Um novo exame de sangue capaz de identificar alterações biológicas associadas ao Alzheimer começou a ser oferecido no Brasil nesta quinta-feira (15), informa o portal g1. A tecnologia, que pode facilitar o diagnóstico da doença sem a necessidade de procedimentos invasivos, está disponível inicialmente no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.
O teste custa aproximadamente R$ 3 mil na rede privada e é indicado para pessoas com mais de 50 anos que já apresentam sintomas de comprometimento cognitivo e suspeita clínica de Alzheimer.
A principal vantagem é permitir a identificação de sinais da doença por meio de uma simples coleta de sangue, reduzindo a necessidade de exames mais caros ou desconfortáveis, como a punção lombar e a tomografia por emissão de pósitrons (PET).
Apesar do avanço, especialistas alertam que o resultado isolado não confirma o diagnóstico de demência. A interpretação deve ser feita por um médico, considerando os sintomas e outros exames.
Como funciona o novo exame de Alzheimer
O teste mede a concentração da proteína p-tau217 no sangue, considerada um importante marcador biológico das alterações cerebrais relacionadas ao Alzheimer.
Essa proteína está associada ao acúmulo de beta-amiloide no cérebro, uma das principais características biológicas da doença.
Quando seus níveis aparecem elevados, o resultado pode indicar a presença dessas alterações, mesmo que não seja possível determinar apenas pelo exame se elas são responsáveis pelos sintomas apresentados pelo paciente.
A análise é realizada em equipamentos automatizados da plataforma Lumipulse, desenvolvida pela fabricante Fujirebio.
Um estudo publicado em 2025 na revista científica Nature Medicine avaliou a tecnologia em 1.767 pessoas com sintomas cognitivos atendidas em centros médicos da Suécia, Espanha e Itália.
Os pesquisadores compararam os resultados do exame de sangue com os obtidos pela análise do líquor, líquido que envolve o cérebro e a medula espinhal.
Com um único ponto de corte, a concordância entre os métodos variou de 89% a 91% nos serviços especializados. Com dois pontos de corte, o índice chegou a 92% a 94%, embora parte dos participantes tenha recebido resultados inconclusivos.
O neurologista Eduardo Zimmer, responsável pela implementação do exame no Hospital Moinhos de Vento, afirma que a sensibilidade e a especificidade do teste superam 90%.
Segundo ele, a validação realizada no hospital alcançou índice de 0,95 em uma escala na qual 1 representa precisão perfeita.
Os resultados brasileiros, entretanto, ainda não passaram por revisão por pares e deverão ser divulgados inicialmente em um estudo preliminar.
Quem pode fazer o exame e quanto custa
O exame é destinado a pacientes com mais de 50 anos que apresentam sintomas cognitivos e precisam investigar a possibilidade de Alzheimer.
Entre os sinais que podem justificar uma avaliação médica estão dificuldades persistentes de memória, alterações de linguagem, desorientação e prejuízos em atividades habituais.
A indicação, porém, não deve ser feita apenas com base em esquecimentos ocasionais.
O neurologista Renato Anghinah, professor da Faculdade de Medicina do ABC e livre-docente da Universidade de São Paulo (USP), explica que a solicitação deve ocorrer após uma avaliação clínica que identifique algum grau de declínio cognitivo.
O teste pode ser útil tanto para pessoas com comprometimento cognitivo leve quanto para pacientes com suspeita de Alzheimer em estágio inicial.
Em indivíduos sem sintomas, um resultado positivo ainda não tem significado clínico suficientemente estabelecido para justificar o uso rotineiro do exame.
O valor estimado é de R$ 3 mil, e a disponibilidade está restrita, neste primeiro momento, ao Hospital Moinhos de Vento.
A instituição pretende ampliar o acesso por meio de planos de saúde ainda em 2026, mas não há confirmação de cobertura pelas operadoras.
Resultado pode ser positivo, negativo ou inconclusivo
Uma das características do novo exame é a possibilidade de apresentar três classificações: positiva, negativa ou inconclusiva.
Segundo Eduardo Zimmer, aproximadamente 15% a 20% dos resultados podem ficar na faixa intermediária, sem permitir uma conclusão segura.
Nessas situações, o médico poderá solicitar exames complementares, como PET amiloide ou análise do líquor, ou recomendar uma nova coleta de sangue após 12 meses.
A pesquisa internacional também identificou limitações na precisão do teste, especialmente em pessoas com 80 anos ou mais.
Nesse grupo, a acurácia foi de aproximadamente 83%.
Os pesquisadores observaram ainda que a utilização de dois pontos de corte melhora o desempenho, mas aumenta a proporção de pacientes que precisam de investigação complementar.
Por isso, o exame não elimina completamente a necessidade dos métodos tradicionais.
Teste pode substituir procedimentos mais invasivos
Atualmente, a confirmação das alterações biológicas associadas ao Alzheimer depende principalmente da análise do líquor e do PET amiloide.
O primeiro procedimento exige uma punção lombar para coletar o líquido que circula ao redor do cérebro e da medula.
Já o PET utiliza equipamentos de medicina nuclear para identificar o acúmulo de proteínas no cérebro.
Embora ambos apresentem elevada precisão, o custo, a complexidade e a disponibilidade limitada dificultam o acesso de muitos pacientes.
O exame de sangue surge como uma alternativa menos invasiva e potencialmente mais acessível.
Para Anghinah, o principal avanço não está necessariamente em superar a precisão dos métodos existentes, mas em facilitar o acesso à investigação diagnóstica.
Zimmer considera que o teste poderá substituir os exames tradicionais em grande parte das situações, mantendo a necessidade de métodos complementares nos casos inconclusivos e em determinadas decisões relacionadas ao tratamento.
Quando o exame estará disponível pelo SUS?
Apesar de já estar disponível na rede privada, ainda não existe previsão para que o teste seja oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
A família de produtos Lumipulse G pTau 217 Plasma foi regularizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 17 de agosto.
Entretanto, a autorização sanitária não significa incorporação automática ao sistema público.
Para que isso aconteça, é necessária uma avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), responsável por analisar eficácia, segurança, custo-efetividade e impacto orçamentário.
Segundo o Ministério da Saúde, nenhuma solicitação formal de avaliação do exame havia sido apresentada à comissão até o momento.
O Hospital Moinhos de Vento manifesta expectativa de que a tecnologia seja estudada ainda neste ano por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS).
A pasta, porém, informou que não existe atualmente projeto em execução no programa envolvendo essa tecnologia.
Assim, a eventual chegada do exame à rede pública dependerá de novas avaliações técnicas e de decisões administrativas.
Diagnóstico precoce pode ampliar opções de tratamento
A possibilidade de identificar o Alzheimer com maior rapidez pode representar um benefício importante para pacientes que já apresentam sintomas iniciais.
“Para o paciente, o benefício concreto está em saber com mais segurança, e possivelmente mais cedo, o que causa os sintomas”, diz Zimmer. “A investigação costuma ser longa e o exame de sangue permite ao especialista fechar o diagnóstico com mais rapidez. Quanto antes a doença é identificada, maiores as opções de tratamento.”
Atualmente, existem medicamentos que podem retardar a progressão da doença em determinados pacientes diagnosticados precocemente.
Entre eles estão o donanemabe e o lecanemabe, terapias que atuam sobre o acúmulo de beta-amiloide no cérebro.
Segundo Anghinah, esses medicamentos podem reduzir em aproximadamente 20% a 30% a velocidade de progressão da doença em alguns pacientes, embora os resultados variem.
Os tratamentos não representam uma cura e não interrompem completamente a evolução do Alzheimer.
Especialistas recomendam que pessoas com esquecimentos frequentes ou alterações cognitivas persistentes procurem avaliação médica.
Neurologistas, geriatras e psiquiatras podem investigar os sintomas e determinar quais exames são necessários.
O novo teste de sangue amplia as possibilidades de diagnóstico, mas não substitui a avaliação clínica individualizada.







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