O presidente da Rússia, Vladimir Putin, recebe nesta quarta-feira, em Moscou, o ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, em um momento delicado para a ilha caribenha. O encontro ocorre em meio ao agravamento da crise energética cubana, que já produz efeitos visíveis no cotidiano da população, como o acúmulo de lixo nas ruas de Havana devido à escassez de combustível.
Segundo a imprensa local, apenas 44 dos 106 caminhões de coleta da capital conseguiram operar neste mês, o que comprometeu significativamente o serviço. Em diversos bairros, caixas de papelão, sacolas, garrafas plásticas e outros resíduos se acumulam nas esquinas, enquanto moradores reviram o lixo em busca de itens reaproveitáveis. Motoristas, pedestres e ciclistas precisam desviar dos montes espalhados pelas vias.
“Está pela cidade toda”, relatou o morador José Ramón Cruz à agência Reuters. “Já faz mais de 10 dias que um caminhão de lixo passou por aqui.”
Em outras cidades da ilha, que abriga cerca de 11 milhões de habitantes, moradores recorreram às redes sociais para alertar sobre riscos sanitários decorrentes da paralisação parcial da coleta.
Crise energética e pressão dos EUA
A escassez de combustível se agravou após o fim do fornecimento de petróleo venezuelano, na esteira da queda de Nicolás Maduro em janeiro, e diante das ameaças de Washington de impor tarifas a países que comercializem petróleo com Havana. Cuba vinha recebendo mais de 27 mil barris de petróleo por dia do regime chavista.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem sustentado que o corte no abastecimento representa um golpe decisivo contra o governo cubano. Questionado sobre a situação da ilha, ele afirmou:
“Parece que está prestes a cair.”
A crise energética se soma a um cenário econômico já crítico. O país enfrenta apagões frequentes, escassez de alimentos e medicamentos e redução das reservas em moeda estrangeira. Em resposta, o governo cubano implementou medidas emergenciais que restringem a venda de combustível e reduzem o transporte público.
Encontro em Moscou e apoio russo
Em Moscou, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, reiterou que “a Federação Russa se opôs de forma constante ao bloqueio contra Cuba” e que “presta ajuda” aos seus “amigos”.
Antes da reunião com Putin, Bruno Rodríguez encontrou-se com o chanceler russo, Serguei Lavrov, que adotou tom crítico em relação aos Estados Unidos. Lavrov declarou estar “em solidariedade” com Havana e classificou Cuba como “um Estado irmão”.
“Pedimos aos EUA que mostrem bom senso e se abstenham do bloqueio militar-marítimo à ilha da liberdade”, afirmou Lavrov, sem anunciar compromissos concretos de apoio financeiro imediato. Ele também acusou Washington de promover a “deterioração da ordem internacional, que já era injusta e precária, mas que hoje está sendo substituída pelas práticas do governo dos EUA”.
Apoio internacional considerado insuficiente
Especialistas avaliam que, apesar das manifestações de solidariedade, o apoio efetivo de aliados tem sido limitado. O historiador cubano Rafael Rojas afirmou ao El País que a resposta da esquerda internacional tem sido pouco enfática.
“A esquerda internacional não está sendo muito enfática. Veja o caso do Brasil, por exemplo. [O presidente Lula tem se limitado a condenar o bloqueio]. Tampouco o governo espanhol está dando uma resposta de alto perfil”, disse. Ele acrescentou: “Há uma erosão da legitimidade de Cuba no cenário internacional devido à falta de democracia e à repressão sistemática, e esse chamado à solidariedade tem efeito muito limitado.”
Para Rojas, a ajuda que vem sendo oferecida, em geral humanitária, “não é suficiente para evitar um colapso”.
México, Chile e Rússia estão entre os poucos países que se posicionaram publicamente contra a ofensiva dos EUA. Moscou prometeu enviar cargas de petróleo bruto e combustível “em um futuro próximo”, sem especificar datas. Já o México enviou leite em pó e produtos básicos, enquanto o Chile anunciou ajuda humanitária.
A pressão diplomática dos Estados Unidos também se reflete em países vizinhos. A Nicarágua, aliada de Havana, concordou em fechar a principal rota de exilados cubanos, negando entrada a cidadãos da ilha em situação irregular. A Guatemala anunciou a retirada de médicos cubanos que atuavam no país.
Na segunda-feira, a Espanha informou que fornecerá ajuda humanitária por meio do sistema das Nações Unidas. O Ministério das Relações Exteriores espanhol comunicou que o apoio ocorrerá “nas áreas de alimentação e produtos sanitários de primeira necessidade”, sem detalhar prazos ou valores.
Um estudo da Embaixada da Suíça em Havana, que atua como mediadora entre Cuba e Estados Unidos, aponta que “A economia cubana atravessa provavelmente a pior crise de sua história, marcada por uma combinação de fatores internos e externos”.
Trump afirma que ofereceu um acordo e que negociações estão em andamento. Havana reconhece apenas contatos técnicos e nega a existência de tratativas substanciais.





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