Numa viela da Ladeira dos Tabajaras, policiais armados e bombeiros carregam um corpo num saco usado para transporte de cadáveres. Encostada numa parede, uma menina de uniforme escolar tem os olhos tapados por uma mulher, que tenta evitar que ela testemunhe a cena. Imóvel, a criança segura a alça de sua mochila roxa, enquanto os agentes retiram o corpo, que seria de um rapaz de 18 anos. Ele foi morto durante a operação que buscava prender os responsáveis pelo assassinato do policial João Pedro Marquini, de 38 anos. Marido da juíza Tula Corrêa, Marquini foi assassinado na Serra da Grota Funda, em 30 de março deste ano. Além de Kauã, outras quatro pessoas também morreram na ação desta terça-feira.
A cena da menina com os olhos cobertos, enquanto um corpo era retirado da comunidade, foi uma das mais impactantes da operação da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) e da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), realizada nesta terça-feira. À frente da fila de agentes que transportava o cadáver, um policial caminhava com o fuzil apontado para baixo. Ao redor, casas simples e, em um dos portões, a bandeira do Brasil estava pendurada.
O local exato fica na continuação da Rua Real Grandeza, em Botafogo, conforme indicavam as placas nos muros das casas, acima da entrada do Túnel Velho. Quem conta é a fotógrafa do GLOBO Márcia Foletto, que registrou a cena. A equipe havia se dividido: uma parte no lado da Rua Siqueira Campos, e outra, para onde Márcia foi com a repórter Bruna Martins, se deslocou para o entorno do Cemitério São João Batista.
— No lado de Copacabana, (o clima) estava absolutamente normal. Mas paramos em frente ao cemitério e as pessoas com quem a gente conversou estavam bem tensas, porque tinha tido muito tiro. Fomos andando, para próximo do túnel, e um morador falou que tinham subido carros de polícia. Achamos que estava relativamente seguro: andamos mais um pouco, fizemos a primeira curva e encontramos um colega, que avisou que tinha um corpo naquela viela — relata Márcia, que, àquela altura, sabia que havia mortos, mas não quantos, nem onde.
No local em que chegaram, por volta das 12h30, havia grande presença de policiais da Core. No ponto, funcionava uma boca de fumo anteriormente. Na parede, havia inscrita a palavra “Deus”, assim como um quadro de Jesus Cristo, enquanto o corpo estava coberto — as primeiras fotos, inclusive, foram feitas sem que o corpo aparecesse, enquanto a perícia era aguardada. Márcia Foletto conta que as vielas estavam vazias na maior parte do tempo, mas que muitas crianças com uniforme escolar passaram pelo local. Quem precisava acessar uma escadaria atrás do morto era impedido de passar, como uma criança, escorada na parede, que ficou aguardando.
Já por volta das 15h, os jornalistas trocavam informações de que a polícia já havia feito a perícia pelo lado de Copacabana e que estava se deslocando para o local em que Márcia estava. O trabalho dos peritos durou cerca de meia hora. Um sofá amarelo foi usado pela equipe da polícia para apoiar o quadro com o rosto de Jesus, assim como um fuzil, enquanto um dos agentes tirava o colete que usava. Ao ver que o corpo seria retirado, a fotógrafa do GLOBO diz que se afastou da cena, preocupada em localizar o local por onde o corpo seria carregado, no meio da viela, e viu a menina, acompanhada de duas mulheres mais velhas.
— Quando a velocidade dos policiais era maior, a mulher puxou ela para a parede, para deixar o corpo passar, foi quando colocou a mão no rosto da menina. Não vi isso na hora, só vi que tinha ido para a parede e já percebi que tinha sido uma foto boa, mas, quando editei, vi que a mão dela estava no rosto da criança e me dei conta de que a foto era muito boa — conta Márcia, que já havia percebido ainda a bandeira do Brasil na cena. — A bandeira é o retrato da nossa pobreza, da desigualdade do nosso Brasil.
Durante as três horas no local, houve um momento em que foram ouvidos tiros, disparados de outra localidade. Moradores correram para dentro de casa, enquanto os policiais da Core levantaram os fuzis, como reação. Uma mulher que chegou ao lugar se apresentou como parente do morto e conversou com os policiais, antes do corpo ser retirado. Enquanto a menina da foto teve o rosto coberto, tantas outras crianças passaram pelo local e observaram a cena atentamente.
— A gente não tem ideia do trauma disso na vida de uma pessoa. Então é instintivo para uma mãe ou uma parente proteger a criança (de ver o morto). Eu faria o mesmo — conclui a fotógrafa.
Com informações de O Glob0





