PF apreendeu cerca de R$ 614 mil em endereços ligados a Ciro Nogueira no caso Master

Relatórios que tiveram o sigilo levantado pelo STF detalham dinheiro em reais, dólares e euros, além de documentos encontrados em churrasqueira na residência do senador

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A Polícia Federal (PF) apreendeu o equivalente a cerca de R$ 614 mil em dinheiro vivo durante buscas realizadas em endereços ligados ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), em maio deste ano, na quinta fase da Operação Compliance Zero, informa Malu Gaspar em sua coluna no jornal O Globo. As diligências integram as investigações sobre suspeitas relacionadas ao Banco Master e foram autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Os detalhes das apreensões tornaram-se públicos após o ministro André Mendonça levantar o sigilo de procedimentos relacionados ao caso. Em 11 de setembro, o próprio STF informou ter disponibilizado 25,3 GB de documentos, vídeos e áudios das investigações.

Segundo os relatórios policiais, foram encontrados R$ 31.760 e 14.070 euros em um cofre na residência do parlamentar em Teresina, no Piauí. Pela cotação atual considerada no levantamento, os euros correspondem a aproximadamente R$ 83 mil.

Na residência de Ciro em Brasília, os investigadores apreenderam US$ 27.735, equivalentes atualmente a cerca de R$ 143 mil, além de 1.555 euros, aproximadamente R$ 9,2 mil, no escritório do senador.

Malas e objetos de luxo chamaram atenção da PF

O relatório policial também registra que os agentes encontraram na casa de Brasília malas de viagem vazias identificadas com nomes de terceiros. Para os investigadores, a circunstância levantou suspeitas sobre eventual utilização das bagagens para transportar valores. A observação consta do relatório da PF e não representa, por si só, comprovação de que as malas tenham sido usadas com essa finalidade.

“A diligência também evidenciou sinais de elevado padrão econômico, a exemplo de adega contendo vinhos e whiskies de alto valor e diversas bolsas de grife internacional. No closet, foram identificadas várias malas de viagem vazias com etiquetas em nome de terceiros, incluindo familiares do investigado, circunstância que levantou suspeitas quanto à possível utilização para transporte de valores”, diz o documento, que também mencionou joias e relógios de luxo no cofre do parlamentar.

Ciro é investigado pela suspeita de ter recebido vantagens indevidas em troca de atuação favorável aos interesses de Daniel Vorcaro e do Banco Master. A investigação também apura o pagamento de despesas e viagens do parlamentar. As acusações ainda estão sob apuração.

Em 2024, o senador apresentou uma proposta que previa ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A medida, que não foi aprovada, passou a ser examinada pelos investigadores no contexto da apuração sobre sua relação com Vorcaro.

Dinheiro também foi encontrado na casa do irmão

Em outro imóvel atribuído ao presidente do PP, os policiais localizaram dinheiro em reais, dólares e euros, mas consideraram os valores compatíveis com a capacidade econômica da moradora, a ex-senadora Eliane Nogueira, mãe de Ciro.

Segundo a PF, a quantia não foi apreendida “por não apresentar indícios de vinculação com os fatos investigados”.

Já na residência de Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão do senador e também investigado no caso, a PF apreendeu equipamentos eletrônicos, veículos de luxo e dinheiro. Foram encontrados 10.155 euros e US$ 55.733, valores que, pela conversão atual apresentada nos documentos, correspondem a aproximadamente R$ 60,1 mil e R$ 287,3 mil, respectivamente. Raimundo é investigado pela suspeita de ter atuado como intermediário em supostos repasses ao senador.

“Questionado acerca da existência de valores em espécie, o alvo (Raimundo) indicou a presença de dólares e euros em um cofre familiar, afirmando que os recursos correspondiam a economias destinadas a viagens internacionais”, diz outro trecho do relatório.

Somadas as apreensões nas três diligências e consideradas as conversões atuais informadas, o montante chega a cerca de R$ 614 mil. Na época da operação, com base nas cotações médias daquele momento, a própria PF estimou o total em aproximadamente R$ 589 mil.

Documentos foram encontrados em churrasqueira

Outro episódio registrado durante as buscas ocorreu na residência de Ciro em Brasília. Policiais encontraram documentos dentro de uma churrasqueira, entre eles um rascunho com a palavra “Câmara” e nomes acompanhados de números.

O material contém referências a “Arthur”, “Hugo” e “Luizinho”, identificados pela PF como sendo “provavelmente” os deputados Arthur Lira (PP-AL), Hugo Motta (Republicanos-PB) e Doutor Luizinho (PP-RJ). A identificação é uma interpretação dos investigadores e o conteúdo do documento ainda é objeto de apuração.

“Ressalte-se que, ao lado de cada nome, há números e, em seguida, valores (provavelmente), o que carece de esclarecimento”, afirma o relatório.

De acordo com o documento policial, uma funcionária doméstica declarou durante a operação que Ciro havia determinado que os papéis fossem queimados. Segundo o relato registrado pela PF, a ordem não teria sido executada “por ausência de tempo hábil”.

Documentos vieram a público após decisão do STF

A divulgação dessas informações ocorreu no contexto da retirada do sigilo de procedimentos relacionados às investigações do Banco Master. O STF informou que Mendonça tornou públicos documentos e peças processuais após pedido do presidente da Corte, Edson Fachin.

A decisão de ampliar a publicidade dos processos ocorreu em meio a divergências no Supremo sobre o acesso aos documentos das investigações. A PGR também havia defendido maior acesso aos procedimentos, e Alexandre de Moraes criticou publicamente o que considerava uma divulgação seletiva de informações.

Procurado sobre as informações contidas nos relatórios, Ciro Nogueira não respondeu.

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