Auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passaram a interpretar os movimentos recentes do governo dos Estados Unidos na América Latina como parte de uma estratégia que pode ter impacto direto sobre a eleição presidencial brasileira. No Palácio do Planalto, integrantes do governo enxergam o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, como uma das figuras centrais de uma articulação destinada a ampliar a influência de Washington na região e, ao mesmo tempo, criar dificuldades para a tentativa de reeleição de Lula.
A avaliação ganhou força depois que o Departamento de Estado dos Estados Unidos divulgou um vídeo recuperando a Doutrina Monroe, formulada em 1823, durante o governo do presidente James Monroe. A peça defende a predominância estadunidense no Hemisfério Ocidental e resgata episódios históricos relacionados à atuação de Washington no continente.
A percepção de integrantes da equipe presidencial sobre a atuação de Rubio foi revelada nesta quarta-feira (12) pelo blog do jornalista Valdo Cruz, no g1. No entorno de Lula, o entendimento é que o vídeo não deve ser visto apenas como uma referência histórica, mas como uma manifestação da política externa adotada pelo governo Donald Trump para a América Latina.
Doutrina Monroe volta ao centro da política externa
Criada no século XIX, a Doutrina Monroe surgiu em um contexto de disputa entre os Estados Unidos e potências europeias pela influência sobre o continente. Em sua formulação original, Washington rejeitava novas interferências europeias nas Américas, enquanto se comprometia a não intervir nos assuntos internos da Europa.
Ao longo das décadas seguintes, porém, a doutrina passou a ser associada à expansão da influência política, econômica e militdos EUA sobre países latino-americanos. Agora, o conceito voltou ao centro do debate depois de o Departamento de Estado divulgar uma peça na qual sustenta que a predominância dos EUA no Hemisfério Ocidental não voltará a ser questionada.
Para auxiliares de Lula, a iniciativa indica uma tentativa de reafirmar a América Latina como área prioritária de influência dos Estados Unidos em um momento de crescente disputa geopolítica com a China.
Essa preocupação não está restrita ao Planalto. Análise publicada em março pela Escola de Guerra Naval apontou que documentos recentes de segurança e defesa dos Estados Unidos demonstram uma priorização da América do Sul e uma preocupação particular com a presença chinesa. O estudo cita Pequim como importante parceiro comercial e investidor em diversos países da região, inclusive no Brasil.
China é vista como principal alvo da estratégia
Na avaliação de integrantes do governo brasileiro, a China ocupa o centro da movimentação dos EUA. A leitura é que Washington pretende reduzir a expansão econômica e diplomática de Pequim na América Latina e recuperar espaços de influência perdidos nas últimas décadas.
O Brasil ganha relevância especial nessa disputa. Além de ser a maior economia e o país mais populoso da América do Sul, mantém relações comerciais expressivas com a China e busca preservar uma política externa baseada no diálogo com diferentes polos de poder.
Pequim tornou-se um ator de peso em setores estratégicos de diversos países latino-americanos, com investimentos em infraestrutura, energia e outras áreas. Essa expansão é acompanhada com atenção por Washington e aparece como uma das razões para a retomada de uma política mais assertiva dos Estados Unidos em relação ao continente.
Nesse cenário, assessores presidenciais avaliam que a pressão sobre o governo Lula ultrapassa divergências bilaterais específicas e deve ser compreendida dentro da disputa mais ampla entre Estados Unidos e China.
Planalto vê componente eleitoral
A interpretação dentro do governo brasileiro também inclui uma dimensão eleitoral. Auxiliares de Lula avaliam que Marco Rubio e outros integrantes da ala mais ideológica do governo Trump têm interesse no fortalecimento de forças conservadoras na América Latina.
É nesse ponto que interlocutores do presidente relacionam a política externa estadunidense ao cenário eleitoral brasileiro. Segundo essa avaliação, movimentos destinados a enfraquecer politicamente Lula poderiam favorecer forças de direita na eleição presidencial.
Integrantes do Planalto também observam a proximidade de aliados da família Bolsonaro com setores do governo dos EUA, particularmente com Marco Rubio. Para esses assessores, as conexões políticas reforçam a percepção de que o Brasil ocupa uma posição estratégica não apenas na disputa internacional por influência, mas também no projeto político da direita latino-americana.
A avaliação, porém, parte de integrantes do governo Lula e não representa, por si só, comprovação de uma operação eleitoral coordenada pelos Estados Unidos para interferir na eleição brasileira.
Vídeo aumenta preocupação em Brasília
O conteúdo divulgado pelo Departamento de Estado ampliou essas preocupações. A gravação recupera episódios relacionados à Doutrina Monroe e apresenta a atuação dos Estados Unidos no continente como parte de uma política de defesa de seus interesses estratégicos.
A publicação também menciona acontecimentos históricos como a crise dos mísseis de Cuba e episódios da Guerra Fria. A divulgação foi acompanhada de uma mensagem atribuída a Trump defendendo que a predominância dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental não seja novamente colocada em dúvida.
Para auxiliares de Lula, a escolha de recuperar a Doutrina Monroe justamente no atual ambiente de disputa internacional reforça a percepção de que Washington pretende delimitar sua área de influência e enviar um recado especialmente à China.
Nos bastidores, membros do governo brasileiro chegaram a comparar a ala comandada por Rubio aos personagens do desenho animado Os Pinguins de Madagascar, em referência ao que consideram uma condução improvisada e excessivamente ideológica da política externa dos EUA.
Apesar do tom bem-humorado da comparação reservada, a avaliação política no Planalto é tratada com seriedade. Para integrantes do governo, a mensagem do vídeo é mais ampla do que uma discussão histórica: sinalizaria a disposição dos Estados Unidos de recuperar protagonismo direto sobre os rumos políticos, econômicos e estratégicos das Américas.
Com a eleição presidencial brasileira no horizonte e a crescente competição entre Washington e Pequim pela influência na América Latina, auxiliares de Lula acreditam que os próximos movimentos do governo Trump serão acompanhados com atenção redobrada por Brasília.







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