O número de mortes de bebês e crianças menores de cinco anos por doenças que poderiam ser prevenidas por vacinas teve um aumento expressivo no Brasil em 2024, informa Carlos Madeiro do portal UOL. Dados preliminares do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), divulgados pelo Ministério da Saúde em outubro, mostram 48 óbitos infantis registrados ao longo do ano — o que representa uma alta de 220% em relação a 2021, quando foram contabilizadas 15 mortes.
Esse é o terceiro ano consecutivo de crescimento, coincidindo com o período de queda nas coberturas vacinais no país. Apesar de uma leve recuperação nos últimos dois anos, os índices seguem abaixo das metas preconizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
A tendência se repete entre os bebês menores de um ano, faixa etária mais vulnerável, onde o salto foi ainda maior: 277% de aumento em apenas dois anos.
O cenário contrasta com os anos de 2020 e 2021, quando o uso de máscaras e o isolamento social durante a pandemia reduziram drasticamente os casos e as mortes por doenças respiratórias, o que havia temporariamente mascarado a queda na imunização infantil.
Coqueluche volta a matar no Brasil
Entre as causas das mortes evitáveis, a principal foi a coqueluche — infecção respiratória causada pela bactéria Bordetella pertussis. Após três anos sem registros fatais, a doença voltou a figurar no topo das estatísticas, com 21 óbitos de crianças.
Os bebês devem receber três doses da vacina pentavalente, aos dois, quatro e seis meses de idade. Além disso, gestantes precisam ser imunizadas com a vacina DTPa em todas as gestações, garantindo proteção aos recém-nascidos.
“Esse dado é muito preocupante porque é uma situação que vem da baixa cobertura vacinal”, afirma Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e integrante da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).
Segundo o Observatório de Saúde na Infância, o número de casos de coqueluche aumentou mais de 1.200% no país em 2024 — foram 2.152 registros apenas entre crianças menores de cinco anos, mais do que o total somado dos cinco anos anteriores.
“A coqueluche não foi um problema só no Brasil, mas o mundo inteiro vivencia uma alta a partir de 2023. Era esperado um aumento aqui, e por isso era fundamental termos coberturas melhores. A principal estratégia para proteger da doença é vacinar a gestante e o bebê”, reforça Juarez.
Outras doenças imunopreveníveis voltam a preocupar
Além da coqueluche, o levantamento do SIM mostra outras causas de morte que poderiam ser evitadas por vacinação: 13 casos de tuberculose do sistema nervoso, 9 de meningite bacteriana, 2 de tuberculose miliar, 1 de difteria, 1 de caxumba e 1 de doenças virais congênitas.
Todas essas doenças contam com vacinas disponíveis no calendário básico do Sistema Único de Saúde (SUS), oferecidas gratuitamente em todos os 5.570 municípios brasileiros.
Dados subestimam a realidade, diz especialista
Para Juarez Cunha, os números oficiais ainda subestimam o tamanho do problema. “Os dados classificados como evitáveis por vacinação no SIM são subestimados, já que eles não contam doenças com vacina, como covid e influenza. Essas duas deveriam também ser consideradas porque são imunopreveníveis”, explica.
O especialista cita que, em 2024, 116 crianças de até quatro anos morreram por influenza, segundo o próprio Ministério da Saúde, mas esses casos não aparecem nas estatísticas de óbitos evitáveis por vacina.
Ele lembra que a queda na cobertura vacinal foi mais acentuada entre 2019 e 2021, em meio à pandemia e à desinformação sobre imunização, e que só começou a se recuperar nos últimos dois anos. “Essas coberturas só agora, em 2023 e 2024, começaram a melhorar. Além disso, tivemos períodos de falta de vacinas, como a BCG, e ainda convivemos com a desinformação, que impacta tanto as vacinas de rotina quanto as campanhas. Tudo que a gente está vendo agora só reforça a necessidade de vacinar crianças e gestantes”, afirma.
Sul e Sudeste lideram mortes por falta de imunização
Em 2024, 17 estados e o Distrito Federal registraram mortes infantis por doenças evitáveis. Curiosamente, as regiões Sul e Sudeste — tradicionalmente com melhores índices de saúde pública — concentraram a maioria dos casos.
Foram 12 mortes no Sul e 16 no Sudeste. São Paulo teve o maior número absoluto, com 7 óbitos, seguido de Amazonas (5), Rio de Janeiro (5), Paraná (5), Santa Catarina (5) e Minas Gerais (4).
Outros estados também aparecem com registros, como Pará (3), Maranhão (2), Pernambuco (2), Rio Grande do Sul (2), Roraima (1), Piauí (1), Ceará (1), Distrito Federal (1), Sergipe (1), Bahia (1), Mato Grosso do Sul (1) e Mato Grosso (1).






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