O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) realizou neste sábado (7) uma perícia independente no corpo de Herus Guimarães Mendes, de 23 anos, morto durante uma ação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) da PM em meio a uma festa junina no Morro do Santo Amaro, na zona sul da capital.
A medida foi determinada pelo procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, e tem como objetivo garantir uma apuração técnica e imparcial paralela à perícia oficial. A investigação utiliza escaneamentos 3D e recursos digitais para reconstruir a dinâmica da morte. Segundo o MPRJ, a iniciativa faz parte do esforço de controle externo da atividade policial.
“Estamos acompanhando desde os primeiros momentos com promotores de Justiça, perícia independente e equipamentos especiais. Reafirmamos nosso compromisso com a apuração dos fatos e a responsabilização de quem de direito”, declarou o procurador-geral.
Herus, que era office boy de uma imobiliária, foi atingido por um tiro na região abdominal e chegou a ser levado ao Hospital Glória D’Or, mas não resistiu. Ele era pai de uma criança de dois anos e morador da comunidade.
O pai da vítima, Fernando Guimarães, relatou que estava presente na festa com a esposa e o restante da família no momento da ação do Bope, por volta das 3h30 da madrugada. Segundo ele, não havia confrontos ou confusão no local até a chegada repentina dos agentes.
“A gente estava na festa, cheia de crianças. Eles entraram dando tiro, sem motivo algum. Meu filho tinha acabado de sair para comprar um lanche. Graças a Deus o filho dele não estava presente. O tiro atingiu o baço. Ele chegou a ser reanimado no hospital, mas não resistiu. Era trabalhador, sem ficha criminal, pagava pensão. Infelizmente, não vai voltar. Hoje ele é mais um. Mas as autoridades precisam explicar o que estavam fazendo no morro naquele horário. Quem autorizou essa operação?”, desabafou, ainda no hospital.
Vídeos publicados nas redes sociais mostram o pânico entre os presentes, com crianças correndo e adultos se abrigando atrás de carros. Um dos frequentadores relatou no Instagram: “Tava lá durante a festa junina e, surpreendentemente, aconteceu uma operação policial. Foram crianças, pessoas sendo pisoteadas, chorando, gente que não é do morro sem saber para onde correr, desesperadas, aterrorizadas”.
Em nota, a Polícia Militar afirmou que os agentes envolvidos na operação usavam câmeras corporais e que as imagens estão sendo analisadas pela Corregedoria. O comando do Bope instaurou um procedimento apuratório interno.
O Ministério Público também solicitou às secretarias estaduais de Polícia Militar e Polícia Civil uma série de providências, entre elas o envio de imagens captadas pelos equipamentos dos policiais, os objetivos da operação, os procedimentos adotados e os impactos da ação. À Polícia Civil, foi requisitado o acompanhamento da necropsia por peritos da instituição.
A perícia independente do MPRJ foi conduzida por equipes especializadas da Coordenadoria de Segurança e Inteligência (CSI), da Coordenadoria de Inteligência da Investigação (CI2), da Divisão de Evidências Digitais e Tecnologia (DEDIT) e do Grupo de Apoio Técnico Especializado (GATE).
A morte de Herus reacende o debate sobre o uso da força por parte da polícia em operações realizadas em áreas densamente povoadas e durante eventos comunitários, principalmente em comunidades do Rio de Janeiro. A investigação segue em andamento.
Veja os vídeos da ação e de protesto dos moradores:





