* Paulo Baía
Há momentos em que uma pesquisa de opinião pública deixa de ser apenas um retrato estatístico e passa a funcionar como um espelho inquieto da sociedade. Não um espelho que devolve imagens estáticas, mas um campo vibrante de tensões, desejos, recusas e expectativas. A pesquisa Genial Quaest de abril de 2026 sobre a eleição para o governo do Estado do Rio de Janeiro é exatamente isso. Um mapa imperfeito, porém revelador, de um corpo social que ainda não decidiu para onde quer ir, mas já sabe com alguma clareza o que não deseja mais ser.
Convém começar pelo rigor. A pesquisa, registrada sob o número RJ-00613/2026 no Tribunal Superior Eleitoral, foi realizada entre os dias 21 e 25 de abril de 2026, com 1.200 entrevistas presenciais domiciliares, margem de erro de 3 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Trata-se de uma amostra estruturada em três estágios, com seleção probabilística de municípios, setores censitários e entrevistados, seguida de calibração por pós-estratificação. Isso significa que não se está diante de um palpite, mas de um instrumento técnico auditável, verificável, disponível ao escrutínio público nos sistemas do TSE e nos canais da própria Genial Quaest.
E ainda assim, mesmo com todo esse aparato metodológico, o que emerge é a instabilidade. O dado mais eloquente talvez seja este: 87% dos eleitores não sabem em quem votar quando a pergunta é espontânea. Eduardo Paes aparece com 8%, Douglas Ruas com 2%, outros nomes somam 2%. O restante é silêncio. Um silêncio carregado de sentido. Um silêncio político.
Essa ausência de definição não é um vazio. É um espaço de disputa.
A avaliação do governo Cláudio Castro funciona como pano de fundo dessa disputa. Apenas 35% aprovam sua gestão, enquanto 47% desaprovam. Na avaliação qualitativa, 23% consideram o governo positivo, 36% negativo e 32% regular. Há um desgaste acumulado, um cansaço difuso, uma sensação de que o ciclo precisa ser revisto. E isso se traduz com nitidez na pergunta sobre o futuro: 43% querem mudar totalmente o governo estadual, 34% desejam mudar parcialmente, apenas 17% defendem continuidade.
Uma frase resume esse estado de espírito. O Rio quer virar a página, mas ainda não decidiu qual livro abrir.
Essa tensão aparece também quando se pergunta se Cláudio Castro merece eleger um sucessor. 53% dizem que não. Apenas 36% dizem que sim. O governismo entra na eleição com uma limitação estrutural. Não é um veto absoluto, mas é um teto visível.
E, no entanto, o eleitorado não se resolve pela polarização nacional. Quando indagados sobre o perfil desejado do próximo governador, 40% preferem um nome independente, 29% querem alguém alinhado a Bolsonaro e 26% alguém alinhado a Lula. Aqui reside uma chave interpretativa fundamental. O Rio não rejeita a política nacional, mas também não aceita ser reduzido a ela. Há uma busca por autonomia, por mediação, por uma espécie de pragmatismo político que se afasta dos extremos sem necessariamente negá-los.
Nesse terreno, os candidatos começam a se mover.
No primeiro cenário estimulado, Eduardo Paes lidera com 34%. Douglas Ruas aparece com 9%. Anthony Garotinho tem 8%. Wilson Witzel soma 3%. William Siri, 2%. Outros nomes orbitam entre 0% e 1%. Há ainda 20% de indecisos e 20% de branco, nulo ou abstenção declarada.
A liderança de Paes é inequívoca. Ele tem quase quatro vezes a intenção de voto do segundo colocado. Mas essa liderança não é hegemônica. Ela convive com um campo ainda disperso, com um eleitorado que não se fixou e com uma margem significativa de rejeição potencial.
Paes carrega vantagens evidentes. Seu potencial de voto atinge 48%. Ele é conhecido, reconhecido, testado. Transita entre segmentos sociais distintos. No segundo turno, alcança 49% contra 16% de Douglas Ruas. Entre mulheres, chega a 50%. Entre homens, 49%. Entre jovens de 16 a 34 anos, 55%. Entre eleitores de 60 anos ou mais, 50%. Entre católicos, 51%. Entre evangélicos, 42%. Não se trata apenas de liderança. Trata-se de capilaridade.
Mas há também sinais de alerta. Apenas 50% de seus eleitores dizem que o voto é definitivo. Outros 48% admitem que podem mudar. A liderança existe, mas ainda não se cristalizou.
Douglas Ruas, por sua vez, ocupa o espaço da direita e do campo bolsonarista. No cenário I, tem 9%. No cenário II, 10%. No cenário III, 11%. No segundo turno, chega a 16%. Seus melhores desempenhos aparecem entre homens, com 22% no segundo turno, entre evangélicos, também 22%, e entre eleitores de renda mais alta.
Sua vantagem é clara. Ele tem um nicho político definido. Sua desvantagem também é clara. 71% dos eleitores dizem não conhecê-lo. Apenas 12% afirmam que o conhecem e votariam nele. É um candidato que ainda precisa existir para o eleitorado antes de disputar o voto.
Anthony Garotinho aparece como uma espécie de memória política persistente. Tem 8% no cenário I. Um número relevante para alguém fora do centro institucional. Mas essa presença é atravessada por uma rejeição elevada. 65% dizem que o conhecem e não votariam nele. É um capital político que resiste, mas que encontra limites severos de expansão.
Wilson Witzel vive uma situação semelhante, talvez ainda mais delicada. Tem 3% de intenção de voto, mas 51% de rejeição. Apenas 7% dizem que o conhecem e votariam nele. É um caso clássico de conhecimento sem conversão eleitoral.
Os demais candidatos, como William Siri, Cyro Garcia, Juliete Pantoja, André Marinho, Rafael Luz e Luan Monteiro, permanecem em patamares residuais, entre 0% e 2%. Representam campos ideológicos específicos, mas ainda não estruturam uma disputa majoritária.
Quando se retira Garotinho do cenário, Eduardo Paes sobe para 40%. Douglas Ruas vai a 10%. O dado é revelador. A ausência de Garotinho beneficia mais Paes do que seus concorrentes à direita. Isso sugere que o eleitorado de Garotinho não é automaticamente transferível para o campo conservador. Há ali uma dimensão popular, talvez personalista, talvez descolada das categorias tradicionais de esquerda e direita.
No cenário III, Paes mantém 39%. Douglas chega a 11%. A estabilidade dos números indica que a liderança de Paes não depende fortemente da configuração dos adversários. Ela está ancorada em um reconhecimento mais amplo.
E então vem o segundo turno. 49% para Paes. 16% para Douglas Ruas. Um intervalo largo. Um abismo eleitoral. Mas, novamente, não absoluto. 16% de indecisos e 19% de branco, nulo ou abstenção mostram que há ainda uma massa significativa de eleitores fora da decisão.
Uma eleição não se decide apenas pelos que já escolheram. Decide-se também pelos que ainda hesitam.
Há outro dado que merece atenção especial. 59% dos eleitores dizem que podem mudar de voto até a eleição. Apenas 39% afirmam que a escolha é definitiva. Isso vale para todos os candidatos. Entre os eleitores de Garotinho, 60% admitem mudança. Entre os de Witzel, 66%. Mesmo entre os de Paes, quase metade pode reconsiderar.
Isso significa que o jogo está aberto. Não no sentido trivial da expressão, mas no sentido sociológico mais denso. As preferências ainda estão em formação. A campanha terá peso. Os eventos terão peso. As narrativas terão peso.
E aqui emerge um alerta importante.
Para os eleitores, a pesquisa revela a necessidade de atenção. A escolha ainda não está feita. O campo está em movimento. O voto não é um ato isolado, mas um processo em construção.
Para os analistas e comentadores, o alerta é outro. A tentação de transformar fotografia em destino precisa ser contida. A liderança de Eduardo Paes é robusta, mas não definitiva. A fragilidade dos adversários é evidente, mas não imutável. A rejeição ao governo Cláudio Castro cria condições para mudança, mas não define automaticamente quem encarnará essa mudança.
O Rio de Janeiro está, neste momento, em suspensão.
Entre o cansaço e a expectativa.
Entre a memória e a possibilidade.
Entre o conhecido e o que ainda não ganhou forma.
A política, como a vida, raramente se resolve em linha reta. Ela serpenteia. Oscila. Recua. Avança. E, às vezes, surpreende.
Esta pesquisa não encerra nada. Ela abre.
E talvez seja justamente isso que a torna tão reveladora.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ.






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