A aviação carioca é muito maior e relevante do que o Galeão ou o Santos Dummont levam a crer. Hoje, quem passa pela Avenida Brasil na altura do prédio da Fiocruz, provavelmente nem imagina que um dia ali, onde hoje fica a Vila do João, no Complexo da Maré, Getúlio Vargas dava baforadas no charuto enquanto sacudia o lencinho para os aviões da Pan Air e da Vasp que decolavam do Aeroporto de Manguinhos.

Corriam os anos 1930, o Santos Dumont era restrito aos hidroaviões, o Galeão ainda engatinhava como base militar, e o Aeroclube do Brasil, recém-despejado pelo Exército do Campo dos Afonsos, precisava desesperadamente de uma nova pista. A solução estava bem ali, ao lado do Mourisco.

Em termos de tamanho, o Aeroporto de Manguinhos era equivalente ao atual Aeroporto de Jacarepaguá, na Zona Sudoeste (argh) carioca. E lá funcionou a escola que formou os primeiros pilotos da aviação civil brasileira. Mas um trágico acidente, provocado por um cadete da Aeronáutica desavisado, acelerou a transformação de um espaço que simbolizava a “abertura dos céus” do Brasil em chão batido de uma favela.

Manguinhos foi o casamento perfeito entre o improviso nacional e a pressa de Getúlio Vargas em tentar modernizar o Brasil. E em um país onde tudo parece que era ainda construção e já é ruína, foi uma realidade que durou apenas 30 anos. Mas uma realidade bem barulhenta.

Semana da Asa, em 1941, no Aeroporto de Manguinhos | Crédito: Arquivo Nacional

Qual é a história do Aeroporto de Manguinhos?

O Aeroporto de Manguinhos foi inaugurado em 1936, sob as bênçãos do governo Getúlio Vargas. A ideia era dar uma nova casa que fosse uma solução rápida para um pequeno problema do Aeroclube do Brasil:  fora expulso do Campo dos Afonsos pelo Exército.

Oficialmente, dizia-se que Manguinhos seria a grande vitrine da aviação civil. Na prática, era um puxadinho de luxo para pilotos civis e companhias aéreas que perderam espaço nos aeroportos então militarizados.

Segundo registros do jornal Correio da Manhã, a pressa em entregá-lo foi tamanha que a pista tinha buracos já na primeira semana.

Mas o que era o Aeroclube do Brasil?

O Aeroclube do Brasil nasceu em 1911, inspirado pelo fascínio do país com Santos Dumont. Era uma associação de entusiastas da aviação que acreditavam que voar não deveria ser apenas coisa de militares.

Para dar uma ideia de sua relevância, além de ter tido o próprio Albertinho entre seus fundadores, ele foi simplesmente a segunda escola de aviação do mundo, antecedida apenas pelo Aéro-Club de France. Seu prestígio era tão grande que, por muito tempo, ser aviador do aeroclube era um tremendo símbolo de status.

Só que prestígio não paga aluguel, e quando o Exército tomou de volta o Campo dos Afonsos, o clube teve de improvisar.

Se era tão importante por que o Aeroclube foi despejado?

Campo dos Afonsos era considerado pelos militares território estratégico. O Exército queria transformá-lo em base para sua recém-criada escola de aviação militar. E para os militares, não fazia sentido dividir espaço com pilotos civis e recreativos.

Em 1935, o raio desceu do alto do Olimpo e o Aeroclube recebeu ordens para se retirar o quanto antes do local. O despejo, na época, foi visto pelos jornais como traição. Campo dos Afonsos acabou mesmo abrigando a Escola de Aviação Militar, que formou gerações de pilotos de guerra.  

Sem sede, o Aeroclube do Brasil pressionou o governo federal, que acabou cedendo o terreno em Manguinhos. Foi uma vitória da aviação civil, mas com sabor agridoce: dependia sempre da boa vontade do Estado e estava vulnerável a mudanças políticas. 

Assim, Manguinhos nasceu como alternativa improvisada, mas com apoio oficial.

Aeroporto ficava ao lado da Fiocruz | Crédito: Reprodução

Como era o Aeroporto de Manguinhos?

Tinha dimensões modestas: uma pista de aproximadamente mil metros de extensão, dois hangares e uma torre de controle acanhada. Era suficiente para aeronaves de médio porte da época, como o Vickers Viscount.

A capacidade era reduzida, mas bastava para operações regionais e treinamentos de voo. Entre as companhias que usaram Manguinhos estavam a Vasp e a Panair do Brasil, cujos voos eram principalmente regionais, conectando a Guanabara a cidades do interior de São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo.

Por que ele é tão relevante na história da aviação brasileira?

Em Manguinhos nasceu a Semana da Asa, celebrando o Dia do Aviador em 23 de outubro, data do primeiro voo de galinha de Santos Dummont com 14-Bis.

Havia saltos de paraquedistas, acrobacias e apresentações da Esquadrilha da Fumaça. O público se aglomerava ao redor da pista, transformando Manguinhos em uma grade arena popular de entretenimento.

Um dos maiores entusiastas da Semana da Asa foi o empresário Assis Chateaubriand, que badalava o evento por meio de seus jornais e rádios, exaltando o papel dos aviadores e da Força Aérea Brasileira.

Como foi o acidente que mudou tudo?

No dia 22 de dezembro de 1959, o cadete da Aeronáutica Eduardo da Silva Pereira, resolveu fazer graça durante uma sessão de treinamento e causou uma terrível tragédia.

Ele quis impressionar a namorada, que morava em Manguinhos, e saiu de Campo dos Afonsos para fazer manobras sobre a casa dela. Acabou entrando na rota de um voo da Vasp, vindo de Brasília, que se preparava para pousar no Galeão, e os aviões colidiram.

Todos os 64 passageiros e tripulação morreram, assim como moradores das seis casas destruídas pelos destroços. Nunca se chegou a uma conclusão final do total de óbitos.

Só o cadete escapou, ejetando-se com paraquedas. Diante da escandalosa situação, a Força Aérea abafou o caso o quanto pôde, mas expulsou o cadete, sem maiores explicações, um ano após o episódio.

Parar abafar a polêmica que tomou conta dos jornais da época, as autoridades adotaram uma saída espetacular: culparam o local do crime.

O que foi alegado para acabar com suas operações?

Apesar de Manguinhos não ter nada a ver com o acidente, alegou-se que o seu tráfego aéreo oferecia perigos para os pousos e decolagens no Galeão e nos Santos Dummont.

Finalmente bateram o martelo: o terreno era instável e sofria com enchentes, a pista pequena e a proximidade com áreas residenciais insustentável.

Na verdade, Manguinhos já estava condenado pela pressão para concentrar as operações no Galeão, que tinha condições incomparáveis: pista três vezes maior, solo firme, espaço livre para expansão e capacidade de receber aviões de maior porte.

E como tudo acabou?

Logo após o acidente, o aeroporto foi gradualmente deixando de operar. Oficialmente a pista foi desativada em 1960, mas há registros de pousos e decolagens até 1961.

As instalações foram abandonadas e, pouco a pouco, demolidas ou ocupadas. Os hangares viraram armazéns improvisados, e a torre foi destruída. Nada restou visível da estrutura original. O que sobrou foi incorporado à ocupação urbana desordenada.

Na década de 1980 grande parte do terreno foi usado para construir a Vila do João, parte do conjunto de favelas da Maré, que recebeu esse nome em homenagem a João Baptista Figueiredo, então presidente do Brasil. O terreno virou território de habitação popular, consolidando o apagamento da memória do aeroporto na memória carioca.

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