Fake news na Casa Branca: Trump usa imagem do Congo como se fosse da África do Sul para denunciar “genocídio branco”

Foto exibida durante encontro com Ramaphosa mostra na verdade vítimas de conflito em outro país, segundo a Reuters

Em mais um episódio polêmico envolvendo desinformação, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresentou uma imagem retirada de um vídeo da agência Reuters como suposta prova de um “genocídio branco” em curso na África do Sul. A foto, no entanto, não tem qualquer relação com o país africano citado. A cena é da República Democrática do Congo e mostra um enterro coletivo após um ataque de rebeldes do grupo M23 à cidade de Goma, no leste do país.

A exibição da imagem ocorreu durante uma reunião tensa no Salão Oval com o presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, que visitava Washington na tentativa de reaproximar os dois países após sucessivas críticas públicas de Trump às políticas internas e externas da África do Sul. “Estes são todos agricultores brancos que estão sendo enterrados”, afirmou Trump, segurando uma folha impressa com o artigo que continha a imagem.

O material usado pelo presidente americano foi publicado originalmente pelo site conservador American Thinker. Embora o post trate de tensões raciais tanto na África do Sul quanto no Congo, a imagem em questão é descrita apenas como uma “captura de tela do YouTube”, com um link para o vídeo da Reuters. A publicação não esclarece que a cena foi registrada em Goma, nem que se refere a um episódio específico de conflito armado na região dos Grandes Lagos africanos.

Editora do site que divulgou a foto admitiu o erro

A editora do site e autora do post, Andrea Widburg, reconheceu o erro em resposta a uma solicitação da Reuters, afirmando que Trump “identificou incorretamente a imagem”. Mesmo assim, ela defendeu o conteúdo do artigo, que criticava o governo de Ramaphosa como “marxista, disfuncional e obcecado por raça”, e alegava haver uma “pressão crescente sobre os sul-africanos brancos”.

O jornalista Djaffar Al Katanty, autor das imagens originais feitas para a Reuters, expressou indignação ao ver seu trabalho sendo distorcido em uma reunião presidencial. “Foi um choque. O presidente Trump usou minha imagem, o que filmei na RDC, para tentar convencer o presidente Ramaphosa de que, em seu país, pessoas brancas estão sendo mortas por pessoas negras”, declarou. Ele explicou que as imagens foram obtidas após negociação direta com o grupo rebelde M23 e com apoio da Cruz Vermelha, em um contexto completamente distinto do citado por Trump.

O uso equivocado da imagem alimenta uma teoria conspiratória promovida por setores da extrema direita internacional, que alega a existência de um suposto genocídio de brancos na África do Sul — tese amplamente desmentida por especialistas e organismos internacionais. Durante a reunião com Ramaphosa, Trump chegou a interromper a conversa para exibir o vídeo e folhear outros artigos impressos que, segundo ele, detalhariam assassinatos de brancos no país. “Morte, morte, morte, morte”, disse, apontando para as páginas.

O governo sul-africano negou reiteradamente as alegações de perseguição sistemática à minoria branca. O encontro com Trump deveria servir para amenizar as críticas e reabrir canais de cooperação bilateral, mas acabou marcado por mais uma polêmica envolvendo desinformação e uso político de imagens sensíveis.

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