Nas últimas décadas do século passado, o delta da Rua dos Oitis com a Rua José Roberto Macedo Soares, que culminava na Praça Santos Dummont, na Gávea, conhecida popularmente como Baixo Gávea, era um dos mais buliçosos pontos de encontro da ala alternativa da juventude dourada da Zona Sul carioca. Poetas alternativos, músicos, gente do cinema e da TV, jovens jornalistas, de tudo um muito circulava por ali em noitadas que ocupavam as ruas, metade da praça e viravam madrugadas. Até que um belo dia o que era doce se acabou.
CONFLITOS URBANO-RESIDENCIAIS
Moradores criaram grupos como o Barulho Gávea, para monitorar a zoeira e pressionar por fiscalizações mais rígidas. Até que em junho de 1999 o então prefeito Luiz Paulo Conde baixou decreto proibindo os bares de funcionar após uma hora da manhã. Foi um banho de chope gelado na turma que toda semana promovia por lá as chamadas Segundas sem Lei. Na primeira noite com as novas regras vigentes, os frequentadores tentaram enfrentar a Guarda Municipal, impedindo-a de baixar as portas dos bares enquanto cantavam o Hino Nacional. Seguiram-se meses de brigas para tentar reverter o decreto. Mas a decisão da prefeitura se estabeleceu.

MUDANÇAS NO PERFIL DOS FREQUENTADORES
Com as novas regras, os bares precisaram se ajustar. Varandas foram fechadas, ambulantes passaram a sofrer maior controle da Guarda e até o tradicional Bar do Alemão, um velho pé sujo, passou por uma reforma completa. O boom cremoso da velha boemia foi sendo substituído por espaços que, em alguns casos, embora mantivessem um estilo raiz, cobravam preços de restaurante premium.
O marco da transformação foi a compra do antigo Bar Hipódromo, o centro efervescente de toda aquela confusão, pelo grupo Brewteco de bares e fábrica de cerveja artesanal. O Hipódromo tinha uma presença tão forte na noite carioca, que volta e meia seus garçons estrelavam campanhas publicitárias de cervejarias. Quem hoje passa por lá percebe claramente a mudança no perfil do público, agora mais, digamos, arrumadinho.
A VALORIZAÇÃO DO BAIRRO
Outro fator para as drásticas mudanças no perfil do Baixo Gávea foi a notável valorização do bairro nos últimos anos. No ano passada ela foi de 25,3% em média, e alguns points mais disputados chegaram a 175% de valorização. O preço médio do metro quadrado bateu R$ 15.800, o que não chega aos preços de Ipanema e Leblon, mas colocaram o charmoso bairro entre os 10 mais caros do Brasil.
No fim das contas, o Baixo Gávea de 2025 é um retrato nítido da gentrificação da Zona Sul. O público foi trocado, houve problemas com moradores e os preços dos imóveis dispararam. Tudo ao mesmo tempo agora. Hoje, ao mesmo tempo que ganha restaurantes, bares e atrações culturais mais sofisticadas, o bairro perdeu seu clima boêmio original.






Você precisa fazer login para comentar.