Opinião

Perto da reeleição mas cada vez mais distante do Palácio Guanabara

O jogo de 2026 ainda é de bastidor. Mas a partida já começou a ser jogada. Castro é árbitro e técnico de sua própria sucessão

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RICARDO BRUNO

Em regra, eleições municipais não têm consequência em pleitos à presidência da República e a governos estaduais. São certames de lógicas distintas, desenvolvidos a partir de realidades absolutamente diferentes e, por extensão, desconectados. Na disputa municipal, prevalece o critério pragmático do eleitor, a análise objetiva sobre a qualidade de vida na cidade e no bairro. Posições ideológicas perdem força ante a realidade fática. A maioria dos eleitores define o voto a partir de resposta à pergunta que faz a si mesmo: “Minha vida melhorou ou não nos últimos anos”.

Se sim, o incumbente tem enorme possibilidade de se reeleger ou de emplacar o sucessor. Se a resposta for negativa, abre-se caminho para a mudança representada por um candidato de oposição.

Nas eleições presidenciais e nas disputas de governos estaduais são necessárias outras habilidades, além de bem administrar. É importante ter capacidade para ampliar o arco de alianças, somar forças, buscar entendimento além das próprias fronteiras, enfim, seduzir não iguais em busca de tônus e vigor para o embate com o principal adversário. É desta tessitura de arranjos políticos que se estabelece a força de tração das candidaturas viáveis.

Líder inconteste das pesquisas de intenção de votos, Eduardo Paes entra na campanha de 2024 com marcas ambivalentes. Mostra-se com enorme capacidade de vitória na disputa da reeleição, vide pesquisa do Datafolha, mas, com a mesma evidência, exibe baixa viabilidade como candidato ao governo do estado em 2026.

O paradoxo tem raízes no sucesso de sua gestão. O êxito o faz subestimar a força das alianças, criando-lhe enganosa percepção da realidade, como se os acertos no manejo administrativo lhe bastassem. O axioma contém meias verdades: os resultados são importantíssimos, decisivos na construção da imagem, mas não suficientes. Não há como se prescindir de acordos políticos em voos de maior altitude. A fórmula para êxito de grandes empreitadas contém doses generosas de capacidade administrativa combinadas com habilidade política – sem as quais, projetos de maior envergadura não decolam.

 O malsucedido desfecho das negociações da pré-campanha de Eduardo Paes  reafirma a crença recorrente a respeito da dificuldade do prefeito em construções políticas mais abrangentes, característica que talvez tenha herdado de Cesar Maia, com quem se iniciou na militância político-eleitoral.

Vejamos. Paes tentou de todas formas atrair setores de centro para sua órbita. Não só para robustecer os apoios neste pleito – o que no momento não lhe é fundamental, dada sua enorme vantagem sobre os concorrentes – mas essencialmente para descontruir a imagem de que faz política em petit comitê, com reduzido grupo de amigos.

 O que era crença se tornou convicção. A maioria das lideranças do estado prefere perder a eleição a vencer com Eduardo Paes. A vitória ao lado dele teria pouco sentido porque o prefeito, por hábito arraigado em 12 anos de mandato, não abre espaço para aliados eleitorais.  

 Inicialmente, o prefeito ensaiou namoro com o União Brasil; entregou à sigla a secretaria do Trabalho; cortejou o presidente do Alerj, deputado Rodrigo Bacellar e deu declarações públicas de apreço aos líderes partidários.  Não prosperou.

 Depois, usou todos argumentos de sedução para atrair o PP, presidido nacionalmente por Ciro Nogueira, de quem é amigo há longa data.  Fez do líder na Câmara, Dr. Luizinho, um interlocutor frequente, mas não o convenceu a seguir em parceria. O Progressista optou por candidatura própria.

Nas duas investidas frustradas foi surpreendido pela articulação do governador Cláudio Castro, que, sem alarde, neutralizou a tentativa do prefeito de expandir sua base. Estimulou Bacellar a lançar candidatura própria, o deputado Rodrigo Amorin, e intercedeu junto a Dr. Luizinho e a Ciro Nogueira para o Progressista não se aliar ao prefeito.

O governador atuou ainda para fortalecer a chapa de Marcelo Queiroz, com o ingresso dos tucanos na coligação. Diretor da Companhia Siderúrgica Nacional, o presidente nacional do PSDB, Marcondes Perillo, é interlocutor frequente de Castro. Entre conversas sobre questões de interesse da empresa, que tem sede no Rio, trataram também da necessidade de o PSDB se somar ao PP com a indicação da vereadora Teresa Bergher para vice.

Não por acaso, os gestos de Cláudio Castro para a política o fazem próximo dos dois principais nomes que figuram como prováveis candidatos ao governo do estado em 2026: Rodrigo Bacellar e Dr. Luizinho. Até as palmeiras imperais do Palácio Guanabara sabem que desta dupla vai sair o candidato que deve consolidar a união das principais correntes político-partidárias do estado. Aliados de Castro, os dois pertencem a siglas da base do presidente Lula.

 Paes perdeu  também o apoio do Republicanos, sigla próxima à Universal, após acordo com indicação do titular da secretaria de Habitação. Na chapa, o partido, de perfil conservador, faria contraponto ideológico à aliança com o PT. Se tinha ou não razão para o rompimento é outra questão. O fato é que o insucesso da aliança ajuda a confirmar a tese sobre sua dificuldade de pactuar acordos.

A escolha do vice foi outro fator a surpreender. Do alto de seu favoritismo, excluiu da chapa o PT, aliado preferencial nesta campanha. Compreendeu-se. Depois, preteriu Pedro Paulo, único nome de seu grupo com interlocução mais ampla, em favor de Eduardo Cavalieri. Ambos competentes na gestão, mas Pedro inequivocamente mais habilidoso nas tratativas com aliados e adversários. Também neste caso, deu mostras mais uma vez de que suas decisões não obedecem à lógica política; são de cunho estritamente pessoal.

O jogo de 2026 ainda é de bastidor. Mas a partida já começou a ser jogada.  Castro é árbitro e técnico de sua própria sucessão. E Eduardo  Paes está fora de campo – contundido por excesso de autoconfiança.

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Agenda do Poder.

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