O Palácio do Planalto decidiu avançar na troca de cargos dentro da Caixa Econômica Federal, um dos principais redutos políticos do Centrão. O movimento faz parte da estratégia de reacomodação da base aliada após a derrota do governo na votação da medida provisória que tratava da taxação do IOF. Segundo interlocutores, parte das 12 vice-presidências do banco deve ser substituída, assim como funções de assessoria e diretorias intermediárias.
A decisão foi tema de uma reunião na segunda-feira entre a ministra da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), Gleisi Hoffmann (PT), e o presidente da Caixa, Carlos Antônio Vieira Fernandes. Indicado pelo ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), Fernandes não será trocado, mas aliados de parlamentares que usufruem de cargos sem embarcar no projeto político do governo já começaram a ser afastados.
Foco na Caixa e na base parlamentar
As vice-presidências da Caixa são hoje ocupadas por nomes ligados ao PP, PDT e Republicanos. Alguns cargos são considerados intocáveis, como o de Inês Magalhães, responsável pela área de Habitação e ligada diretamente a Lula, e outros de perfil técnico.
Na mesma semana, Gleisi Hoffmann se reuniu com Arthur Lira para discutir os cargos sob influência do PP. O encontro abordou a participação do partido no governo, mas sem tratar especificamente da Caixa. O ex-presidente da Câmara não votou na medida provisória que desencadeou a atual crise, o que levou o Planalto a poupá-lo da faxina política. O foco principal da SRI é revisar as indicações ligadas aos 251 deputados que votaram contra o governo.
Substituições e disputas partidárias
Entre as mudanças recentes, José Trabulo Júnior deixou o cargo de consultor da presidência da Caixa. Ele era ligado ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro de Jair Bolsonaro. Outra substituição atingiu a vice-presidência de Sustentabilidade e Cidadania Digital, antes comandada por Rodrigo Lemos. O posto passou a ser ocupado interinamente por Jean Rodrigues Benevides.
A escolha de Lemos havia sido atribuída ao PL, mas o líder da legenda na Câmara, Altineu Côrtes (RJ), negou envolvimento. Apesar de ser oposição, o partido costuma votar de forma dividida em pautas econômicas, apoiando medidas como a reforma tributária e o novo arcabouço fiscal.
Mesmo com a pressão de aliados, Gleisi resistiu em retaliar Arthur Lira. Integrantes do PT, no entanto, avaliam que o ex-presidente da Câmara não tem atuado para ajudar o governo, o que aumenta o mal-estar interno.
Aliados poupados e novos atritos
Diferente de Lira, o atual presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), tem mantido interlocução com o Planalto e chegou a propor uma mediação para tentar salvar a medida provisória. Motta, que indicou a vice-presidência de Governo da Caixa, também não deve ser atingido pelas mudanças.
Deputados do Centrão têm reclamado do “pente-fino” e classificam o movimento como “pouco inteligente”, alertando para possíveis retaliações em votações futuras, como a do Orçamento e de vetos presidenciais.
Cortes em outros órgãos federais
A reconfiguração de cargos não se limita à Caixa. No Maranhão, a irmã do líder do União Brasil, Pedro Lucas Fernandes, foi demitida da superintendência do Iphan. Já Gustinho Ribeiro (Republicanos-SE) perdeu o comando da coordenação estadual do Dnocs em Sergipe.
O Republicanos também foi atingido com a troca de chefia no Departamento de Obras Hídricas do Ministério da Integração Nacional, antes ocupado por um aliado do ex-deputado Gil Cutrim (MA).
O deputado Arthur Maia (União-BA) reagiu publicamente à saída de seu indicado da superintendência da Codevasf em Bom Jesus da Lapa. “O meu querido amigo Harley Xavieer deixará o seu cargo de Superintendente da Codevasf em Bom Jesus da Lapa. Harley fez história na Codevasf com o grande trabalho que desenvolveu durante todos esses anos. Ele é motivo de orgulho para todos os lapenses e os baianos”, disse em vídeo divulgado nas redes sociais.
Perdas para PSD e MDB
Também foram atingidos cargos do PSD e do MDB. Superintendências do Dnit no Paraná, Maranhão, Pará, Minas Gerais e Roraima passaram por mudanças após parlamentares desses partidos votarem contra a MP do IOF.
A deputada Helena Lima (MDB-RR), apontada como madrinha de uma das indicações, perdeu o posto após se posicionar contra o governo. Nenhum dos parlamentares citados comentou as demissões.
Com o rearranjo, o Planalto tenta reforçar o controle político sobre os órgãos federais e demonstrar autoridade sobre a base aliada, num momento em que o governo se vê enfraquecido no Congresso. A mensagem, segundo um assessor, é direta: “quem quiser continuar no governo, precisa estar com o governo”.






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