PMs que defendiam Esplanada dos Ministérios no 8 de janeiro combinaram com advogados seguir linha única de defesa

‘Era muito importante porque a história de vocês converge, né? Pra depois não ter ruído, entendeu? Na hora de dar as declarações, de fazer a linha de defesa’, disse a tenente-coronel

A tenente-coronel da Polícia Militar Kelly Cezário, ex-comandante do batalhão encarregado da segurança da Esplanada dos Ministérios, sugeriu que seu subcomandante, o major Flávio Alencar, alinhasse sua defesa à do então comandante-geral da PM do Distrito Federal, Fábio Augusto, em relação aos eventos de 8 de janeiro. Naquele dia, manifestantes invadiram as sedes dos três Poderes, e Alencar, que respondia pelo Batalhão dos Poderes em razão das férias de Kelly desde o dia 3 de janeiro, tornou-se réu em uma ação penal que acusa omissão por parte da PM do DF.

Kelly não foi denunciada no caso e não há indícios de que esteja sendo investigada, embora existam apurações sob sigilo. A sugestão dela foi feita em áudios enviados à esposa de Flávio Alencar e obtidos pela Folha de S. Paulo. Nas gravações, a tenente-coronel recomenda que a advogada do major procure a defesa de Fábio Augusto e de seu ex-ajudante de ordens, o capitão Josiel Pereira César, para alinhar estratégias jurídicas.

A reportagem tentou contato com Kelly por telefone e mensagens, mas não obteve resposta. A defesa de Flávio Alencar declarou que só se manifesta nos autos do processo. Procurado, o capitão Josiel também não respondeu às tentativas de contato, enquanto a defesa de Fábio Augusto preferiu não comentar.

À época dos eventos, a Polícia Militar do Distrito Federal enfrentava divisões internas e disputas por cargos estratégicos, incluindo o comando-geral. Kelly era considerada próxima ao então comandante Fábio Augusto, à subsecretária de operações integradas, Cíntia Queiroz, e ao ex-comandante do 1º Comando de Policiamento, Marcelo Casimiro, que supervisionava o Batalhão dos Poderes.

Esses líderes competiam pelo controle da corporação com outros nomes de peso, como Jorge Eduardo Naime Barreto, chefe do Departamento Operacional da PM, e Klepter Rosa, então subcomandante da instituição. Após os ataques de 8 de janeiro, Klepter foi promovido a comandante-geral, marcando uma mudança significativa na liderança da PM-DF.

O primeiro contato ocorreu em 7 de fevereiro de 2023, dia em que Flávio, Josiel, Naime e o também policial militar Rafael Pereira Martins foram presos por suspeita de omissão na depredação das sedes dos três Poderes.

Fábio Augusto, que também é réu na investigação sobre a omissão da PM, estava solto na ocasião. Ele foi demitido do comando-geral da Polícia Militar no dia seguinte ao ataque golpista e preso em 10 de janeiro, mas foi solto nos primeiros dias de fevereiro. Depois, em 18 de agosto de 2023, Fábio teve nova ordem de prisão, revogada apenas em março deste ano.

“Qual é o ideal, Carol? É você colocar a advogada do capitão Josiel e o advogado do coronel Fábio Augusto pra vocês fazerem uma mesma linha de defesa, entendeu? Porque é uma história só”, diz Kelly para a esposa do major Flávio Alencar, Carolyne Alencar.

“Era muito importante porque a história de vocês converge, né? Pra depois não ter ruído, entendeu? Na hora de dar as declarações, de fazer a linha de defesa. […] Eu posso conseguir todos os telefones dos advogados. E passo pra você. E aí você, se houver interesse dela em uma situação só, ela entender como é que está a defesa dos outros para também seguir na mesma linha. Porque é a mesma história.”

A esposa do major agradeceu pelo contato e disse que conversaria com a advogada. Kelly então envia, em um aplicativo de mensagens, o telefone dos advogados do ex-comandante-geral da PM e do ex-ajudante de ordens.

A tenente-coronel insiste no contato em outras ocasiões. “Você viu que eu mandei os telefones dos advogados pra você? Porque assim, se eles pudessem pelo menos dar uma conversada entre eles, né?”, diz Kelly por telefone.

“Um é advogado do coronel Fábio e o outro é advogado do Josiel. Então, enfim, disponibilizei pra você e você vê o que conversa com o advogado, que vocês entenderem que seja melhor. É só pra poder fortalecer uma linha de defesa, né?”, completa a tenente-coronel.

O major Flávio Alencar foi preso duas vezes. O episódio que o levou à prisão pela primeira vez, em fevereiro de 2023, o colocou em rota de colisão com Fábio Augusto. O major foi acusado de esvaziar uma barreira do Batalhão de Choque que estava posicionada entre a Câmara dos Deputados e a sede do Supremo Tribunal Federal (STF).

Em depoimentos, ele afirmou que desfez a linha de contenção ao receber a informação de que Fábio Augusto estava cercado e ferido no Congresso Nacional.

O coronel Josiel Pereira César — então ajudante de ordens de Fábio Augusto — afirmou ao STF que não houve ordem do comandante-geral para desmontar a barreira. Josiel confirmou, porém, que Flávio Alencar o encontrou no Salão Verde da Câmara e perguntou sobre Fábio.

A segunda prisão de Flávio ocorreu em maio de 2023 após a Polícia Federal encontrar uma mensagem enviada por ele em dezembro de 2022 em um grupo de PMs em que dizia: “Na primeira manifestação, é só deixar invadir o Congresso”.

O major afirma que não discutia a ameaça de bolsonaristas na reta final do governo, mas sim o possível fim do Fundo Constitucional — dinheiro da União que é repassado para o Governo do Distrito Federal custear a PM e outros gastos com segurança, saúde e educação.

A PF localizou um áudio no celular do major Flávio em que ele comenta o contato de Kelly com sua esposa e afirma que ela tentou encontrar “furos” para incriminá-lo sobre os ataques golpistas. O interlocutor do major não é identificado no documento.

“O pessoal do sexto [batalhão da PM] conversou comigo, falou que a coronel Kelly, bicho, ela estava procurando qualquer furo que eu tivesse quando eu estava no comando em exercício lá do sexto, bicho, pra botar no meu rabo, entendeu? Inclusive, velho, a coronel Kelly, enquanto eu estava preso, ela estava assediando a Carol [mulher de Flávio], fazendo pressão, pressionando a Carol aqui pra que ela convencesse a minha advogada pra acertar depoimento.”

Mesmo de férias em 8 de janeiro, a tenente-coronel é citada pelo diretor da polícia da Câmara, Paul Pierre Deeter, em depoimento ao STF, em maio.

Deeter afirma que um dos policiais legislativos falou com Kelly duas vezes no dia 8, por volta das 11h e das 13h. Segundo ele, Kelly afirmou ao agente “que estava em condições de atuar” e que estava tudo sob controle.

A informação de Deeter sobre Kelly ainda não foi esclarecida pelas autoridades. A tenente-coronel deixou o Batalhão dos Poderes após 8 de janeiro e é hoje supervisora de operações no Centro Integrado de Operações de Brasília, subordinado à Subsecretaria de Operações Integradas da Secretaria de Segurança Pública do DF.

Com informações da Folha de S. Paulo.

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