Neste domingo (18), milhões de eleitores em Portugal retornam às urnas para escolher os 230 deputados da Assembleia da República e definir o premiê, em uma das eleições legislativas mais disputadas e fragmentadas dos últimos anos. Esta é a terceira vez em pouco mais de três anos que o país realiza uma eleição nacional, em meio a sucessivas crises políticas e à crescente polarização entre partidos tradicionais e novas forças populistas.
Oito partidos ou coligações concentram a disputa. As pesquisas apontam que a Aliança Democrática (AD), bloco de centro-direita atualmente no poder, lidera a preferência do eleitorado, com 34% das intenções de voto. Com isso, o atual primeiro-ministro interino, Luís Montenegro, pode permanecer no cargo — embora, para isso, precise formar alianças, já que dificilmente algum partido atingirá sozinho a maioria de 116 assentos no Parlamento.
A principal força de oposição, o Partido Socialista (PS), aparece com 26% das intenções de voto. Já o Chega, partido de extrema direita liderado por André Ventura, mantém uma base sólida de apoio, estimada em 19%, mas encontra dificuldades para ampliar sua influência após uma série de escândalos envolvendo integrantes da legenda.
Segundo levantamento da Universidade Católica Portuguesa, publicado na sexta-feira (16), a AD poderá conquistar até 95 cadeiras — número insuficiente para governar sozinha. Isso obrigará Montenegro a buscar apoio de partidos menores para viabilizar um novo mandato.
Montenegro sob pressão e resistência ao Chega
Luís Montenegro chegou ao posto de primeiro-ministro em março de 2024, após vencer as eleições com pequena margem. No entanto, seu governo foi derrubado apenas um ano depois, em uma moção de desconfiança no Parlamento, motivada por denúncias de possível conflito de interesses envolvendo negócios de sua família. A derrota por 142 votos a 88 precipitou a nova convocação às urnas.
Durante a campanha, Montenegro reafirmou sua recusa em formar qualquer tipo de aliança com o Chega, mantendo o discurso de que “não é não” para um governo com apoio da extrema direita. A AD, formada pelo Partido Social Democrata (PSD) e pelo CDS-PP, defende redução de impostos, combate à crise habitacional e maior controle sobre a imigração.
PS busca retomar protagonismo com nova liderança
O PS, de centro-esquerda, tenta reconquistar o poder com o economista Pedro Nuno Santos, de 48 anos, que assumiu a liderança da legenda após a renúncia de António Costa em 2023. Costa deixou o cargo após ser citado em investigações ligadas à gestão de grandes projetos públicos, embora nenhuma acusação tenha sido confirmada até agora.
Santos, ex-ministro adjunto, foi uma das figuras centrais na articulação do apoio da extrema-esquerda ao primeiro governo de Costa. Seu desafio agora é reconduzir o PS ao protagonismo sem a maioria absoluta que deu sustentação aos governos anteriores do partido.
Chega consolida base, mas enfrenta teto eleitoral
O Chega, partido fundado há apenas seis anos, consolidou-se como a terceira maior força política de Portugal nas últimas eleições e hoje detém 50 cadeiras no Parlamento. Com uma pauta centrada em combate à corrupção, restrição à imigração e endurecimento das leis penais, o partido liderado por André Ventura se apresenta como “antissistema” — embora sustente ideiais de extrema direita –, atacando tanto o PS quanto o PSD.
Apesar de manter índices de apoio próximos a 18%, o crescimento da legenda parece ter estagnado, impactado por escândalos internos e pela rejeição de setores moderados da sociedade portuguesa.
Outros partidos na disputa
Entre os partidos menores, o Iniciativa Liberal (IL), liderado por Rui Rocha, aparece com cerca de 6% das intenções de voto. A legenda, de orientação pró-mercado, defende desburocratização e redução de impostos, sendo vista como possível parceira da AD em um eventual governo de coalizão.
À esquerda, o Livre, liderado por Rui Tavares, e o Bloco de Esquerda, comandado por Mariana Mortágua, disputam espaço com a CDU (Coligação Democrática Unitária), uma coligação entre comunistas e verdes. Todos esses partidos enfrentam dificuldades para ampliar sua base no Parlamento e tendem a manter desempenho modesto.
O PAN (Pessoas–Animais–Natureza), com foco em causas ambientais e defesa dos direitos dos animais, deve, no máximo, manter um assento parlamentar, sob a liderança de Inês Sousa Real.
Como funcionam as eleições em Portugal
Diferentemente do sistema presidencialista brasileiro, Portugal adota um modelo semipresidencialista, com divisão de poderes entre o presidente da República e o primeiro-ministro. O Parlamento é eleito por meio de voto proporcional em listas partidárias, ou seja, o eleitor escolhe um partido, não um candidato.
O partido ou coligação que obtiver mais votos terá o direito de tentar formar governo, mas precisa alcançar ou negociar maioria no Parlamento. Caso contrário, o presidente da República pode convidar outras formações políticas a tentar montar uma maioria viável.
Terceira eleição em três anos
Os portugueses voltam às urnas pela terceira vez desde 2022. Naquele ano, o PS, sob liderança de António Costa, obteve maioria absoluta. Em 2023, Costa renunciou. Montenegro assumiu em 2024, mas teve seu governo reprovado meses depois. Agora, o país busca estabilidade política em meio à incerteza sobre quem será capaz de reunir maioria para governar.
O resultado da eleição deste domingo pode desenhar não apenas o próximo governo, mas também o rumo da política portuguesa nos próximos anos, em um contexto europeu de avanço da extrema direita e de crescente descrença nas forças tradicionais.





