* Paulo Baía
O Brasil atravessa um daqueles momentos em que a política deixa de ser apenas disputa institucional e se transforma em linguagem sensível da vida social. Não se trata apenas de candidatos, pesquisas ou cenários eleitorais. Trata-se de percepção, de experiência e de uma inquietação difusa que percorre o tecido social. Dois textos recentes, um de Renato Meireles e outro de Luiz Carlos Azedo, oferecem chaves interpretativas relevantes para compreender esse momento. Não coincidem integralmente, mas dialogam em torno de um mesmo problema. O deslocamento do eixo da política brasileira para um centro instável, volátil e decisivo.
Renato Meireles parte de um dado que, à primeira vista, poderia ser tratado como um detalhe metodológico. Sessenta e dois por cento dos eleitores brasileiros não souberam dizer espontaneamente em quem pretendem votar para presidente, segundo a pesquisa Genial Quaest de 15 de abril de 2026. Trata-se de cerca de 96 milhões de pessoas. Ao invés de relativizar esse número, Renato Meireles o transforma em categoria analítica central. Não como ausência de opinião, mas como indício de uma política ainda não incorporada ao cotidiano da maioria.
A esse dado soma-se outro, igualmente relevante. Quarenta e três por cento dos eleitores afirmam que podem mudar de voto. São cerca de 67 milhões de brasileiros que reconhecem a própria indecisão. O que se apresenta, portanto, não é apenas um cenário eleitoral aberto. É um eleitorado em suspensão, cuja decisão ainda não se consolidou em termos cognitivos e afetivos.
A leitura de Renato Meireles é precisa ao destacar a diferença entre voto espontâneo e voto estimulado. A urna eletrônica exige memória, não reconhecimento assistido. O eleitor precisa levar consigo o número do candidato, não apenas reagir a uma lista apresentada. Nesse sentido, a intenção de voto estimulada funciona como hipótese, não como decisão efetiva. Essa distinção, frequentemente negligenciada, reorganiza o modo como se deve interpretar as pesquisas eleitorais.
Ao mesmo tempo, Renato Meireles introduz um personagem que sintetiza sua tese. O comerciante de Ribeirão Preto, preocupado com a venda de cimento e com o movimento econômico local, não ignora a eleição, mas também não a prioriza. Sua vida cotidiana não foi ainda atravessada pela disputa política. Esse deslocamento entre o tempo da política institucional e o tempo da vida social é central para compreender a indecisão apontada pela pesquisa.
Luiz Carlos Azedo, por sua vez, parte de outro ponto, mas chega a uma convergência significativa. Seu foco está nas classes médias e na sua condição instável. Para Luiz Carlos Azedo, o equilíbrio eleitoral entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro não deve ser lido apenas como competição entre lideranças. Ele revela uma transformação mais ampla na sensibilidade social, especialmente entre os segmentos intermediários.
As classes médias brasileiras não podem mais ser compreendidas como um bloco homogêneo. Elas são atravessadas por tensões, por expectativas contraditórias e por um sentimento persistente de insegurança. Não se trata de privação absoluta, mas de um desalinhamento entre esforço e recompensa. Entre aquilo que se espera e aquilo que se alcança. Esse descompasso produz uma forma particular de percepção política, menos ideológica e mais sensorial.
A economia, nesse contexto, deixa de ser apenas um conjunto de indicadores e se converte em experiência vivida. O custo de vida não é índice, é pressão cotidiana. O endividamento não é estatística, é inquietação permanente. A política passa a ser sentida antes de ser elaborada. O voto deixa de ser expressão de projeto e passa a ser resposta a um estado de espírito.
Ao analisar os dois textos em conjunto, torna-se possível identificar uma convergência estrutural. Renato Meireles observa a indecisão do eleitorado. Luiz Carlos Azedo interpreta a instabilidade das classes médias. Ambos, por caminhos distintos, apontam para o mesmo fenômeno. O centro social brasileiro tornou-se o espaço decisivo da política contemporânea. Não por sua estabilidade, mas por sua oscilação.
Esse centro não é um ponto de equilíbrio. É um campo de forças. Um espaço onde convivem trajetórias diversas, expectativas tensionadas e receios latentes. Há aqueles que ascenderam recentemente e temem retroceder. Há aqueles que mantinham um padrão de vida confortável e agora percebem fissuras. Há, em todos esses segmentos, uma sensação difusa de instabilidade.
A pesquisa Genial Quaest de 15 de abril de 2026 confirma esse quadro ao revelar níveis significativos de desaprovação governamental sem correspondente consolidação de uma alternativa eleitoral. A insatisfação existe, mas não se traduz automaticamente em decisão política. Há um intervalo entre percepção e escolha. É nesse intervalo que se situa a indecisão apontada por Renato Meireles.
Esse intervalo não é vazio. Ele é preenchido pela experiência cotidiana. Pela forma como os indivíduos vivem a economia, percebem o Estado e interpretam o mundo à sua volta. A política, nesse sentido, deixa de ser um campo autônomo e se torna extensão da vida social.
O comportamento eleitoral que emerge desse contexto é marcado pela fluidez. O eleitor não se fixa, não se compromete antecipadamente, não internaliza de forma rígida sua escolha. Ele observa, compara, hesita. Sua decisão tende a ser tardia, muitas vezes definida nas últimas semanas ou dias antes da eleição.
Essa característica desafia as formas tradicionais de análise política. As pesquisas deixam de ser instrumentos de previsão e passam a ser indicadores de tendência. A margem de incerteza se amplia. A capacidade de antecipação diminui. O processo eleitoral torna-se mais aberto, mais contingente, mais sensível a variações de curto prazo.
Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer que essa fluidez convive com estruturas mais estáveis. A presença de polos políticos definidos, representados por Luiz Inácio Lula da Silva e pela herança política associada a Jair Bolsonaro, indica que o sistema político não se dissolve completamente. Há referências, há identidades, há vínculos que persistem.
O que se altera não é a existência dessas estruturas, mas a forma como elas são apropriadas pelo eleitorado. A adesão torna-se menos automática, mais condicionada, mais dependente da experiência concreta. O eleitor pode reconhecer um campo político sem se comprometer imediatamente com ele. Pode inclinar-se sem decidir.
Essa combinação entre estrutura e fluidez define o cenário eleitoral de 2026. Não se trata de uma eleição desorganizada, mas de uma eleição não consolidada. Os elementos estão postos, mas o resultado ainda não se formou. A política encontra-se em estado de elaboração.
Nesse contexto, o papel das classes médias adquire centralidade. Não como bloco homogêneo, mas como espaço onde as tensões sociais se tornam mais visíveis. É ali que a instabilidade econômica se traduz em percepção política. É ali que o desalinhamento entre expectativas e resultados se converte em comportamento eleitoral.
A contribuição de Luiz Carlos Azedo reside justamente em captar essa dimensão. Ao enfatizar a condição intermediária das classes médias, ele revela um espaço social exposto, sensível às variações econômicas e aberto a diferentes narrativas políticas. Esse espaço não garante previsibilidade. Pelo contrário, introduz incerteza.
Renato Meireles, ao quantificar a indecisão, oferece a medida dessa incerteza. Luiz Carlos Azedo, ao interpretar a condição social das classes médias, oferece sua explicação. Juntos, os dois textos permitem compreender que a política brasileira atravessa um momento em que o centro não estabiliza. Ele oscila.
Essa oscilação não é um problema conjuntural. É uma característica estrutural de uma sociedade marcada por desigualdades persistentes, mobilidade incerta e expectativas tensionadas. O eleitor que emerge desse contexto não responde de forma linear. Ele reage, adapta-se, reavalia.
O voto, nesse cenário, deixa de ser apenas escolha racional e se torna expressão de uma experiência social complexa. Uma experiência atravessada por medo, expectativa, frustração e desejo de estabilidade. A política passa a ser uma forma de lidar com essa experiência.
O Brasil de 2026 apresenta, portanto, um quadro singular. De um lado, há lideranças conhecidas, estruturas políticas definidas e um sistema institucional consolidado. De outro, há um eleitorado que ainda não internalizou sua decisão, que permanece em estado de observação e que tende a decidir tardiamente.
Esse descompasso entre estrutura política e decisão eleitoral define a singularidade do momento. A eleição existe, mas ainda não se realizou no plano da experiência social da maioria. O calendário institucional avança, mas o tempo do eleitor segue outro ritmo.
É nesse descompasso que se encontra a chave interpretativa do presente. A política não pode ser compreendida apenas a partir de seus atores institucionais. Ela precisa ser lida a partir da vida social. A partir das percepções, das experiências e das tensões que atravessam o cotidiano dos indivíduos.
O centro, nesse sentido, não é apenas uma posição no espectro político. É uma condição social. Um espaço onde se concentram as incertezas, as expectativas e as decisões que definirão o futuro do país. Não é um lugar de repouso. É um lugar de movimento.
E esse movimento não é suave. Ele carrega angústia. Ele é atravessado por hesitação. Ele se expressa como um amplo sentimento de incerteza que se infiltra no cotidiano, nas escolhas, nas conversas e nas expectativas. O futuro próximo deixou de ser horizonte de promessa e passou a ser percebido como território de risco. Não há colapso, mas há tensão contínua. Não há ruptura visível, mas há desgaste acumulado.
O eleitor brasileiro, sobretudo situado nesse centro social instável, não apenas hesita. Ele sente. Sente o peso da vida mais cara, sente a fragilidade das conquistas, sente a dificuldade de projetar o amanhã. E é esse sentimento que molda o voto. Não como cálculo frio, mas como resposta a uma experiência marcada por insegurança e expectativa contida.
A eleição de 2026 será decidida nesse terreno. Não será apenas o embate entre lideranças que definirá o resultado, mas a capacidade de traduzir essa angústia difusa em linguagem política compreensível. Quem não compreender essa gramática do medo e da incerteza falará sozinho. Quem ignorar esse estado de espírito não alcançará o eleitor que decide.
O país não está apenas indeciso. Está inquieto. Está atravessado por dúvidas reais, por receios concretos e por uma sensação persistente de que o chão não está firme. E é nesse estado, marcado por tensão e expectativa, que o voto se formará. Não como expressão de tranquilidade, mas como tentativa de resposta a um tempo que se apresenta instável e exigente.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ






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