Nísia Trindade e a beleza da vida pública

É curioso como algumas pessoas entram em nossas vidas de maneira discreta e, com o passar dos anos, transformam-se em referências que atravessam décadas

Conheci Nísia Trindade em 1977. É curioso como algumas pessoas entram em nossas vidas de maneira discreta e, com o passar dos anos, transformam-se em referências que atravessam décadas.

Nísia era uma jovem estudante de Ciências Sociais da UERJ. Eu não era professor da universidade. Lecionava na UFRJ. Nosso primeiro encontro aconteceu durante uma aula inaugural do curso de Ciências Sociais da UERJ.

Aquela turma já chamava atenção. Havia ali um conjunto raro de talentos, homens e mulheres que mais tarde ocupariam lugares de destaque na vida social, cultural, acadêmica, política e profissional do Rio de Janeiro e do Brasil.

Entre tantos nomes promissores, Nísia se destacava por características que o tempo confirmou: inteligência rápida, curiosidade intelectual, disciplina nos estudos e uma seriedade admirável para alguém tão jovem.

A amizade nasceu naquele ambiente universitário e seguiu seu caminho. Como acontece com as amizades verdadeiras, atravessou mudanças, ciclos da vida, alegrias, desafios e diferentes momentos da história brasileira. Chegou aos dias atuais preservando afeto, respeito e admiração.

Ao longo dos anos, acompanhei sua trajetória na Fundação Oswaldo Cruz. Não foi uma caminhada comum. Foi uma construção paciente, consistente e marcada pelo compromisso com a ciência, com a gestão pública e com o interesse coletivo.

Durante oito anos à frente da Fiocruz, Nísia consolidou uma liderança respeitada nacional e internacionalmente.

Quando a pandemia da COVID-19 atingiu o Brasil e o mundo, a Fiocruz tornou-se um dos principais pilares da resposta científica e institucional àquela tragédia humana. Nísia exerceu seu papel com serenidade, firmeza e responsabilidade.

Em tempos de medo, incerteza e desinformação, ajudou a sustentar a voz da ciência e da razão.

Posteriormente, assumiu o Ministério da Saúde. Foi uma passagem relativamente breve, mas suficiente para reafirmar qualidades que já conhecíamos: competência técnica, capacidade de diálogo, espírito público e compromisso com valores democráticos.

Agora, Nísia Trindade apresenta seu nome como candidata à Câmara dos Deputados pelo Estado do Rio de Janeiro.

A boa safra de candidaturas

O Rio de Janeiro possui hoje uma boa safra de pré-candidaturas para o Parlamento nacional. Há nomes qualificados distribuídos por diferentes correntes políticas, culturais e ideológicas.

Existem candidatas e candidatos experientes, parlamentares em exercício, lideranças emergentes e figuras oriundas dos mais variados territórios do estado. São muitas as opções que estarão disponíveis aos eleitores em 2026.

Não pretendo fazer uma lista. Seria longa e certamente injusta com alguém que eventualmente ficasse de fora.

O que posso dizer é que há qualidade na disputa e isso é sempre uma boa notícia para a democracia.

Uma trajetória singular

Mas confesso que vejo a entrada de Nísia Trindade nessa jornada como uma novidade particularmente interessante.

Ela reúne atributos que nem sempre aparecem juntos na vida pública. É uma cientista social respeitada, uma pesquisadora reconhecida e uma gestora pública eficiente.

Ao mesmo tempo, preserva características pessoais cada vez mais raras em ambientes marcados pela agressividade e pela intolerância. É afável, gentil, delicada no trato humano e firme quando as circunstâncias exigem firmeza.

Sua candidatura traz algo que considero valioso. Amplia o repertório da política. Introduz experiências novas no debate parlamentar.

Leva para Brasília alguém que conhece o funcionamento do Estado, que compreende a importância das políticas públicas e que acumulou vivências concretas na administração de instituições complexas.

Quando soube que Nísia colocava seu nome à disposição da sociedade para mais essa missão cívica, fiquei feliz.

Não porque faltem boas opções eleitorais. Elas existem.

Minha alegria decorre de outra percepção. Vejo em sua candidatura uma combinação rara entre novidade e experiência, entre competência profissional e compromisso republicano, entre qualificação técnica e sensibilidade humana.

Democracia e representação

A democracia precisa de diversidade de trajetórias. Precisa de professores, trabalhadores, empresários, sindicalistas, artistas, lideranças comunitárias, pesquisadores, gestores públicos e representantes das mais diferentes experiências sociais.

Quando pessoas com sólida formação e reconhecida dedicação ao interesse público decidem disputar eleições, a democracia ganha.

Por isso, recebo a candidatura de Nísia Trindade com entusiasmo.

Vejo nela a possibilidade de uma transição interessante. A passagem de uma gestora do Poder Executivo para o exercício da representação legislativa.

Uma mudança de função, mas não de propósito. Uma nova etapa de compromisso com a cidadania, com a República e com os valores democráticos.

Coerência ao longo do tempo

Ao recordar aquela jovem estudante de Ciências Sociais da UERJ em 1977, percebo como algumas trajetórias possuem uma coerência admirável.

A curiosidade intelectual continua presente. O compromisso com o conhecimento permanece vivo. A disposição para servir ao interesse coletivo segue orientando suas escolhas.

Nísia Trindade representa uma boa notícia para quem acredita no diálogo, na responsabilidade pública e na política como instrumento de construção do bem comum.

Em tempos tão marcados pelo ruído, pela impaciência e pelos radicalismos, sua presença na vida pública lembra uma verdade simples.

Competência, civilidade e espírito democrático continuam sendo virtudes indispensáveis.

Viva Nísia Trindade.

* Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ.

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