* Paulo Baía
Há uma frase que anda pelo Brasil como quem atravessa uma sala cheia de gente e, ainda assim, consegue silenciar tudo ao redor. É isso que temos. Ela chega com a roupa simples da resignação, mas carrega no bolso um instrumento de coerção. Não grita, não ameaça, não se impõe como decreto. Faz coisa mais eficiente. Naturaliza. Transforma o provisório em inevitável, o contingente em destino, o debate em cansaço. E quando a política aceita esse tom de conversa murmurada, ela começa a se parecer com uma porta que se fecha devagar, sem estrondo, e por isso mesmo sem protesto.
O que se segue, quase sempre, é a soberba como método. Lula, o PT e o lulismo mais devoto, embalados por vitórias e pela sensação de que o presente lhes pertence, muitas vezes deixam transparecer uma superioridade que se traveste de certeza histórica. A prepotência se apresenta como convicção. A arrogância se disfarça de pedagogia. A soberba toma o lugar da prudência, como se a sensatez fosse uma exigência para os outros, não para quem governa. O poder tem esse perfume perigoso. Ele entorpece. Ele sugere que a realidade é uma escada rolante que sobe sozinha.
Enquanto isso, a polarização se faz e se desfaz nos discursos com a mesma destreza com que um mágico esconde uma carta. Diz-se que ela não existe. E, no entanto, ela organiza o mundo. Não como tese, mas como hábito. Não como opinião, mas como estrutura. A sociedade passa a respirar um ar binário. A política deixa de ser dialética e vira escolha seca, sem mediações, sem nuance, sem tempo para o pensamento. De um lado, Lula. Do outro, os nomes que se oferecem como antítese, Tarcísio, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Ratinho Junior. O dilema não é um artifício de linguagem. Ele vira realidade porque molda a realidade. As pessoas passam a se enxergar em campos fechados, como se o país fosse um corredor estreito onde não cabe o corpo inteiro de ninguém.
Esse binarismo tem uma psicologia própria. Ele produz identidades rígidas e recompensas emocionais rápidas. Ele oferece pertencimento, que é uma moeda valiosa num tempo de solidões. Ele entrega a sensação de estar do lado certo da história, mesmo quando a história ainda está escrevendo a própria frase. Ele troca o desconforto de pensar pela tranquilidade de escolher. E, por trás disso, uma filosofia pobre vai sendo aceita sem que se perceba. A ideia de que o mundo só tem duas portas. A ideia de que a política é um jogo de soma zero. A ideia de que o futuro é apenas a repetição do presente.
Só que o tempo é o grande desmancha-prazeres das certezas. Ele não discute, não argumenta, não pede licença. Ele fia destinos como quem tece sem olhar. E, ao tecer, muda a trama. Em sociedades, não existem eternos. Existem agoras. E o agora, esse monarca vaidoso, costuma esquecer que seu reinado é curto. A história recente do Brasil está cheia de exemplos. Ela é uma professora severa, dessas que ensinam com a realidade. E a realidade, quando ensina, não usa metáforas. Usa custo.
Jair Bolsonaro é um caso emblemático dessa cobrança. Chegou como quem acredita ter recebido uma procuração do destino. Abusou. Desrespeitou a sensatez como se fosse fraqueza. Fez do bom senso uma caricatura. Tratou a prudência institucional como inimiga. Apostou na radicalização permanente, na guerra como modo de existir, no conflito como método de governo e como espetáculo. No início, a intoxicação do poder pareceu protegê-lo. Mas a política, quando se torna arrogante, começa a cavar o próprio buraco com as mãos cheias de aplausos. O preço veio. Veio em isolamento, em desgaste, em erosão de alianças, em perda de legitimidade, em fraturas internas. A vida pública cobra. A democracia cobra. O tempo cobra.
E aqui há uma lição que é sociológica, mas também é íntima. As relações humanas não são eternas. Amores acabam. Amizades também. Não porque foram falsas, necessariamente, mas porque o tempo trabalha por dentro, silencioso, transformando as pessoas, trocando as paisagens, mudando o que se tolera, o que se espera, o que se deseja. A política é feita de gente. E gente cansa. Gente se desilude. Gente muda de ideia. Gente envelhece. Gente passa a querer paz onde antes queria combate. O poder, quando não entende isso, cai na ilusão de que a lealdade é um minério inesgotável. Não é. Lealdade é planta delicada. Precisa de cuidado. Precisa de respeito. Precisa de escuta.
Escuta, aliás, é o mais raro dos talentos públicos. Há uma sabedoria que não nasce do falar, mas do ouvir. E eu tenho escutado. Tenho escutado com atenção, até quando discordo. Tenho escutado o jornalista e militante social Miltom Temer. Sim, eu estou em posição diferente do pensamento dele. Não somos iguais no mapa das ideias. Mas o que ele tem alertado tem fundamento, tem razoabilidade, tem sentimento e tem sentido político, tático e estratégico. Há algo ali que não é apenas denúncia ou paixão. É análise com nervo. É leitura de conjuntura com responsabilidade. E, sobretudo, é coragem cívica. Uma coragem que, para ser honesto, nunca lhe faltou ao longo de muitos anos neste Brasil difícil, um Brasil que testa as pessoas como se testasse metais, um Brasil que premia o oportunismo e costuma punir o espírito público.
Também tenho escutado Luiz Eduardo Resende, jornalista de longa data, desses que carregam nas mãos a memória concreta das redações. Há uma diferença enorme entre comentar o mundo e ter visto o mundo. Resende foi repórter em todas as áreas, em jornais importantes e populares no Estado do Rio de Janeiro. Quem viveu essa travessia aprende uma ciência que não se ensina em seminário. Aprende a reconhecer a mentira pela respiração. Aprende a perceber o medo pelos gestos. Aprende a desconfiar do excesso de segurança. E aprende, acima de tudo, que a sabedoria é uma forma de humildade. Porque sabedoria tem quem sabe escutar. E ele sabe. Escuta as entrelinhas do poder, escuta o povo, escuta o que está se formando antes de virar manchete. Escutar, nesse sentido, é quase um método de sobrevivência intelectual.
Quando junto essas escutas, algo se desenha como um quadro inquietante. O Brasil está sendo empurrado para o binário como se essa fosse sua natureza. E não é. O binário é uma construção. Uma engenharia de afetos e interesses. Ele ajuda a organizar eleições, ajuda a mobilizar militâncias, ajuda a simplificar a disputa. Mas ele empobrece a vida democrática. Ele transforma a política em torcida. Ele reduz a imaginação social a um plebiscito permanente sobre pessoas, não sobre projetos. Ele troca a dialética, que é movimento e mediação, por uma divisão dura, que é apenas muro.
E, no entanto, o país real, esse que acorda cedo, que pega ônibus lotado, que sente o preço do alimento, que teme a violência, que se frustra com o serviço público, que sonha com alguma dignidade cotidiana, não cabe em dois nomes. O país real é um rio com muitos afluentes. O país real tem contradições que não se resolvem com slogans. O país real tem dores que não cabem em memes. E é aí que mora o perigo do “é isso que temos”. Ele tenta convencer o país real de que não há alternativa. De que a história fechou a conta. De que a imaginação política deve ser encerrada.
Mas a história não encerra contas. Ela reabre. Ela muda de direção. Ela produz surpresas. Ela faz cair certezas como quem derruba copos numa mesa. Até outubro de 2026, tudo pode mudar. Mudam alianças. Mudam candidaturas. Mudam climas. Mudam humores. Mudam expectativas. Mudam amores. Mudam amizades. Mudam fidelidades. E o que hoje parece destino pode virar apenas um capítulo. Só não percebe isso quem confunde o presente com eternidade.
A filosofia do poder deveria ser a filosofia da finitude. Nada dura para sempre. Nenhuma hegemonia é definitiva. Nenhum líder é invulnerável. Nenhum campo político tem monopólio do bem. A virtude pública nasce quando se aceita o limite. E a sensatez, essa velha senhora tão desrespeitada, é a única que sabe atravessar tempestades sem se embriagar com o raio. Afrontá-la sempre tem custo. Bolsonaro aprendeu, ou deveria ter aprendido, que desrespeitar o bom senso cobra com juros. O lulismo, se não quiser repetir o mesmo roteiro por outra via, precisa olhar para o espelho do tempo e lembrar que a arrogância é uma forma lenta de suicídio político.
Eu escrevo isso não como profecia, mas como crônica de um país que insiste em se dividir para não ter que se compreender. Escrevo com o ouvido colado no chão, como se fazia antigamente para ouvir a tropa ao longe. Há passos. Há ruídos. Há rearranjos. Há um Brasil cansado de ser reduzido a dois lados. Há um Brasil que, mesmo sem saber, procura uma saída que não seja apenas escolher o menos pior. E há, felizmente, vozes que alertam com coragem, como Miltom Temer, e vozes que interpretam com sabedoria, como Luiz Eduardo Resende.
O que virá, ninguém sabe. Mas uma coisa é certa. O tempo não respeita a soberba. O tempo não faz reverência à prepotência. O tempo é o mais democrático dos juízes. Ele cobra de todos. Ele cobra sempre. E, no fim, ele lembra ao país uma verdade simples e dura. Não existem eternos. Existem agoras
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ






Deixe um comentário