Padrinhos políticos e segurança pública dão a tônica do primeiro debate Band no Rio

Associado ao ex-governador Sérgio Cabral, Paes criticou atuação estadual na segurança

O primeiro debate entre candidatos à Prefeitura do Rio, realizado ontem à noite pela TV Band, teve embates mais acirrados envolvendo padrinhos políticos e ações na área de segurança pública. O prefeito Eduardo Paes (PSD) procurou associar Alexandre Ramagem (PL) ao governador Cláudio Castro ao criticar a atuação da gestão estadual nesse setor.

Enquanto Tarcísio Motta (PSOL) reivindicou proximidade com o governo Lula (PT), o candidato do União Brasil, Rodrigo Amorim, procurou associar Paes, em tom depreciativo, tanto ao atual presidente quanto ao ex-governador Sérgio Cabral.

Amorim e Ramagem também teceram elogios ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que foi citado por Tarcísio na reta final do debate ao tachar o candidato do PL de “negacionista”.

Veja a seguir os seis padrinhos políticos mobilizaram o primeiro encontro entre os candidatos no Rio:

1- Lula: associação à esquerda

Adotando tom provocativo contra Paes na maioria de suas intervenções no debate, Rodrigo Amorim justificou sua candidatura para se contrapor ao que chamou de “projeto do soldado do Lula”, uma referência ao atual prefeito. A estratégia de colar Paes ao atual presidente, cujo partido, o PT, faz parte da coligação do PSD, busca nacionalizar a campanha do Rio — na expectativa de aglutinar o eleitorado do ex-presidente Jair Bolsonaro em uma candidatura de oposição.

No debate, Paes se referiu a Lula para dizer que tem trabalhado em conjunto com o atual presidente. O prefeito, no entanto, foi acusado por Tarcísio Motta de tentar “esconder” o presidente de sua campanha. Tarcísio reivindicou proximidade com o governo Lula em mais de um momento do debate, numa tentativa de atrair o voto da esquerda carioca.

Amorim também apostou na polarização com a esquerda, e travou embates com Tarcísio, se referindo ao PSOL como “partido da droga”. Tarcísio, por sua vez, afirmou defender a legalização das drogas e seu tratamento como questão de saúde pública.

2- Bolsonaro: pandemia e agenda conservadora

A atuação do ex-presidente na pandemia foi o pano de fundo de um embate mais acirrado entre Tarcísio Motta e Alexandre Ramagem. O psolista associou o candidato do PL ao “negacionismo”, citando sua vinculação a Bolsonaro, e criticou a postura do ex-presidente em relação à Covid-19. Ramagem, que vinha priorizando as críticas a Paes na maior parte de suas intervenções, usou esse momento para fazer uma defesa explícita do mandato do ex-presidente.

Amorim, que apelou de forma mais recorrente à imagem de aliado de Bolsonaro, iniciou sua participação no debate afirmando que “bate continência” à família do ex-presidente. Disse ainda que foi autorizado por ele a se candidatar como parte de uma “frente conservadora” contra Paes, um indicativo do papel como uma espécie de linha auxiliar da candidatura de Ramagem.

Ao ironizar a postura de Amorim, o psolista Tarcísio Motta apelidou o adversário de “Padre Kelmon” do debate carioca, em mais uma referência crítica a Bolsonaro. Kelmon, candidato do PTB na última eleição presidencial, se notabilizou justamente por atuar em dobradinhas com Bolsonaro para tentar provocar Lula nos debates televisivos de 2022.

3- Cabral: memória da Lava-Jato

Com estilo provocativo, Amorim se referiu a Paes como “Nervosinho” em diferentes momentos, e o chamou de “filho ingrato de Sérgio Cabral”. Tratavam-se de referências a investigações da Lava-Jato que levaram Cabral à prisão por seis anos, de 2016 a 2022, e que também miraram o atual prefeito — que sempre negou ter cometido quaisquer irregularidades e, diferentemente do ex-governador, que foi seu padrinho político, não teve condenações em segunda instância.

Amorim também teceu críticas à atuação da prefeitura na implementação do BRT Transbrasil, citando engarrafamentos na Avenida Brasil.

— O filho ingrato de Sérgio Cabral gastou pela primeira vez e fez o BRT no modelo errado. Gastou pela segunda vez, e agora pela terceira, atendendo aos interesses sabe-se lá de quem. Ele sumiu com o Cabral da vida dele, assim como fez com as vigas da Perimetral — provocou Amorim.

As falas de Amorim renderam a Paes um direito de resposta, no qual o prefeito centrou críticas tanto no candidato do União Brasil, quanto em Ramagem, acusando ambos de querer “acabar com o BRT”.

4- Castro: cabo de guerra na segurança pública

Em um dos primeiros confrontos do debate, Paes subiu o tom ao ser questionado por Ramagem sobre ações de sua administração na área de segurança. O prefeito associou o candidato do PL ao que chamou de “politização da segurança pública no estado”, acusando Castro, seu aliado, de abrir espaço a indicações políticas em batalhões e delegacias de polícia.

— Um grupo político comanda há seis anos a segurança pública no estado do Rio e é incapaz de dar as respostas. O governador, padrinho político do delegado Ramagem, não cumpre sua função e deixou o Rio nesse estado — criticou Paes.

Em sua resposta, Ramagem lembrou que o atual prefeito nomeou em seu gabinete o ex-secretário de Polícia Militar do governo Castro, coronel Luiz Henrique Marinho Pires.

— Paes sempre lavou as mãos e acusou governo estadual e governo federal. O chefe da Polícia Militar no governo do estado você trouxe para o seu governo — disse Ramagem.

O prefeito manteve o foco em criticar a gestão Castro na área de segurança, e retornou ao tema em outros momentos. Paes chegou a citar o domínio territorial de tráfico e milícia em outros municípios, como São Gonçalo, governado por um correligionário de Castro, em uma tentativa de sinalizar que o tema da violência urbana vai além dos limites da capital fluminense e de sua gestão.

5- Witzel: impeachment após onda bolsonarista

Na toada de associar Ramagem a pontos que considera frágeis da administração estadual, Paes também tentou colar o candidato do PL ao ex-governador Wilson Witzel, antecessor de Castro no governo do Rio. A estratégia de Paes segue a lógica de que Witzel chegou ao Executivo como alguém com pouca rodagem política, após uma campanha colada a Bolsonaro e com foco na agenda de segurança pública, atributos que também se enquadrariam no perfil de Ramagem.

Em mais de um momento, Paes se referiu a Ramagem como “aliado do Witzel”, embora a entrada do candidato do PL na política tenha sido posterior ao impeachment sofrido pelo então governador do Rio, em 2021, que abriu caminho para Castro assumir o governo.

— O que vemos hoje é uma politização da segurança. Comandantes de Batalhão e chefes de polícia são indicados por deputados estaduais. A pergunta que devolvo ao delegado Ramagem, aliado do governador Claudio Castro, do ex-governador Wilson Witzel, é o que ele acha dessa coisa de indicação política para batalhão — afirmou Paes.

6- Crivella: problemas de administração

Ao criticar os postulantes bolsonaristas à prefeitura, Tarcísio Motta fez referências ao ex-prefeito Marcelo Crivella (Republicanos). Crivella se elegeu à prefeitura, em 2016, derrotando o então psolista Marcelo Freixo com o mote de “cuidar das pessoas”. Posteriormente, se alinhou a Bolsonaro para disputar a reeleição, em 2020, quando foi derrotado por Paes.

— Tem uns aqui nesse debate que querem continuar a governar a cidade por 16 anos. Outros representam a extrema-direita que quando foi eleita prometia cuidar das pessoas, mas só entregou mentiras — disse Tarcísio, fazendo também uma crítica à longevidade de Paes na prefeitura.

Mais distante da guerra de padrinhos que envolveu outros candidatos, Marcelo Queiroz (PP) acabou associado a Crivella por Paes, que lembrou sua participação na gestão do ex-prefeito. Queiroz, por sua vez, rebateu dizendo ter participado da gestão do próprio Paes.

— Fui seu secretário de Administração, tive um bom trabalho contigo, mas você extinguiu a secretaria de Administração. A prefeitura, que antes pensava o Rio de Janeiro, hoje pensa só política — criticou Queiroz.

O candidato do PP também instou Paes a se comprometer a cumprir seu mandato até o fim, algo que o prefeito tem dito que fará. Nos bastidores, porém, Paes se movimenta para manter em aberto a possibilidade de, caso reeleito, renunciar à prefeitura em 2026 e concorrer ao governo estadual.

Com informações de O Globo

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