O Ministério Público Federal (MPF) apura possíveis irregularidades envolvendo o uso de um carro alugado pelo presidente do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), Márcio André Brito, informa o colunista Lauro Jardim, do jornal O GLOBO. Segundo denúncia anônima encaminhada ao órgão, Brito estaria utilizando, para fins particulares, um veículo de uma empresa que mantém contratos milionários com entes públicos, entre eles o Instituto de Pesos e Medidas do Amazonas (IPEM-AM), que ele comandou por 12 anos.
O carro em questão é um Toyota Corolla 2023, registrado em nome da locadora Kaele, que atua principalmente nas cidades de Manaus (AM) e Boa Vista (RR). Embora Brito afirme que o aluguel do veículo é custeado com recursos próprios e formalizado em contrato com a locadora, o vínculo entre ele, a empresa e os contratos públicos sob suspeita acendeu um alerta no MPF, que mantém o caso em fase de instrução.
A Kaele, segundo registros públicos, já teve contratos suspensos por indícios de superfaturamento, incluindo dois acordos com a prefeitura de Coari (AM), barrados pelo Tribunal de Contas do Estado. Em Roraima, o TCE também determinou medidas cautelares relacionadas a licitações firmadas entre a empresa e o governo estadual entre 2014 e 2016.
Apesar de declarar que a empresa opera em diversos estados, inclusive com filial em Brasília, a Kaele só disponibiliza, em seu site e aplicativo, a opção de aluguel de veículos em Manaus e Boa Vista. A reportagem tentou alugar um carro na capital federal por meio da plataforma da locadora. Ao contatar o atendimento pelo WhatsApp, a resposta foi direta: “Não temos loja em Brasília. Somente em Manaus e Boa Vista”.
Questionado sobre a origem do veículo e a relação com a locadora, Brito afirmou que paga cerca de R$ 3,8 mil por mês pelo aluguel e que conhece o proprietário da Kaele. Ele também disse que utiliza o serviço público TaxiGov em compromissos de trabalho, “acompanhando outros usuários do staff do Inmetro que vão para os mesmos compromissos visando a observar o princípio da economicidade”.
Conexões com antigos contratos
A Kaele é contratada por diversos órgãos estaduais no Amazonas, inclusive o IPEM, onde Brito atuou como diretor-presidente. Embora a atual gestão da autarquia afirme que os contratos com a locadora iniciaram em 2023, documentos revelam que, em 2022, quando Brito ainda ocupava o cargo, ele próprio assinou uma prorrogação de contrato no valor de R$ 204 mil — o sexto aditivo de um acordo firmado em 2018.
O atual contrato do IPEM-AM com a Kaele envolve a locação de 17 veículos do modelo Chevrolet Onix 1.0, ao custo mensal de cerca de R$ 46 mil. No Portal da Transparência, constam dois acordos: um no valor de R$ 484 mil por um ano e outro, de R$ 649 mil, para aluguel de um caminhão e uma van, também por 12 meses.
Além do Amazonas, a Kaele venceu uma licitação promovida pelo IPEM da Bahia em 2023 e lidera uma ata de registro de preços elaborada pelo IPEM do Mato Grosso. Os institutos do Piauí e do Ceará aderiram à ata. Em ao menos um dos processos, outra empresa apresentou proposta mais barata, mas não teve a homologação confirmada.
Motorista terceirizado também é alvo de apuração
Outra denúncia recebida pelo MPF diz respeito ao suposto uso de um funcionário terceirizado como motorista pessoal de Brito. Contratado como assistente administrativo, o servidor seria responsável por conduzir o carro usado pelo presidente do Inmetro, sem registrar o ponto eletrônico como os demais funcionários.
Em nota, o Inmetro alegou que o servidor em questão “participa de atividades internas e externas da instituição” e que o controle de sua jornada é feito de forma física devido à “especificidade no cumprimento do expediente”.
A legislação federal proíbe o uso de veículos oficiais para fins particulares, e, para deslocamentos em serviço, os servidores têm à disposição o sistema TaxiGov. O MPF, no entanto, afirmou que ainda não possui elementos suficientes para caracterizar irregularidades, destacando “a complexidade dos fatos apurados”.
Defesa do Inmetro e silêncio da Kaele
O presidente do Inmetro reafirma que mantém contrato particular com a locadora e que não há qualquer uso indevido de recursos públicos. Segundo ele, os valores pagos estão dentro da média de mercado — o site da própria Kaele informa que o aluguel diário de um veículo similar varia entre R$ 188 e R$ 238.
A reportagem tentou contato com a Kaele, mas não obteve resposta oficial. Atendentes da empresa apenas confirmaram que não há unidades em Brasília. O espaço segue aberto para manifestações da empresa.





