Eduardo Cavaliere, que completou um mês à frente da Prefeitura da capital fluminense nesta segunda-feira (20), tem dado continuidade à gestão de Eduardo Paes. Mas com características próprias. Cientistas políticos ouvidos pela Agenda do Poder o veem mais discreto em comparação ao antecessor, mas com semelhanças na mensagem à população.
Com “perfil gestor”, Cavaliere tem buscado associar a sua imagem à do ex-prefeito. Assim, defende o legado e se posiciona como uma espécie de cabo eleitoral de Paes, que deixou o cargo para concorrer ao Governo do Rio nas eleições deste ano.
“O Cavaliere está lá para virar cabo eleitoral com a mensagem: ‘Estou atento aos problemas e vou dar continuidade à gestão’. Isso é fundamental para que Paes tenha uma boa votação nas eleições para o Governo do Rio. A pauta está em torno das eleições estaduais”.
Ricardo Ismael, cientista político

Cientistas políticos analisam a reação de Cavaliere na última semana após assistir ao vídeo que mostra uma artesã sendo agredida pela Guarda Municipal na Zona Sul do Rio. “Não podemos aceitar medidas desproporcionais, violência e cenas como essa. Peço desculpas à artesã”, disse o prefeito do Rio. Ele determinou o afastamento imediato dos agentes das ruas e a abertura de uma investigação interna.
Ricardo Ismael aprovou a postura. “O próprio Cavaliere gravou um vídeo, dizendo que aquilo estava errado e que estava atento à situação. Aconteceu e ele já se pronunciou imediatamente. Vejo como algo positivo”.
Ele também vê pontos em comum com o ex-prefeito. “Ele segue o estilo do Paes, usando as mesmas ferramentas na comunicação política para dar continuidade à gestão. O Cavaliere está procurando se mostrar como alguém que está atento a tudo o que está acontecendo”.

Outro episódio que reforçou esse tipo de postura foi o anúncio do novo decreto para tornar mais rígidas as regras de circulação de bicicletas elétricas no Rio, um dia após o acidente que matou uma mulher e o filho dela de 9 anos, atropelados na Tijuca no dia 30 de março.
Entre os principais pontos do decreto está a proibição em vias com velocidade acima de 60 km/h, circulação pelo lado direito da pista onde é permitido. E, em ruas com limite de até 40 km/h, permissão na pista de rolamento, também pelo lado direito.
“Ele coloca a cara quando tem um problema, como o Paes sempre fez. Ele assume a responsabilidade”.
Geraldo Tadeu, cientista político
Protagonismo, mas sem ofuscar Paes
Cientista político e colunista de Agenda do Poder, Paulo Baía diz ver a continuidade do Governo Paes com uma “digital de jovialidade”. Aos 31 anos, Cavaliere é o prefeito mais jovem da história do Rio.
Formado em Direito com concentração em Matemática Aplicada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), o atual prefeito ingressou na política em 2018. Na época, tinha apenas 23 anos e começou a atuar como ajudante de ordens de Paes na campanha ao Governo do Rio.

Com a vitória de Paes na eleição municipal de 2020, Cavaliere foi nomeado secretário de Meio Ambiente, cargo ocupado nos dois primeiros anos da gestão. Em 2022, foi eleito deputado estadual com 33.688 votos.
No ano seguinte, se licenciou do cargo para atuar como secretário-chefe da Casa Civil. A função é considerada uma das mais estratégicas da administração pública. Em 2025, assumiu o cargo de vice-prefeito após a vitória de Paes nas urnas.
“O Cavaliere tem uma experiência técnica e prática precoce na gestão pública. É uma experiência elaborada de quem busca equacionar os conflitos, fundamental para a formação de uma renovação com uma nova geração política”.
Paulo Baía, cientista político
Segundo Baía, Cavaliere está presente no cotidiano do Rio, com manifestações sobre demandas da capital fluminense atendidas pela administração municipal. Mas com uma postura mais comedida. “Ele é mais discreto, não tem aquele perfil eufórico do Paes. O Cavaliere está tendo protagonismo, mas sem ofuscar o legado do seu antecessor. Tem identidade própria, não é um ventríloquo do Paes”.

Dinâmicas visíveis para a sociedade e busca por ‘brilho próprio’
A cientista política Mayra Goulart diz ver ações de Cavaliere voltadas à inauguração de obras de urbanização, apoio a grandes eventos e ao turismo, seguindo os passos de Paes.
“Com perfil mais discreto e de gestor, ele tem dado continuidade às marcas de Paes, com dinâmicas mais visíveis para a sociedade. Mas ele vai ter muita dificuldade para se diferenciar do ex-prefeito”.
Mayra Goulart, cientista política
O cientista político Ricardo Ismael também cita a inauguração de obras como um legado de Paes. “Isso passa a impressão de que a Prefeitura está conseguindo produzir muitas coisas. E o Cavaliere continua com essa pauta, mostrando intervenções principalmente em áreas periféricas. Isso reforça investimentos feitos para atender as demandas da população”.
Na lógica da continuidade, o cientista político Geraldo Tadeu não vê alterações significativas nas políticas públicas do Rio. “Como está fazendo parte do projeto político de Paes, ele não vai mudar o rumo da gestão. O Cavaliere ainda não tem brilho próprio. Isso virá ao longo dos próximos anos. As cartas políticas vão ser redistribuídas”, avalia.
Ele diz, ainda, que Cavaliere foi o escolhido para suceder Paes para afastar eventuais rixas entre membros do governo com maior experiência política.
“O Paes conduziu uma gestão mais moderna e racional. O Cavaliere também tem esse olhar para a administração pública. Ele tem a mentalidade de gestor, com avaliação de resultados e racionalidade administrativa”.
Geraldo Tadeu, cientista político
Ricardo Ismael cita o que vê como uma marca pessoal do estilo de gestão de Cavaliere. “Ele postou vídeo da chegada na Prefeitura às 6h, querendo associar a imagem dele a de uma pessoa atenta aos problemas da cidade, que acorda cedo para mostrar serviço à população. O Cavaliere está se colocando na frente dos holofotes”, diz o cientista político, em uma análise de quem se projeta para representar a nova geração de políticos no Rio com o que se vê como uma espécie de “passada de bastão” de Paes.


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