Gonet nega amizade com Vorcaro e apresenta defesa antes de julgamento no Conselho do MPF

Em documento de 30 páginas, procurador-geral detalha contatos com ex-banqueiro, diz não ter interferido em investigações e rejeita suspeição no caso Master

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O procurador-geral da República, Paulo Gonet, apresentou aos integrantes do Ministério Público Federal (MPF) uma defesa de 30 páginas na qual nega amizade ou interesses pessoais envolvendo Daniel Vorcaro e sustenta estar apto a continuar atuando nos processos relacionados ao Banco Master. O documento — acessado e divulgado pelo portal da CNN Brasil — foi distribuído internamente antes da análise do caso pelo Conselho Superior do MPF, marcada para 25 de setembro.

A manifestação responde a questionamentos provocados pelas mensagens extraídas do celular de Vorcaro e tornadas públicas no curso das investigações. O procedimento no Conselho analisa as referências ao procurador-geral e eventual hipótese de impedimento ou suspeição. Gonet classifica as imputações como “descabidas e estapafúrdias” e afirma se considerar “juridicamente plenamente apto” para atuar nos processos.

Na defesa, o PGR também recorre a uma manifestação de André Mendonça durante sessão do Supremo Tribunal Federal (STF), segundo a qual o ministro não identificou atuação irregular de Gonet nas mensagens examinadas. Ao mesmo tempo, o procurador-geral faz críticas à forma como o material foi tratado.

“Não é do meu feitio participar de debates públicos fora do lugar adequado para serem travados. Mesmo diante do reconhecimento pelo ministro que vasculhou mensagens com meu nome de que nada existe em meu desabono.”

Gonet nega amizade e interferência em investigação

Um dos principais argumentos da defesa é que sua relação com Vorcaro nunca teria ultrapassado contatos pontuais. Gonet rejeita a existência de vínculo pessoal com o ex-banqueiro.

“Em termos bastante diretos e simples, (informo) que não tenho com o Sr. Daniel Vorcaro relação de amizade alguma, nem muito menos tenho interesse pessoal nos processos em que ele conste como parte ou investigado.”

O procurador-geral também rebate as suspeitas surgidas a partir de mensagens nas quais Vorcaro buscava, por intermédio de terceiros, ajuda de alguém chamado “Paulo”. Segundo Gonet, nenhuma tentativa de interferência chegou até ele e, no período mencionado nas conversas, a atuação do MPF no caso estava a cargo de um procurador da República.

“Sendo ainda mais direto, no período em que escritas tais notas, quem atuava pelo Ministério Público Federal não era o Procurador-Geral da República, e sim um Procurador da República, que reconhece não ter recebido qualquer interferência indevida de minha parte nem que foram pedidas ou fornecidas informações sensíveis. É despropositado e mesmo injurioso extrair efeito acusatório de anotações que, confrontadas com a realidade empírica, apenas positivam que o desejo do Sr. Vorcaro nelas expressado nunca se realizou, nem me foi transmitido.”

PGR diz ter recusado duas propostas de colaboração

Gonet utiliza ainda a atuação da Procuradoria-Geral da República diante de propostas de colaboração premiada como argumento para contestar eventual favorecimento a Vorcaro.

Segundo ele, a PGR estabeleceu requisitos para aceitar acordos, como reconhecimento da responsabilidade criminal pelo colaborador, apresentação de fatos novos acompanhados de elementos de comprovação e recuperação efetiva de ativos.

“Foi com base em tais premissas, informadas aos interessados, que a Procuradoria-Geral da República, fundamentadamente, recusou duas propostas de colaboração premiada envolvendo o Sr. Daniel Vorcaro e firmou outras duas, já submetidas ao juízo homologatório do Supremo Tribunal Federal.”

Encontro em Londres teria sido único

Outro ponto detalhado na manifestação é o encontro entre Gonet e Vorcaro em Londres, em abril de 2024. O procurador-geral afirma que participou de um evento promovido pelo Grupo Voto e pela revista Consultor Jurídico e que aquela foi a única ocasião em que esteve presencialmente com o empresário.

“Foram realizadas intervenções das autoridades convidadas em painéis ao longo dos dias do encontro. Houve também momentos de convívio dos presentes. Somente aí, estive, e juntamente com diversos outros convidados, com o Sr. Daniel Vorcaro. Foi em tal contexto único que me encontrei pessoalmente com ele (única vez até então e até hoje). Repito, à época, nada havia de público sobre atividades ilícitas do Banco Master nem do seu dirigente. Nada parecido me havia chegado ao conhecimento. O que se tinha era a figura de um empresário muito bem relacionado com diversas personalidades do mundo político, empresarial e jurídico, a quem fui apresentado e com quem estive, sempre com outros convidados, sem haver entabulado nenhuma conversa de ordem profissional.”

Gonet afirma ainda que desconhecia eventual patrocínio do Banco Master ao encontro e sustenta que Vorcaro sequer fazia parte de sua lista pessoal de contatos.

“O próprio relatório da Informação de Polícia Judiciária – IPJ assinala que não consto da lista de contatos do Sr. Vorcaro. Não há registro algum de ligação efetuada por ele para o meu número de telefone – nem poderia haver mesmo, porque isso nunca aconteceu. Se o meu contato constasse da agenda telefônica do Sr. Daniel Vorcaro, evidentemente que não haveria nisso nenhum fato suspeito, mas nem isso se deu – a revelar a distância interpessoal que havia e há no caso.”

Telefonema e mensagens entram na defesa

O PGR reconhece outro contato com Vorcaro, ocorrido por telefone em 15 de março de 2025. Segundo sua versão, Ciro Soares fez a ligação e lhe passou o aparelho para uma breve saudação ao banqueiro.

“A Informação Policial me fez lembrar a única outra vez em que falei com o Sr. Vorcaro, além da oportunidade do evento de abril de 2024. Isso se deu quando, estando com o Sr. Ciro Soares, ligou ele para o Sr. Vorcaro e me passou o telefone para saudá-lo. Isso, em 15 de março de 2025. A conversa breve, seguida da interlocução do Sr. Vorcaro com o Sr. Ciro Soares, passou-se, também, antes de qualquer ciência minha de notícia de atividades ilícitas quaisquer. A breve saudação foi motivada por pedido do Sr. Ciro Soares e não envolveu senão brevíssimos instantes e sem assunto relevante ou que de qualquer forma se relacionasse com as minhas atribuições profissionais.”

Gonet também procura esclarecer mensagens reproduzidas pela Polícia Federal. Ele afirma que expressões como “já estou com saudade de você” e “você é uma máquina” teriam sido dirigidas a Ciro Soares, e não a Vorcaro. A PF havia apontado anteriormente que Soares intermediou comunicações envolvendo o procurador-geral e o então banqueiro.

“Menciona-se, ainda, em outro contexto, que eu teria dirigido – sempre por meio de mensagens encaminhadas pelo Sr. Ciro ao Sr. Vorcaro – a expressão “você é uma máquina”. Isso não era dirigido ao Sr. Vorcaro. Em verdade, referia-me, seguindo o meu estilo afetuoso, ao Sr. Ciro, sem que a frase tenha qualquer relevância, a não ser que se queira ceder a impulso de maledicência e difamação. Mais uma vez, não está no meu controle o que terceiros conversam entre si e como fazem uso de mensagens dirigidas a um deles.”

Conselho vai analisar situação do procurador-geral

O Conselho Superior do MPF marcou para 25 de setembro a análise das mensagens relacionadas a Gonet. O relator do procedimento é o conselheiro Francisco de Assis Sanseverino. Embora o procurador-geral presida o colegiado, o vice-presidente, Nicolao Dino de Castro e Costa Neto, assume questões nas quais haja impedimento do chefe da PGR.

A defesa sustenta, ao final, que os contatos descritos não comprometem a atuação institucional de Gonet no caso Master. Em outra medida relacionada às investigações, a PGR designou dois subprocuradores-gerais para atuar, em colaboração com Gonet e o vice-procurador-geral, nos procedimentos judiciais e extrajudiciais referentes ao caso.

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