As forças de segurança brasileiras mataram 6.243 pessoas em 2024, segundo dados do 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (24). Embora o número represente uma queda de 3% em relação a 2023, a proporção de mortes causadas por policiais em relação ao total de homicídios aumentou, alcançando 14,1% — quase o triplo da fatia registrada em 2014, quando a taxa era de 5,1%.
A média diária é de 17 mortos por policiais civis ou militares, em serviço ou de folga. O crescimento proporcional ocorre no contexto de uma queda geral nas mortes violentas intencionais, que recuaram 5,4% no ano passado. Com isso, a letalidade policial ganha ainda mais peso no cenário da violência nacional.
Estados com maior letalidade policial
A polícia do Amapá manteve, em 2024, a posição de mais letal do Brasil, repetindo o padrão já apontado em edições anteriores do Anuário da Segurança Pública. O estado registrou uma taxa de 17,1 homicídios provocados por policiais para cada 100 mil habitantes. Logo atrás aparece a Bahia, com índice de 10,5 homicídios por agentes de segurança na mesma proporção populacional.
No caso do Amapá, a letalidade policial atingiu um patamar alarmante: um em cada três homicídios registrados no estado ao longo do ano foi cometido por um policial. A Bahia ocupa o segundo lugar no ranking de maior letalidade e a proporção também é significativa, com um a cada quatro assassinatos tendo a participação de agentes das forças de segurança.
Entre os municípios brasileiros, Santo Antônio de Jesus, na Bahia, lidera o ranking de mortes causadas por intervenção policial. A cidade atingiu uma taxa de 30,2 mortes decorrentes de ações de agentes das polícias Militar ou Civil por 100 mil habitantes. Em segundo lugar, aparece Itabaiana, em Sergipe, com taxa de 28,6, seguida por Marituba, no Pará, com índice de 27,7.
Dos 5.570 municípios do país, 1.226 registraram ao menos uma morte decorrente de intervenção policial em 2024. Isso significa que 22% das cidades brasileiras tiveram casos de letalidade policial ao longo do ano.
São Paulo lidera aumento de mortes causadas por policiais
Quando observados os estados que apresentaram aumento na letalidade policial em comparação ao ano anterior, São Paulo lidera com ampla diferença. O estado teve crescimento de 60,9% nas mortes provocadas por policiais, saltando de 504 em 2023 para 813 em 2024. Minas Gerais ocupa a segunda posição nesse aspecto, com aumento de 45,5% — passando de 137 para 200 casos em um ano.
Parte significativa das mortes causadas por policiais em São Paulo ocorreu durante a Operação Verão, deflagrada após a morte de um soldado da Rota, e concentrada na Baixada Santista. A ação, que durou de janeiro a abril, deixou 56 mortos e se tornou a mais letal da PM paulista desde o massacre do Carandiru, em 1992.
Para Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, é fundamental entender a conexão entre a violência policial e a corrupção dentro das corporações. “Se o controle do crime organizado é uma prioridade, o controle das forças policiais também precisa ser priorizado. O policial corrupto também é o policial que aperta o gatilho, e o policial que aperta o gatilho também é corrupto”, afirmou.
Samira citou o assassinato de Antônio Vinícius Gritzbach, delator do PCC, morto no Aeroporto de Guarulhos. Dezoito policiais militares foram denunciados, sendo três acusados de executar o crime na área de desembarque.
Perfil das vítimas: homens, jovens e negros
De acordo com o estudo, a maior parte das vítimas da violência policial é composta por homens negros com idade entre 18 e 24 anos. Nessa faixa etária, a taxa de mortes por intervenção policial chega a 9,6 a cada 100 mil habitantes, superando a média das demais faixas. O risco de uma pessoa negra ser morta por agentes do Estado é 3,5 vezes maior do que o de uma pessoa branca.
Ao mesmo tempo, 46 policiais foram mortos em serviço no ano passado, e outros 124 morreram de forma violenta durante a folga — total de 170 vítimas, número que representa uma queda de 4,5% e acompanha a tendência nacional de redução das mortes violentas.
Uso de câmeras corporais ainda é limitado
A discussão sobre o uso de câmeras corporais por policiais militares voltou a ganhar força nos últimos anos. Segundo o Anuário, até dezembro de 2024, dez estados tinham programas em funcionamento, enquanto outros dez testavam os equipamentos. Seis estados — Amazonas, Mato Grosso, Tocantins, Goiás, Distrito Federal e Sergipe — não possuíam qualquer previsão de implementação.
Santa Catarina, pioneira no uso das câmeras, encerrou seu programa em setembro, sob alegações de obsolescência tecnológica e falta de recursos. Ainda assim, o estado não apresentou variação significativa nas mortes por intervenção policial, em parte porque o programa ainda estava ativo em boa parte do ano.






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