Uma proposta do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para reduzir em 38% a área tombada do conjunto urbano-paisagístico da Avenida Koeler, em Petrópolis, tem causado grande preocupação entre moradores e entidades locais. A informação foi revelada pela coluna de Ancelmo Gois, do jornal O Globo. O plano, que vem sendo discutido desde 2019, prevê excluir do tombamento boa parte dos principais rios da cidade, seus afluentes e as faixas de cem metros a partir de suas margens — áreas hoje protegidas.
Em contrapartida, o projeto amplia o perímetro tombado no Centro Histórico da cidade, incluindo os morros do entorno. Ainda assim, moradores e entidades ambientais denunciam que a medida pode abrir caminho para o avanço de empreendimentos imobiliários em áreas sensíveis, pressionando o já frágil equilíbrio urbanístico e ambiental de Petrópolis.
“Nosso receio é que surja um cinturão de construções inadequadas”, afirma Myriam Born, ex-presidente da Associação de Moradores do Centro Histórico. “A gente já não tem como andar na cidade, o trânsito está insuportável, não tem lugar para estacionar, é uma qualidade de vida cada vez mais decrescente.”
A proposta marca uma ruptura com a tradição preservacionista estabelecida desde 1964, quando o tombamento original foi instituído. Embora tenham ocorrido revisões nas décadas seguintes, nenhuma resultou em redução de área protegida. A revisão atual, no entanto, é defendida por técnicos do próprio Iphan como uma forma de tornar o tombamento mais coerente e operacional.
“Esses rios e o entorno enorme acabam dispersando o nosso trabalho. São áreas que já foram descaracterizadas ao ponto de nos perguntarmos: o que estamos fazendo aqui?”, justifica Frederico Araújo, analista do Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização do Iphan. “O objetivo é que o instituto concentre esforços onde pode realmente ser útil para a cidade.”
Proposta mantém tombamento de 469 imóveis no centro da cidade
A revisão propõe manter o tombamento de 469 imóveis no centro da cidade e ampliar a proteção da antiga Companhia Petropolitana de Tecidos, no distrito de Cascatinha, incluindo estruturas industriais, casas da vila operária e elementos ferroviários históricos. Já na região da Fábrica de Tecidos Cometa, no Meio da Serra, a proteção dos bens tombados permanece, mas a área do entorno terá a tutela do Iphan reduzida — hoje, ela abrange um raio de 500 metros.
Outros bens, como a Casa Djanira, a Casa de Ana Mayworm e um imóvel na Rua Cardoso Fontes, terão as áreas de entorno redimensionadas, embora mantenham o tombamento principal. Trechos como o do Rio Quitandinha, acima do ponto conhecido como Duas Pontes, também perderão a proteção federal.
Para Alfredo de Sá Earp, da Associação Amigos de Petrópolis e Defesa Ecológica (Appande), a medida fere a lógica do projeto urbanístico que moldou a cidade desde o século XIX: “A preservação dos rios é a base de todo o sistema urbanístico de Petrópolis há 150 anos. O destombamento dos rios e de suas margens é criminoso”, critica. “Tem potencial para descaracterizar a cidade.”
Prefeitura diz que atualização do tombamento é positiva
Já Mauro Correa da Silva, do Instituto Civis, alerta para o impacto imediato que a proposta pode ter sobre o mercado imobiliário. Segundo ele, empreiteiros já demonstraram interesse nas áreas que podem ser liberadas. “Nossa preocupação continua: a cidade tem um limite de crescimento, não tem mais espaço.”
Em nota, a prefeitura de Petrópolis declarou que acompanha a discussão e considera que a atualização do tombamento “será positiva”, desde que consiga “equilibrar preservação e desenvolvimento”, garantindo uma “proteção responsável do patrimônio cultural” sem frear o “avanço sustentável da cidade”.





