes de retorno quanto para aumentar os riscos ao banho

Segundo ele, a lógica se divide basicamente em dois tipos:

  • Praias de tombo: Como Itacoatiara e Itaipuaçu, em Niterói e Maricá (Região Metropolitana). De areia mais grossa, têm declividade acentuada e a profundidade aumenta rapidamente. Em poucos passos, o banhista já pode estar em uma altura superior à sua própria estatura.
  • Praias de areia fina e plana: Como Praia do Forte e Praia do Peró, na Região dos Lagos. São exemplos de lugares mais seguros para iniciantes e crianças, por dissiparem melhor a energia das ondas, tornando a área de banho menos turbulenta. No entanto, ainda apresentam perigo durante ressacas.

”As praias mais seguras são as de areia fina, normalmente mais planas, porque dissipam melhor a energia das ondas e tornam a área de banho menos turbulenta, favorecendo idosos, crianças e pessoas sem experiência”, complementa Bulhões.

Além da tipologia, outro fator crucial é a constante mudança. O oceanógrafo e professor da Uerj, Marcelo Sperle, define essas praias como “ambientes ultradinâmicos”.

“Uma área que é segura de manhã pode se tornar perigosa à tarde. A percepção do risco depende do conhecimento da pessoa sobre o mar e das condições do dia”, alerta Sperle.

Segundo os especialistas, uma região pode apresentar diferentes seguimentos dentro de um único arco praial – Crédito: Divulgação/ Riotur

Tipos de correntes

O grande temor dos banhistas dentro d’água é o famoso “puxão”, causado pelas correntes de retorno, um fenômeno natural nas praias do Rio. Os oceanógrafos explicam os dois tipos principais:

  1. Correntes longitudinais: correm paralelas à costa. É o que ocorre quando um banhista entra em um ponto da praia e sai em outro, distante.
  2. Correntes de retorno: as mais perigosas, que puxam o banhista em direção ao mar aberto.

Marcelo Sperle detalha como isso funciona: “Esse sistema, chamado célula de circulação litorânea, é conectado. O banhista desavisado pode ser levado para o alto-mar. Essas correntes se intensificam com a altura das ondas e formam canais (conhecidos como valas), paralelos e transversais, onde a profundidade aumenta drasticamente, elevando o risco de afogamentos”.

É aqui que surge a recomendação clássica, mas muitas vezes mal compreendida, de nadar para os lados (paralelamente à praia) e não contra a corrente. A razão é simples: a força de uma corrente de retorno é quase sempre superior à capacidade de nado de uma pessoa.

Tentar nadar contra ela leva ao cansaço extremo e, rapidamente, ao desespero. O segredo, portanto, é manter a calma e escapar lateralmente do canal da corrente.

Cabo do 4º Grupamento Marítimo de Itaipu, Henrique Bruto | Crédito: Sofia Miranda/ Agenda do Poder

O Henrique Bruto detalhou a técnica na prática:

A primeira coisa é manter a calma e tentar flutuar. Se você está sendo puxado, tem que sentir o que a natureza está fazendo com você. Se ela está te puxando, deixe ela te puxar. Guarde energia

A orientação é aguardar a força da corrente diminuir e, uma vez em uma região mais tranquila, nadar para os lados paralelamente à praia — até alcançar a área onde as ondas quebram. São elas que, ao empurrar o banhista em direção à areia, garantirão o retorno em segurança.

Para entender os perigos que espreitam banhistas desavisados, é fundamental decifrar a complexa dança entre o ar e a água. Como explica Marcelo, este é um sistema integrado que recebe o nome de ‘Ar-Mar’:

Os ventos geram as ondas e quanto maior a diferença de temperatura e pressão, mais intensos serão os ventos, mais intensas serão as ondas e mais intensas serão as correntes litorâneas. O sistema atmosfera-oceano é interconectado. Isto se chama ‘Interação Ar-Mar

Praia da Urca está entre uma das mais tranquilas para banho segura, afirmam especialistas | Crédito: Divulgação/ Riotur

Quando o mar engana

Até os dias mais perigosos nem sempre coincidem com ressacas. Pelo contrário: dias de sol quente, céu limpo e mar aparentemente calmo são o convite perfeito para a praia… e para os afogamentos.

“Os maiores índices de afogamentos acontecem em fins de semana prolongados, ensolarados e com mar aparentemente calmo. Aquele sábado ou domingo de sol pleno, em que o mar está baixo, é o cenário mais perigoso”, confirma o major Fábio Contreiras.

A operação dos bombeiros se adapta a essa lógica. Em dias ensolarados, além dos guarda-vidas na areia e na água, equipes fazem um trabalho preventivo nas saídas de ônibus, orientando os visitantes.

Esse esforço, somado a fatores climáticos, contribuiu para uma queda de aproximadamente 16,5% nos resgates entre 1º de janeiro e 15 de setembro de 2025, em comparação com 2024.

“Existe uma conjunção de fatores para a queda nos números. Os fatores climáticos ajudaram, porque tivemos um inverno e um outono mais rigorosos, com mais dias de frio e água gelada, o que afastou as pessoas das praias. A quantidade de afogamentos é diretamente proporcional ao número de banhistas”, dimensiona Contreiras.

‘Achei que não fosse comigo

A história do estudante Lucas Andrade, de 19 anos, morador de Nova Iguaçu, é um exemplo clássico. Em fevereiro deste ano, na Praia da Barra da Tijuca, altura do posto 4, um simples mergulho com os amigos quase terminou em tragédia.

“Eu sempre achei que essas coisas só aconteciam com quem se arriscava demais. Eu estava rindo, brincando, e de repente já não dava mais pé. Quando vi, estava sendo puxado. Na hora, meu coração disparou e eu me desesperei; acho que essa sensação foi a pior e contribuiu”, relembra. Lucas foi resgatado por guarda-vidas após acenar pedindo ajuda.

Como lição, ficou o respeito pelo mar. “Minha mãe sempre me diz que o mar é traiçoeiro, mas eu sempre me sinto um peixe e acabo esquecendo dos perigos. Depois desse episódio, só fico onde dá pé e com muita atenção quando sinto a água puxando ou mais agitada”, conta.

Guarda-vidas ou super-heróis?

Enquanto banhistas pedem socorro, os militares responsáveis pelos salvamentos se veem diante de um contraste: sua resistência é posta à prova constantemente, e muitos os veem como super-heróis, uma percepção que eles mesmos buscam desfazer.

A humanidade foi testada pelo cabo Henrique Bruto durante o Réveillon 2025. Na Praia de Icaraí, em Niterói, ele resgatou um bebê de um ano e meio, sua irmã de quatro anos e a mãe, que estavam em uma vala. Após manobras de ressuscitação, o bebê retomou a respiração.

Há também episódios em que os salvamentos ocorrem em condições adversas, como durante ressacas marinhas.

Em junho deste ano, o militar protagonizou um salvamento na Pedra do Pampo, área considerada uma das mais perigosas da Praia de Itacoatiara devido ao alto índice de afogamentos. O local frequentemente registra acidentes com banhistas e visitantes que, distraídos com a vista panorâmica, escorregam e caem no mar.

Naquele dia, o mar estava revolto, a banhista estava submersa e o agente dispunha de pouquíssimo tempo para agir.

Eu estava calmo, consegui fazer o que precisava com a experiência de dez anos. Mas quando pulo no mar de ressaca, com muita onda e corrente, estou à mercê da natureza

Ao chegar com os banhistas resgatados ao continente, as reações são variadas. Uns agradecem desde o momento em que são alcançados dentro d’água.

Outros ficam acuados ou com vergonha, reação comum entre adolescentes. Já os mais velhos, segundo relatos dos militares, costumam encarar o resgate como uma segunda chance, uma nova oportunidade concedida por forças divinas.

“As pessoas agradecem já dentro d’água. Muitos querem até tirar foto, mas a prioridade é o atendimento. Adolescentes e jovens, às vezes, ficam com vergonha porque os amigos fazem brincadeiras. Alguns até dizem que ganharam uma segunda chance de vida, porque não foi um simples resgate, poderiam ter realmente morrido”, descreve o militar.

Conforme definição do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, o afogamento ocorre quando a pessoa se encontra em um local de onde não consegue sair por conta própria.

Não é necessário ter aspirado água (broncoaspiração); basta que esteja em uma situação na qual não consiga se libertar sozinha para que o caso seja caracterizado como afogamento.

Em caso de afogamento: o que fazer?

Diante dos riscos evidentes, saber como agir em uma emergência pode ser decisivo. O Corpo de Bombeiros e especialistas orientam sobre os procedimentos básicos neste caso:

  1. Mantenha a calma e grite por ajuda
  2. Tente boiar e depois nade paralelamente à praia, seguindo as sinalizações
  3. Por fim, não tente salvar alguém sozinho: Se testemunhar alguém se afogando, nunca entre na água para tentar um resgate sem equipamento adequado. A vítima, em pânico, pode puxá-lo para baixo.

*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes

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