A Prefeitura de Cabo Frio foi acusada por uma vereadora de Linhares, no Espírito Santo, de uma ação típica de higienização social. A polêmica envolveu a transferência de 12 pessoas em situação de rua de Cabo Frio para a cidade capixaba.
De acordo com a denúncia da vereadora Professora Kelley Bonicenha (PSDB), as pessoas foram retiradas da Casa de Passagem cabo-friense por funcionários da Prefeitura e colocados em um micro-ônibus, sob a falsa promessa de emprego e moradia em Linhares. Entre os enviados, estão uma mulher grávida, com crises epilépticas, e um casal de idosos em situação de desnutrição.
A vereadora, que registrou o caso na delegacia policial de Linhares, denunciou o episódio como “higienização humana” — termo usado para descrever o deslocamento forçado de populações vulneráveis como uma forma de “limpeza” das cidades. A Prefeitura de Linhares precisou intervir, fornecendo alimentação e água às vítimas por meio da Secretaria de Assistência Social.
“Estou aqui na delegacia acompanhando o caso inédito, e muito triste, que está acontecendo no nosso município de Linhares. Recebemos denúncia de que a Prefeitura de Cabo Frio fez uma higienização humana. Eles colocaram pessoas em situação de rua dentro de um micro-ônibus, e despejaram aqui no nosso município”, afirma a vereadora em video postado em suas redes sociais.
Por nota, a Prefeitura de Linhares afirmou que os 12 moradores de Cabo Frio foram acolhidos pelas equipes de abordagem social do Município. “As equipes da Secretaria municipal de Assistência Social iniciaram a busca ativa para localizar os familiares dos 12 moradores. Numa primeira atualização, a família de um deles, que é da Bahia, já foi comunicada e o Município adotará as medidas necessárias para que o mesmo seja reintegrado” diz a nota. A Prefeitura informou ainda, que acionou o Ministério Público do Espírito Santo para acompanhar o caso, que também é investigado pela Polícia Civil local.
Jâ a Prefeitura de Cabo Frio disse que nenhuma das pessoas enviadas para Linhares eram naturais do município, e que algumas afirmaram ser do estado do Espírito Santo. Disse ainda que todas chegaram em Cabo Frio na alta temporada em busca de oportunidades de trabalho e, posteriormente, acessaram os serviços de acolhimento da Casa de Passagem. Ainda de acordo com a Prefeitura de Cabo Frio, todas as 12 pessoas enviadas para Linhares “manifestaram espontaneamente o desejo de retornar ao seu estado de origem para buscar novas oportunidades, especialmente na colheita do café, atividade da qual alguns já haviam participado em anos anteriores”. E que “diante dessa demanda apresentada por eles, a Casa de Passagem, cumprindo seu papel de apoio e acolhimento temporário, providenciou exclusivamente o transporte até o Espírito Santo, conforme registrado em documentos devidamente assinados por todos os envolvidos”.
O caso, embora revoltante, não é isolado mo Brasil Em 2023, a cidade de São Paulo foi alvo de severas críticas após relatos de que pessoas em situação de rua estavam sendo colocadas em ônibus e deixadas em cidades do interior do estado, sem qualquer planejamento ou suporte social. Em Belo Horizonte, denúncias semelhantes vieram à tona em 2022, quando pessoas foram deixadas em municípios vizinhos, também com promessas infundadas. Em Curitiba, no mesmo período, a Defensoria Pública chegou a abrir inquérito para apurar práticas parecidas durante o inverno, quando a cidade enfrentava uma onda de frio.





