PF suspeita que ex-diretores da Americanas foram informados sobre operação deflagrada contra eles

Ofício sigiloso foi juntado em pedido de acesso a dados feito por um dos ex-executivos antes da Disclosure acontecer

A Polícia Federal (PF) suspeita que houve troca de informações entre ex-diretores da Americanas que foram alvo da Operação Disclosure, deflagrada na última quinta-feira. Segundo relatórios obtidos pelo jornal O GLOBO, a PF e o Ministério Público Federal (MPF) suspeitam que Marcio Cruz, que trabalhou na Americanas por 23 anos, tenha repassado informações para Anna Saicali e Miguel Gutierrez sobre as medidas cautelares (pedido para antecipar efeitos de uma decisão antes do julgamento) que levaram à operação da PF.

No último dia 6 de maio, foi juntado por engano um ofício sigiloso que tratava da existência de cinco medidas cautelares, que dependiam de apreciação judicial, em um mandado de segurança feito pela defesa de Cruz. Ele pedia acesso às delações de Flavia Carneiro e Marcelo Nunes (ex-executivos da Americanas que fizeram acordo de delação premiada), o que foi negado.

Segundo a PF, nesse ofício era mencionada a existência das cautelares de busca e apreensão, o sequestro e bloqueio de bens, além de quebras fiscal, de dados bancários e sigilo financeiro dos ex-diretores.

A PF afirma no relatório que “é possível que Marcio Cruz” tenha repassado tais informações aos demais investigados. A PF afirma que, após isso, Anna Saicali, saiu do país, no dia 16 de junho, junto com o filho “visando garantir a não aplicação da lei penal”. A PF menciona ser pouco usual comprar duas passagens de classe executiva da TAP no aeroporto de Guarulhos horas antes do voo.

Reprodução de parte de ofício sigiloso sobre caso Americanas — Foto: Arte O Globo
Reprodução de parte de ofício sigiloso sobre caso Americanas — Foto: Arte O Globo

Outro indício apontado pela PF, e reiterado pela Justiça Federal, envolve Miguel Gutierrez. Segundo a PF, o ex-CEO da Americanas — que saiu do Brasil para a Espanha (ele tem dupla nacionalidade) no dia 29 de junho de 2023, em um voo da Air France —, já havia remarcado a passagem de volta para o dia 20 de junho deste ano.

Mas, diz a PF, após ter tido ciência da existência de cautelares, não embarcou. Para a PF, os três tinham relação de “elevado nível de proximidade”, já que todos ingressaram na varejista em 2000. A defesa de Cruz disse que ele não forneceu nenhuma informação a qualquer outro investigado. Saicali e Gutierrez não responderam ao contato do GLOBO.

Ajuda de bancos à CVM

Em outro desdobramento, a Polícia Federal apontou que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) contou com a ajuda dos bancos para apontar operações atípicas de venda de ações pelos ex-diretores, como mostrou o Estado de S.Paulo.

Segundo a PF, ex-diretores, que estavam cientes da situação financeira da varejista, partiram para uma pesada venda de ações da Americanas após terem recebido a informação de que haveria mudança no comando da companhia, em meados de 2022.

Segundo a PF, a CVM recebeu comunicado do Credit Suisse por provocação da XP dando conta de operações atípicas realizadas pela Clave Gestora de Recursos, que explicou a venda das ações como “fruto da revisão do cenário macroeconômico”, que passou a ser de manutenção de juros e queda da atividade. Mas, para a PF, não houve lastro concreto na justificativa.

Em 16 de janeiro de 2023, o Itaú reportou operações atípicas, envolvendo executivos. Na ocasião, o banco disse que “foram identificados indícios do uso de informações privilegiadas em operações com ações da Americanas, realizadas ao longo do ano de 2022 por clientes da Itaú Corretora que são diretores ou ex-diretores da empresa”. Foram listados nove ex-executivos, como Gutierrez e Anna Saicali.

Segundo a PF, os investigados iniciaram processo de venda de ações por preço acima do que seria avaliado pelo mercado. A venda soma R$ 258 milhões em ações na Bolsa entre 2022 e 2023. Itaú, XP, Credit Suisse e Clave Gestora de Recursos não quiseram comentar.

E-mails falsos

Para o MPF, a fraude contábil bilionária que durou ao menos uma década não seguia sequência lógica ou temporal pré-definida no modo de atuação.

Com isso, além da criação de comitês inexistentes para ludibriar as empresas de auditoria, a antiga gestão da varejista chegou a criar e-mails falsos de fornecedores dando o “de acordo” para as cartas fictícias de Verba de Propaganda Cooperada (VPC), operação comum no varejo e quando um fornecedor paga pela melhor exposição de seus produtos. Ou seja, quem enviava o e-mail pedindo a aprovação de uma VPC respondia por meio de um e-mail falso para si mesmo.

Segundo a PF, a antiga diretoria criava lançamentos contábeis fraudulentos, referentes a VPCs inexistentes.

“Os fornecedores não tinham noção que os e-mails das cartas de VPC eram alterados”, disse Marcelo Nunes em delação à PF.

Ele explicou que a alteração das cartas consistia em modificar datas, assinaturas e valores das versões verdadeiras.

Com informações do GLOBO.

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