* Paulo Baía
A campanha para o governo do Estado do Rio de Janeiro em 2026 já se move com a intensidade de um rio caudaloso, atravessando margens e vontades, lavando os alicerces do poder com a pressa dos que sabem que o tempo eleitoral não espera por hesitações. Ainda que os projetos de governo não tenham se explicitado em programas oficiais, os sinais do embate que se desenha são claros como o sol sobre a Baía de Guanabara. De um lado, Rodrigo Bacellar, presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, homem de tramas políticas discretas e costuras firmes, surge como herdeiro natural da máquina governamental montada por Cláudio Castro. Do outro, Eduardo Paes, atual prefeito da capital, ressurge com sua capacidade de articulação urbana e retórica refinada, vestindo-se de visibilidade midiática e performance pública para encarnar uma alternativa de centro que se alinha, ainda que sem declaração formal, ao projeto político do presidente Lula.
Neste palco fluminense — onde o drama da política se encena com tragédia e redenção — Bacellar e Paes se tornam mais do que candidatos: tornam-se símbolos. Bacellar é continuidade. É a permanência de uma lógica que domina a ALERJ com destreza, que conhece os meandros do poder regional, que domina prefeitos do interior e vereadores do litoral, que se alimenta da governabilidade feita de pactos silenciosos e apoio parlamentar robusto. Não é carismático nem popular em demasia, mas é eficaz e perigoso por isso mesmo. Sua força reside na máquina, na tessitura dos bastidores, na relação profunda com a estrutura que hoje sustenta Cláudio Castro — um governador que já atua com intensidade para viabilizar sua sucessão, empregando ações táticas e políticas com o zelo de quem conhece os mapas do poder.
Eduardo Paes, em contraste, é metrópole. Sua biografia está gravada no concreto da cidade maravilhosa. Quatro vezes prefeito do Rio, traz em sua bagagem as cicatrizes dos grandes eventos e as glórias da infraestrutura olímpica, mas também os ônus de projetos que, por vezes, envelheceram mal aos olhos da população. Sua eloquência e sua imagem pública bem trabalhada o tornam um personagem magnético. Ao se afastar da polarização nacional, Paes representa uma tentativa de escapar da barbárie retórica que consome a política brasileira, oferecendo ao eleitorado um perfil de gestor, não de guerreiro. Mas é impossível ignorar que, mesmo sem bandeiras partidárias agitadas, ele sinaliza sutilmente uma aliança simbólica com o Planalto, com o governo Lula, com a centro-esquerda institucionalizada que ainda pulsa, especialmente nos grandes centros urbanos.
Neste sentido, a eleição para governador não poderá jamais ser analisada de forma isolada. Ela será, como sempre é, arrastada pelo furacão da disputa presidencial. A simultaneidade do pleito para presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual multiplica as interações entre os projetos nacionais e regionais. O eleitorado não vota em compartimentos estanques. Ele carrega consigo expectativas acumuladas, alianças ideológicas e desejos complexos de futuro. É neste cruzamento que se revelam, por vezes de forma trágica, as contradições do Estado do Rio de Janeiro: um estado que é ao mesmo tempo favela e palácio, mar e sertão, capital de si mesmo e periferia do poder nacional.
A disputa entre Bacellar e Paes também é, portanto, uma expressão do embate entre duas racionalidades políticas. Bacellar opera na lógica da governabilidade legislativa, da construção de bases no interior, de um pragmatismo que beira o conservadorismo clientelista. Sua força está no invisível, na engrenagem política que não se vê, mas que move recursos, apoios e votos. Sua fragilidade está exatamente aí: por estar tão entranhado na política tradicional, pode ser engolido por sua imagem de representante do “mais do mesmo”, num contexto em que parte significativa do eleitorado pede mudança — ainda que não saiba exatamente qual.
Eduardo Paes, por outro lado, aposta na construção de um imaginário de competência e modernidade. Seu carisma e domínio do discurso público são trunfos. Ele é um candidato que conhece as câmeras, os jornalistas, os humores da opinião pública. Sua fragilidade, porém, mora no excesso de exposição, nos legados ambíguos de suas gestões passadas, nas alianças que teve que costurar para manter-se viável politicamente — e que, inevitavelmente, serão cobradas nas urnas. Seu desafio será convencer o interior fluminense de que sua liderança não se esgota nos limites da Zona Sul carioca.
O momento atual, ainda sem programas de governo definidos, é um tempo de movimentos táticos. Bacellar articula, Castro entrega obras, prefeitos se alinham. Paes inaugura, concede entrevistas, conquista simpatias. É uma guerra de gestos, de imagens e de promessas ainda sussurradas. O que se disputa não é apenas um cargo — é o rumo de um estado cuja beleza é ofuscada por suas dores, mas cuja importância estratégica na federação brasileira é incontestável. O Rio de Janeiro é símbolo e síntese, tragédia e promessa, memória e possibilidade.
O eleitor fluminense não escolherá apenas entre dois nomes. Escolherá entre dois projetos de Estado: um que quer manter a estabilidade de alianças estabelecidas sob o manto da governabilidade legislativa; outro que quer reinventar o Rio sob os moldes de uma gestão pública cosmopolita, conectada à política federal, mas sem afundar no pântano das disputas ideológicas excludentes.
Assim, como num romance de grandes personagens, a eleição de 2026 se revela um duelo de estilos, de linguagens e de destinos. Rodrigo Bacellar e Eduardo Paes, cada um com seus méritos e demônios, personificam os dilemas de um Rio que, mais uma vez, tenta se reinventar entre a ruína e a esperança. A beleza da política, quando escrita com verdade, é esta: ela expõe as entranhas do poder, mas também sugere, com a força da palavra, a possibilidade de um futuro que ainda não nasceu — mas que pulsa, como o coração inquieto de um estado entre serras, rios e horizontes vastos.
* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ.





