MPF entra na Justiça para impedir construção de hotel de luxo em Paraty

Ministério Público Federal questiona licenciamento da construção de hotel de luxo em Paraty, alegando riscos ambientais, ausência de consulta a comunidades tradicionais e desrespeito a normas internacionais

O Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação civil pública para anular a licença concedida pela prefeitura de Paraty, na Costa Verde, à construção do Hotel Spa Emiliano, empreendimento de alto padrão da empresa J Filgueiras Empreendimentos e Negócios Ltda. A iniciativa judicial, divulgada na terça-feira (29), visa suspender imediatamente a licença de instalação por supostas irregularidades no processo de licenciamento e impactos ambientais considerados graves.

De acordo com o MPF, o projeto hoteleiro está localizado dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Cairuçu, território reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial Misto — por sua combinação de biodiversidade atlântica e cultura tradicional caiçara. A construção ameaça ecossistemas sensíveis, incluindo manguezais, áreas de preservação permanente, e zonas próximas a terras indígenas e comunidades quilombolas e caiçaras.

A ação destaca a ausência de um Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e de um Relatório de Impacto Ambiental (Rima), documentos exigidos por lei para obras com potencial de degradação ambiental significativa. Além disso, o MPF afirma que não houve consulta prévia, livre e informada às comunidades tradicionais afetadas, em descumprimento à Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo Brasil.

O órgão também contesta a forma como foi conduzida uma audiência pública em junho deste ano: realizada com apenas sete dias de antecedência e com participação restrita a comunidades favoráveis ao projeto, enquanto outros grupos diretamente impactados não foram sequer notificados formalmente.

A Procuradoria pede que o estado do Rio de Janeiro assuma o licenciamento ambiental, incluindo a obrigatoriedade de avaliar a variável climática nos estudos técnicos. O MPF também requer a condenação dos réus — a empresa, o estado e o município — ao pagamento de R$ 3 milhões por danos morais coletivos.

O projeto prevê a instalação de 67 unidades de hospedagem (25 cabanas e 42 vilas) com piscinas e banheiras privativas em uma área de mais de 35 hectares. Segundo o MPF, essa infraestrutura sobrecarregaria os recursos hídricos e o saneamento da região, além de comprometer a integridade do patrimônio cultural e ambiental local.

A ação tramita na Justiça Federal de Angra dos Reis e aguarda decisão sobre o pedido liminar de suspensão imediata da licença. O MPF afirma que o objetivo é garantir que o desenvolvimento econômico de Paraty aconteça com respeito à legislação ambiental e aos direitos das populações tradicionais que vivem na região.

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