O título desta reportagem, com tom de poesia, traduz a dura realidade de quase metade das crianças e adolescentes das redes públicas de ensino do Grande Rio. Segundo um relatório de 2025, desenvolvido pela Unicef, Instituto Fogo Cruzado e centros de pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), 55% dos estudantes da capital fluminense convivem com a violência armada no trajeto escolar. Mas os perigos que eles enfrentam vai muito além do estampido de um tiro, é feito também por ausências, silêncios e omissões.
Antes de refletir sobre violência, é necessário esmiuçar o significado da palavra. Afinal, de que tipo estamos falando? Não é apenas o confronto armado, mas uma violência política e institucional que se manifesta tanto na exceção quanto na rotina. Antes mesmo dos tiroteios, está presente na negligência: na recusa ao acesso à saúde, à rede de proteção social e a mobilidade segura.
É o que explica a coordenadora e pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Favelas e Espaços Populares da UFF (NEPFE), Eblin Farage: “Primeiro, é muito importante reconhecer que a violência do Estado não é só a violência armada. Existe um conjunto de outras violências que são ou perpetradas pelo Estado, ou permitidas através da negligência”, explica.
Essa forma de violência, inclusive, precede a troca de tiros. No Complexo da Maré, por exemplo, onde a pesquisadora concentra parte de sua atuação, há uma carência histórica de atendimento psicossocial para crianças e adolescentes que se agrava pela falta de neuropediatras, psiquiatras e psicólogos lotados nas escolas e postos de saúde.
No conjunto de favelas da Zona Norte do Rio vivem cerca de 140 mil pessoas distribuídas em 15 comunidades. Só ali, em 2024, mais de 30 dias letivos foram perdidos por confrontos armados. Por se tratar equipamentos públicos as escolas municipais e estaduais, é possível estimar objetivamente a frequência com que esses fechamentos ocorrem, o que permite dimensionar as consequências diretas sobre o direito à educação.
Impactos em dose dupla
Segundo Eblin, os impactos são duplos: objetivos e imediatos, como o fechamento de escolas, e os subjetivos, que se revelam com o tempo na forma da ansiedade, no medo constante, através da evasão escolar e do desinteresse pela aprendizagem. Um desafio também é o acolhimento da comunidade escolar após operações policiais: como a violência é discutida? Que estratégias de suporte são oferecidas?
Foi numa manhã comum que o cotidiano da carioca Roberta Oliveira acabou rompido, com ela no meio do risco. A carioca havia saído para deixar a sobrinha na escola, por volta das 7h30, dentro do Complexo do Chapadão, na Zona Norte, quando o trajeto virou corrida. “Quando estava descendo o morro, o caveirão estava vindo por uma rua ao lado. Desci correndo”, lembra. Mais tarde, ao buscar a menina, ela soube pela diretora que o pânico havia se espalhado entre os responsáveis: “Normalmente, quando tem operação, avisam para ninguém levar as crianças, mas nesse dia a operação foi bem na hora da entrada, aí não deu para avisarem. Nessa mesma semana, fizeram operações por dias seguidos, de segunda a sexta mesmo. Minha sobrinha só foi pra escola nesse dia.”
De fato, como aprender num lugar onde se dorme sob tiros e se acorda com helicópteros sobrevoando a casa? A desigualdade entre regiões, já profunda, torna-se abissal quando comparadas escolas da Zona Norte, com mais de 1.700 tiroteios próximos em 2022, às da Zona Sul, onde ocorreram apenas 86, de acordo com dados do relatório Educação Sob Cerco: as escolas do Grande Rio impactadas pela violência armada.
Na Baixada Fluminense, os números também são alarmantes: foram 1.110 tiroteios em imediações de escolas públicas no mesmo ano. Para o professor de história Victor Coelho, que leciona para alunos do 9º ano e da EJA em Duque de Caxias, a violência é parte da rotina, não da escola em si, mas dos estudantes. Em maio, ele e a comunidade escolar foram surpreendidos com barricadas impostas por bandidos em uma rua paralela à escola.
“No outro dia, a polícia foi até lá e retiraram as barricadas. Embora a escola em si não esteja localizada numa área de risco, 90% dos alunos moram nas áreas de conflito. Os alunos sempre avisam que está acontecendo algum tiroteio onde eles moram”, explica.
A lógica da violência impede simultaneamente dois direitos universais: o de ir e vir e, consequentemente, o de estudar. Isso, por consequência, provoca outros problemas: o rendimento cai, a evasão aumenta e a concentração desaparece.
“As primeiras consequências a serem pensadas são o aumento da distorção idade x série. Existem casos de alunos que desistem de continuar os estudos, principalmente no noturno, em virtude da insegurança. O serviço de transporte é ruim, o aluno tem que ir andando até em casa, as ruas são mal iluminadas, então é a combinação perfeita para a desistência”, analisa.
Além dos estímulos à aprendizagem, a exposição contínua tem impactos também sobre a sensibilidade. Segundo o professor, os alunos naturalizaram a violência ao ponto de não se impressionarem mais com cenas extremas:
“Ver um caveirão, homens com fuzis ou até mesmo pessoas mortas passou a fazer parte tão intensa do cotidiano dos alunos que eles não se assustam mais. Pelo contrário, não é incomum ver eles compartilhando vídeos de confrontos e pessoas assassinadas em suas redes sociais.”
Reposição de conteúdos, será mesmo?
Segundo a Secretaria Estadual de Educação, professores de áreas conflagradas estão sendo capacitados com apoio do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, para situações de riscos. Ainda conforme a pasta, há também autonomia das escolas para suspender as aulas quando necessário, com reposição garantida por planejamento pedagógico.
Na prática, porém, essa reposição raramente acontece. Especialmente para alunos mais velhos que tentam retomar os estudos: “Dificilmente as aulas são repostas porque a alternativa que resta seriam os sábados. Alunos da EJA, cansados da rotina extenuante de trabalho e estudo, não vão querer ir à escola no sábado”, explica Coelho.
Quem decide onde é possível aprender?
Segundo a Secretaria de Polícia Civil “quem causa impactos são os criminosos e não a polícia”. O posicionamento da instituição é de que suas operações se baseiam em inteligência e dados do Instituto de Segurança Pública, com foco na preservação de vidas. No entanto, a presença de veículos blindados, os confrontos em horários escolares e as interrupções no cotidiano escolar tornam os impactos indicustíveis, de acordo com especialistas.
Conforme Eblin, esse tipo de violência patrocinada com recursos públicos precisa ser analisado com outra lente: trata-se de uma ação que carrega não só violência, mas também intenção.
“Tudo é igualmente nocivo: a violência policial, a guerra, as drogas, a milícia, os grupos armados da venda do varejo das drogas. Não há hierarquia. Eu diria que, se existe algo que é mais grave, é o fato de uma ação do Estado perpetrar a violência, porque é o dinheiro público sendo usado para matar, para negar direitos, para gerar violência. A ação armada da polícia deve ser compreendida não como mais nociva em comparação aos outros, mas como mais grave.”
Prejuízos
Esse contraste ajuda a compreender as consequências da militarização dos territórios sobre a vida escolar. Para a professora Angela Carrancho, da Faculdade de Educação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), os prejuízos à aprendizagem, nesse contexto, são totais.
“Como você pode pensar em aprendizagem quando você tem que ficar sentado em um corredor entre duas paredes porque, lá fora, está acontecendo uma guerra? Como é que se pode pensar em aprendizagem?”, questiona.
Nesse cenário, não existem soluções pedagógicas possíveis que sustentam o enfrentamento do problema: “Que estratégias os professores podem desenvolver? Como alunos podem aprender? Não podem. Não tem o que ser feito nessa situação. O que a gente precisa é eliminar essa situação. Mas, para isso, é preciso que a sociedade tenha um projeto social, onde haja menos desigualdade, onde a gente consiga olhar para os problemas de frente e não com hipocrisia”, destaca Angelo.
O debate sobre as drogas e a segurança pública sem proibicionismo é outra questão que merece atenção, afirma a especialista. Segundo ela, a política de guerra às drogas não resolveu o problema e acabou alimentando outras formas de controle territorial.
“Proibir a droga não resolve o problema. Pelo contrário, acirra o problema. O lucro dos traficantes não é mais a droga, que é apenas 15% do seu faturamento, já que eles aprenderam com os milicianos de outras maneiras. E quem está no meio dessa situação toda, de toda essa violência, é a população que mora nas áreas que, a cada dia, são sitiadas. Áreas onde ninguém quer ver, que só aparecem quando está em tiroteio”, finaliza.
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes






