Chega a 23 o número de crianças baleadas no Rio em 2024, diz Instituto Fogo Cruzado

Ao todo, 114 crianças foram mortas a tiros no estado desde 2007, a maioria por bala perdida

Dados da plataforma Fogo Cruzado mostram que somente em 2024, 23 crianças foram vítimas da violência armada do Rio. A imprensa havia divulgado o número de 21 crianças mortas, mas número foi atualizado quando, na noite de sexta-feira (6), mais duas crianças foram baleadas na Gardênia Azul, Zona Oeste da capital. Os números mostram ainda que três crianças foram assassinadas no estado por armas de fogo. Ao somar os dados com os adolescentes de 12 a 17 anos a estatística é mais cruel: são 57 menores de idades baleados neste ano, sendo 19 mortos.

No fim da última semana, a guerra entre traficantes e milicianos no Rio fez mais uma vítima, interrompeu mais um sonho de criança e destruiu outra família. Kamila Vitoria Aparecida de Sousa Silva, de 12 anos, morreu após ser baleada durante um confronto entre bandidos rivais na Favela da Guarda, em Del Castilho, na Zona Norte do Rio, por volta das 21h desta quinta-feira. Ela brincava numa quadra de futebol quando foi atingida pelo disparo. O pai e vizinhos ainda socorreram a menina ao Hospital municipal Salgado Filho, mas ela não resistiu aos ferimentos.

Ela foi sepultada neste sábado sob forte comoção. A cerimônia, que reuniu mais de 50 pessoas, foi marcada por muitas lágrimas, num clima de dor. Aos prantos ao ver o caixão de Kamila sendo engavetado no sepultamento, o pai, o promotor de vendas Sandro Alves, só teve forças para dizer, repetidamente: “Minha filha, minha filha…”. Em seguida, pediu justiça.

— A quadra era o lugar que ela mais usava para lazer com os amigos. E no local em que ela mais gostava de se divertir foi onde aconteceu essa fatalidade. Enquanto ela brincava, eu tomava conta e achava que ela estava segura e que eu a estava protegendo. Mas não estava. Quando fui socorrê-la, percebi que ela estava baleada. Dá uma sensação de impotência, e eu só espero justiça — declarou. — Eu sei que ela está num lugar bom agora, ao lado de Deus.

Amigos escreveram mensagens à menina em uma blusa de uniforme da Rede Municipal de Ensino, colegas do Ciep Patrício Lumumba, em Del Castilho, onde Kamila estudava: “Maria te ama! Descanse em paz”, afirmava um dos registros.

Desde 2007, foram 114 crianças mortas a tiros

Pelo menos 114 crianças e adolescentes entre 0 e 14 anos morreram vítimas de armas de fogo, a maioria por bala perdida, no Estado do Rio de Janeiro, de 2007 até novembro deste ano. Os dados fazem parte do levantamento feito pela ONG Rio de Paz. Parte dessas mortes ocorreu durante incursões policiais, como no episódio em que a menina Ágatha Vitória Sales Félix, então com 8 anos, morreu na localidade da Fazendinha, no Complexo do Alemão, em setembro de 2019.

Em dezembro de 2020, as primas Emily Victoria da Silva, de 4 anos, e Rebecca Beatriz Rodrigues Santos, de 7 anos, foram baleadas e morreram enquanto brincavam na porta de casa, no Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Em 2022, a Justiça decretou as prisões preventivas de Leandro Santos Sabino, vulgo Trem, e Lázaro da Silva Alves, conhecido como Mestre.

De acordo com o MP, os tiros que atingiram as duas meninas foram disparados por homens ainda não identificados que atuavam como vigias da região de atuação dos dois denunciados. Eles teriam avistado uma viatura da Polícia Militar circulando em local próximo, na Avenida Gomes Freire e efetuaram disparo de arma de fogo, seguindo determinações e ordens dos denunciados, para proteger o seu território e com intenção matar os integrantes da viatura.

Em agosto de 2023, Eloah da Silva dos Santos, de 5 anos, morreu baleada enquanto brincava dentro de casa, na Ilha do Governador, um pequeno imóvel no Beco Xavante, de frente para a Avenida Paranapuã, onde acontecia uma manifestação de moradores pela morte de um adolescente de 17 anos, baleado pela polícia horas antes.

Em junho deste ano, a Corregedoria da Polícia Militar indiciou o terceiro-sargento André Luiz de Oliveira Muniz por homicídio culposo pela morte da menina. O caso foi encaminhado para o Ministério Público, onde corre sob sigilo, por haver indícios de cometimento de crime de competência da Justiça Militar.

Em 1º de novembro, Carlos Eduardo Cabral de Moura, que tinha 5 anos, morreu quando caminhava ao lado da mãe no bairro Nova Belém, em Japeri. A criança foi atingida quando agentes do Programa Segurança Presente foram alvos de disparos vindos da comunidade Lagoa do Sapo.

Com informações de O GLOBO.

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