Em um encontro marcado por tensão e desconforto na Casa Branca, o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, foi confrontado pelo então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com alegações controversas sobre um suposto “genocídio branco” no país africano.
A discussão teve início quando Trump mostrou a Ramaphosa um vídeo que, segundo ele, comprovaria a existência desse genocídio contra a minoria branca na África do Sul. Entre as imagens exibidas estavam cenas do político de oposição Julius Malema cantando uma música que alguns africâneres interpretam como um convite ao assassinato deles. “Temos milhares de histórias falando sobre isso. Temos documentários, temos notícias”, afirmou Trump, enquanto os demais presentes no escritório presidencial observavam atônitos.
Ramaphosa, um dos políticos mais experientes do continente africano, demonstrou desconforto diante das acusações e questionou Trump sobre a origem das imagens apresentadas. Ao ser informado que o líder americano não sabia onde elas tinham sido feitas, Ramaphosa tentou retomar o controle da conversa e sugeriu que debates mais ásperos fossem realizados longe das câmeras. Para aliviar o clima, fez até uma brincadeira: “Me desculpe, não tenho um avião para te dar”, disse ele, rindo.
Trump respondeu na mesma linha irônica, afirmando que gostaria que Ramaphosa tivesse um avião para oferecer à Força Aérea dos EUA. O episódio ganhou destaque também pelo fato de o governo americano ter confirmado, na mesma semana, a aceitação de um presente vindo do Catar — um avião avaliado em cerca de US$ 200 milhões que deverá ser atualizado para servir como novo Air Force One.
O desconforto entre os dois líderes remonta a tensões recentes envolvendo a relação bilateral. Em fevereiro, a administração Trump suspendeu toda ajuda à África do Sul em reação a uma nova lei sul-africana que abre caminho para a expropriação de terras privadas, sem especificar se dos brancos ou de outros grupos, sob a alegação de “interesse público”. A legislação, alvo de críticas internas e externas, provocou uma série de reações no cenário internacional.
Embora os brancos representem menos de 10% da população sul-africana, especialmente os africâneres descendentes de colonos europeus, eles controlam grande parte das terras agrícolas — uma herança do apartheid. A possibilidade de expropriação sem compensação foi interpretada pelo governo Trump como uma violação chocante dos direitos humanos.
Ramaphosa rebateu as acusações: “Nossa Constituição garante e protege a santidade da posse da terra, e essa Constituição protege todos os sul-africanos no que diz respeito à propriedade da terra”, afirmou durante o encontro. Ele destacou que o governo dos EUA também possui mecanismos legais para expropriar terras para uso público.
A chancelaria sul-africana classificou a postura americana como uma “campanha de desinformação e propaganda” destinada a deturpar a imagem do país, considerando que não reconhecia o histórico complexo de colonialismo e apartheid da África do Sul.
Além disso, Trump assinou uma ordem executiva prometendo apoiar o reassentamento nos EUA de refugiados africâneres que, segundo ele, fogem da discriminação racial e do confisco de propriedades. O primeiro grupo de beneficiados chegou ao país na semana passada, um movimento que também gerou controvérsia.
Este episódio revela não apenas as tensões diplomáticas entre Washington e Pretória, mas também como narrativas políticas podem ser usadas para pressionar governos estrangeiros em temas sensíveis, especialmente quando envolvem questões históricas profundas e desigualdades sociais.





