Quarenta e dois anos após provocar uma das maiores tragédias da história do Rio Grande do Norte, o motorista Aluísio Farias Batista, de 69 anos, foi preso em Mato Grosso para cumprir a pena de 21 anos de reclusão. A captura encerra uma longa busca da Justiça e reacendeu lembranças dolorosas entre familiares das 19 vítimas fatais do atropelamento ocorrido durante o Carnaval de Natal, em 1984.
Para parentes das vítimas, a prisão representa um desfecho aguardado por décadas. Embora reconheçam que nenhuma condenação seja capaz de reparar as perdas, muitos afirmam que a prisão finalmente coloca um ponto final em uma história marcada pela dor, pela saudade e pela espera.
O acidente aconteceu na madrugada de 25 de fevereiro de 1984, quando um ônibus desgovernado invadiu um bloco carnavalesco na região do Baldo, atingindo músicos e foliões. Além das 19 mortes, outras 12 pessoas ficaram gravemente feridas.
Famílias dizem que prisão encerra um ciclo de sofrimento
Viúva de Wellington Teófanes de Assis, morto aos 31 anos, Maria do Céu Pinheiro de Assis, atualmente com 75 anos, relembra que jamais esqueceu a madrugada em que perdeu o marido. Ele havia saído para acompanhar os blocos carnavalescos e nunca retornou para casa.
Ela recorda que percorreu hospitais em busca do companheiro até encontrá-lo no necrotério do Hospital Walfredo Gurgel. Segundo ela, o reconhecimento do corpo permanece como uma das lembranças mais dolorosas de sua vida.
Apesar do sofrimento, Maria do Céu afirma que o tempo transformou seus sentimentos. Ela diz ter perdoado o motorista há muitos anos e vê a prisão não como um ato de vingança, mas como o encerramento definitivo daquele episódio trágico.
Filhas de vítimas afirmam que justiça finalmente foi cumprida
Joselúcia Merilym de Lima Gomes tinha apenas oito anos quando perdeu o pai, o sargento da Polícia Militar Acelúsio Borges Gomes, integrante da banda da corporação que animava o bloco carnavalesco no momento do acidente.
Ela conta que somente na adolescência conseguiu compreender o impacto da ausência do pai na vida da família. Após a tragédia, sua mãe precisou criar sozinha três filhas e enfrentou dificuldades financeiras durante anos.
Ao saber da prisão do condenado, Joselúcia encontrou a mãe emocionada. Segundo ela, apesar de a captura não devolver a vida das vítimas, a família sente que a Justiça finalmente foi alcançada após mais de quatro décadas.
A bancária Adriana Banhos Teixeira, irmã de Simone Banhos Teixeira, de 20 anos, também considera que a prisão representa uma resposta esperada há muitos anos. Para ela, o cumprimento da pena é um reconhecimento da responsabilidade pelo acidente que interrompeu a vida de 19 pessoas.
Testemunha relembra cenário de desespero após atropelamento
O bancário aposentado Moisés Monteiro também revive as cenas daquela madrugada. Ele estava próximo ao local quando ouviu o impacto provocado pelo ônibus e correu para ajudar no resgate das vítimas.
Segundo ele, diversos feridos precisaram ser transportados em táxis para hospitais da cidade devido à gravidade da situação. A quantidade de vítimas e o cenário encontrado marcaram sua memória para sempre.
Moisés afirma que passou semanas sem conseguir dormir após participar do socorro. As imagens dos corpos espalhados pela avenida permanecem vivas mais de quarenta anos depois.
Como o motorista foi localizado após mais de quatro décadas
As investigações começaram a partir da única fotografia existente do condenado, registrada na época do acidente.
Durante o trabalho de inteligência, a Polícia Civil descobriu que o pai de Aluísio Farias Batista havia falecido em Tangará da Serra, em Mato Grosso, em 2021. A informação possibilitou o intercâmbio de dados entre as polícias dos dois estados.
Os investigadores identificaram ainda que o condenado emitiu um documento oficial com seu verdadeiro nome em Mato Grosso, em 1995. Posteriormente, passou a utilizar a identidade de uma pessoa falecida em Natal, circunstância que ainda será investigada.
A confirmação da verdadeira identidade ocorreu por meio do cruzamento de dados cadastrais, análises documentais e comparação facial. Ao ser localizado, Aluísio inicialmente apresentou o nome falso, mas acabou confessando sua identidade após ser confrontado com as provas reunidas pelos investigadores.
Relembre a Tragédia do Baldo
A Tragédia do Baldo aconteceu na madrugada de 25 de fevereiro de 1984, durante o Carnaval de Natal, quando um ônibus conduzido por Aluísio Farias Batista perdeu o controle e atingiu integrantes de uma banda musical e participantes de um tradicional bloco carnavalesco.
O acidente matou 19 pessoas e deixou outras 12 gravemente feridas em meio a um público estimado em cerca de cinco mil foliões. Logo após o atropelamento, o motorista fugiu e permaneceu foragido por mais de 42 anos.
Historiadores apontam que a tragédia influenciou diretamente o Carnaval de Natal nas décadas seguintes, contribuindo para a redução dos tradicionais blocos de rua e do número de foliões na capital potiguar.
Com a prisão realizada em Mato Grosso, o condenado foi encaminhado ao sistema prisional, onde cumprirá a pena de 21 anos de reclusão em regime fechado, encerrando uma busca que atravessou mais de quatro décadas e marcou profundamente dezenas de famílias.






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