A quatro dias do segundo turno que elegeu Jair Bolsonaro presidente da República, o procurador Deltan Dallagnol disse aos colegas do consórcio da “lava jato” que estava com pressa. “Começaram a levantar os cinco casos pra apresentarmos ao Moro?”, perguntava Deltan em 24 de outubro de 2018. “Não temos muito tempo.”

É o que mostram trocas de mensagens obtidas pelos dados da operação “spoofing”, da Polícia Federal, que investigou o vazamento contra o grupo de Curitiba.
Como se soubesse que Sergio Moro, o juiz que sentenciava as denúncias do consórcio, estava de saída, Dallagnol pressionava colegas para que apresentassem cinco novos casos ao magistrado.
Moro sempre negou que tenha acertado sua nomeação antes da eleição, fato que o desmoralizaria como juiz e confirmaria que agiu com interesse de influir na eleição ao divulgar delação de Antônio Palocci na semana do pleito.
Gustavo Bebianno (1964-2020), ex-secretário da Presidência da República de Jair Bolsonaro, contara que Paulo Guedes, então já cotado para assumir o ministério da Economia, havia lhe dito que tivera “cinco ou seis conversas com Moro”, nas quais o juiz deixara claro que “estava disposto a abandonar a magistratura e aceitar esse desafio como ministro da Justiça”.A mensagem de Deltan sugere que os procuradores também sabiam dos planos de Moro, e que tanto eles como o juiz estavam buscando aproveitar os últimos momentos da parceria entre o Ministério Público Federal e a 13ª Vara da Justiça Federal de Curitiba.

A procuradora Laura Tessler, por exemplo, responde no mesmo tom, dizendo que estava preparando casos envolvendo parlamentares, governadores e ex-presidente.
Ela menciona ainda um caso específico, que seria “fácil e pequeno em termos de trabalho e publicidade inicial”, envolvendo o ex-presidente da Jurong, um dos estaleiros que forneciam plataformas e sondas à Petrobras.
A procuradora então sugere uma estratégia de intimidação, para forçar a “empresa vir pro acordo”: uma busca e apreensão na empresa e na residência do investigado.

Alguns meses depois, em 21 de fevereiro de 2019, já com Bolsonaro no poder e Moro no Ministério da Justiça, Tessler e Dallagnol repetem a mesma estratégia de intimidação contra a Jurong, conforme se constata num outro diálogo obtido com exclusividade pela reportagem dos portais.
Nele, Dallagnol e Tessler falam no “potencial da Jurong para leniência”. Os parâmetros não são os possíveis crimes cometidos pela empresa, mas a sua importância estratégica para o país e o seu faturamento. Esses fatores, segundo os procuradores, deveriam forçar a empresa a aceitar o acordo oferecido pelo MPF, o que implicaria em admitir os crimes de que era acusada.
No dia 27 e 28 de fevereiro, outro diálogo faz referência a pressão vinda do juízo federal, para acelerar processos referentes a Jurong/Esteves.

Em fevereiro de 2020, o juiz Luiz Antonio Bonat, que veio a ser o substituto definitivo de Moro na 13ª Vara, assinou a sentença de condenação de Guilherme Esteves, operador da Jurong, e João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, por corrupção ativa ou passiva.
(Do DCM, O cafezinho e Conjur)






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