O dia em que tudo saiu do controle e Natalie virou a Octomãe, agora ganhará cinebiografia

Filme revela que americana foi enganada por médico e nunca quis engravidar de óctuplos

Em 26 de janeiro de 2009, Natalie Suleman entrou para a história ao dar à luz oito bebês vivos de uma só vez, resultado de um procedimento de fertilização in vitro realizado em Los Angeles, nos Estados Unidos. A gestação múltipla, que durou 31 semanas e terminou com o nascimento saudável dos óctuplos, alçou a então estudante solteira ao status de celebridade mundial, ao mesmo tempo em que a tornou alvo de críticas e polêmicas.

Suleman — que na época já era mãe de seis filhos e vivia com os pais — foi rotulada pela imprensa como “Octomãe” e acusada de se submeter a uma gestação de alto risco em busca de fama e benefícios sociais. Agora, 15 anos depois, ela rompe o silêncio com novas revelações sobre o episódio no documentário dramatizado “A Octomãe”, que estreia no canal pago Lifetime no próximo dia 31 de maio, às 22h.

No filme, em que atua também como produtora-executiva, Natalie é interpretada pela atriz Kristen Lee Gutoskie em cenas que se alternam com depoimentos reais da protagonista e de seus filhos. Aos 49 anos, ela garante que a gravidez múltipla não foi planejada e acusa o médico Michael Kamrava de negligência. “Fui vítima de desinformação. Nunca quis ter mais de sete filhos. Eu tinha seis e queria mais um, o que já é bastante para uma mãe solteira”, afirma. “Eu fui feita de cobaia.”

Kamrava, que perdeu a licença médica dois anos após o nascimento dos óctuplos, também enfrentou sanções da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva e chegou a cumprir cinco anos de prisão domiciliar. O caso gerou comoção internacional e influenciou diretamente a legislação americana sobre fertilização assistida. No Brasil, por exemplo, a norma atual determina o limite de dois embriões por procedimento.

Suleman relata que foi sedada momentos antes do procedimento que resultaria na gestação dos oito bebês. Segundo ela, o médico transferiu seis embriões a mais do que o inicialmente previsto. “Eu estava sob efeito de medicamentos quando ele me perguntou se eu queria que transferisse o resto dos embriões. Meu útero estava se contraindo e ele pensava que eu poderia estar expulsando. Eu não estava lúcida e disse que sim. E ele transferiu outros seis.”

Natalie Suleman com os óctuplos em 2011 – @nataliesuleman no Instagram

Apesar do trauma, Natalie afirma que jamais quis processar o médico: “Praticamente me atirei debaixo do ônibus para protegê-lo. Se não fosse pelo seu procedimento inovador, eu não teria minha família e, por isso, meu coração não me deixou processá-lo”, relata. “Ele cometeu uma negligência grave e eu o acobertei durante anos.”

Além do impacto físico e emocional da gestação extrema, Natalie também enfrentou duras batalhas pessoais. Durante os primeiros anos de maternidade, chegou a fazer mestrado na área de educação, mas, com a atenção da mídia e a necessidade de sustentar os 14 filhos, acabou aceitando propostas para participar de reality shows, vender entrevistas e posar para revistas. “Eu estava no modo sobrevivência. Nunca quis a fama, nunca quis estar aos olhos do público. Sempre me escondi na universidade”, desabafa.

A exposição teve um preço alto. Suleman desenvolveu transtorno de estresse pós-traumático e ansiedade social, condições que trata até hoje. “Não sou a Octomãe. Meu verdadeiro caráter é a antítese total da caricatura fragmentada e desumanizada que inventaram de mim”, afirma. “É fácil para o público projetar ódio em algo que não é humano ou que não se percebe como humano.”

A maternidade, segundo ela, sempre foi uma escolha consciente — mas não do modo como foi retratada. Cristã fervorosa e assumidamente assexual e celibatária, Natalie revela que nunca desejou casar-se nem buscar um relacionamento amoroso. “Vivo em celibato há mais de 25 anos e posso ser entendida como assexual. Minha vocação durante toda a vida foi ser mãe, nunca esposa. Sim, é solitário, mas nunca tive interesse em ter um par.”

Hoje, a Octomãe do passado tenta resgatar sua identidade e mostrar ao mundo a complexidade de sua trajetória. Mais do que uma história médica excepcional, Natalie Suleman quer ser lembrada como uma mulher que sobreviveu à própria fama e lutou, com todas as forças, para manter sua família unida.

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