Política restritiva de Trump afasta turistas da Copa e prejudica setor hoteleiro nos EUA

Restrições migratórias, dificuldades para obtenção de vistos e temor de deportações reduzem fluxo de turistas nas cidades estadunidenses que receberão jogos do Mundial

A Copa do Mundo de 2026 ainda nem começou oficialmente, mas um dos setores que mais esperavam lucrar com o torneio já contabiliza resultados abaixo do esperado nos Estados Unidos. O segmento hoteleiro das cidades dos EUA que receberão partidas do Mundial enfrenta índices de ocupação inferiores às projeções iniciais e vê crescer a preocupação com os efeitos das políticas migratórias adotadas pelo governo do presidente Donald Trump.

Enquanto os Estados Unidos concentram a maior parte das sedes da competição, os números mostram que o entusiasmo dos turistas estrangeiros tem se direcionado com mais intensidade para cidades do Canadá e do México, os outros dois países anfitriões da Copa.

Dados da empresa CoStar, especializada em análises do mercado hoteleiro, apontam que Vancouver, no Canadá, e Guadalajara, no México, lideram a procura por hospedagem entre as cidades-sede, com 48% das vagas de hotéis já ocupadas. Em contraste, a maior parte das cidades estadunidenses não alcança sequer 40% de ocupação, com exceção de Los Angeles.

O cenário tem sido interpretado pelo setor como um reflexo direto das restrições migratórias e dos obstáculos enfrentados por turistas e integrantes de delegações para ingressar em território estadunidense. As informações são do portal g1.

Política migratória afasta visitantes

Representantes da indústria do turismo avaliam que as medidas adotadas pela Casa Branca têm provocado insegurança entre viajantes internacionais e reduzido o interesse em acompanhar a competição nos Estados Unidos.

Entre as decisões que mais preocupam o setor estão as restrições de entrada impostas a cidadãos de dezenas de países e a interrupção de vistos de imigração para diversas nacionalidades.

A situação afeta inclusive seleções classificadas para a Copa do Mundo. Delegações como as do Haiti e do Irã enfrentam proibições de entrada no território dos EUA. Já Costa do Marfim e Senegal estão submetidos a restrições parciais, enquanto outras equipes relataram dificuldades para concluir procedimentos consulares e obter autorizações de viagem.

A consequência tem sido o redirecionamento de parte do público internacional para cidades canadenses e mexicanas, consideradas alternativas mais acessíveis e menos burocráticas para acompanhar o torneio.

Incidentes em aeroportos aumentam preocupação

Além das dificuldades relacionadas à obtenção de vistos, episódios registrados em aeroportos dos EUA ampliaram a sensação de insegurança entre turistas e profissionais ligados ao futebol.

Um dos casos mais comentados envolveu o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, apontado pela Fifa como o principal árbitro do continente africano. Ele foi impedido de entrar nos Estados Unidos após passar 11 horas sendo interrogado por agentes de imigração e acabou ficando fora da competição.

Outro episódio ocorreu com o atacante iraquiano Aymen Hussein. O jogador permaneceu retido durante sete horas no Aeroporto Internacional O’Hare, em Chicago. Segundo as autoridades de segurança, houve uma confusão de identidade que levou à retenção do atleta.

Casos como esses ganharam repercussão internacional e passaram a ser citados por operadores do setor turístico como exemplos do ambiente de incerteza enfrentado por visitantes estrangeiros.

O temor de enfrentar inspeções rigorosas, atrasos prolongados ou até mesmo deportações tem levado parte dos torcedores a reconsiderar viagens para os Estados Unidos durante o Mundial.

Setor hoteleiro relata frustração

Uma pesquisa realizada pela Associação de Hotéis e Hospedagem dos Estados Unidos (AHLA) reforça o clima de preocupação no setor.

Segundo o levantamento, cerca de 80% dos proprietários de hotéis afirmaram que o volume de reservas ficou abaixo das previsões formuladas para a Copa do Mundo.

Além disso, 70% dos entrevistados atribuíram a redução da demanda internacional às restrições de vistos e ao aumento das preocupações geopolíticas envolvendo viagens aos Estados Unidos.

A presidente da entidade, Rosanna Maietta, reconheceu que o cenário ficou abaixo das expectativas iniciais.

“Uma série de fatores moderou o otimismo inicial, embora indicadores mostrem que ainda há oportunidades significativas pela frente. Para concretizar esse potencial, os EUA e a Fifa devem garantir uma experiência acolhedora e tranquila para os viajantes estrangeiros”, pondera a presidente da AHLA, Rosanna Maietta.

A declaração reflete uma preocupação crescente entre empresários do setor, que apostavam na Copa como um dos maiores impulsionadores da atividade turística da década.

Ingressos e transporte também pesam

As dificuldades migratórias não são apontadas como a única causa para a procura abaixo do esperado.

Empresários e analistas observam que os altos custos associados ao torneio também contribuíram para afastar parte dos visitantes internacionais.

O preço dos ingressos, somado aos gastos com transporte, hospedagem e deslocamentos entre cidades, elevou significativamente o custo total da viagem para os torcedores.

Em um país de dimensões continentais como os Estados Unidos, muitos visitantes precisarão percorrer grandes distâncias para acompanhar diferentes partidas, o que aumenta ainda mais as despesas.

Fifa acompanha cenário com pouca margem de ação

Embora a Fifa seja responsável pela organização da Copa do Mundo, a entidade possui pouca capacidade de interferência nas políticas migratórias adotadas pelos países anfitriões.

A situação coloca a organização em uma posição delicada, especialmente diante das críticas de setores ligados ao turismo e às delegações esportivas.

A classificação de torcedores e profissionais do futebol como potenciais alvos de medidas mais rigorosas de controle migratório tem gerado questionamentos sobre a capacidade dos Estados Unidos de oferecer uma experiência compatível com a dimensão global do evento.

Com a abertura oficial do torneio marcada para esta semana, o desempenho do setor turístico nas próximas semanas será acompanhado de perto por empresários, autoridades e organizadores. A expectativa é saber se a chegada dos jogos conseguirá reverter o quadro atual ou se as restrições impostas pelo governo estadunidense continuarão limitando o potencial econômico de uma das maiores competições esportivas do planeta.

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