Metade das jovens brasileiras enfrenta dupla ou tripla jornada, aponta estudo

Pesquisa da Fiocruz e do Ministério do Desenvolvimento Social revela que mulheres acumulam estudos, trabalho e cuidados desde os 18 anos; jovens negras são as mais sobrecarregadas

A realidade de milhões de jovens brasileiras é marcada pelo acúmulo de responsabilidades. Um estudo divulgado nesta terça-feira (30) pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pela Secretaria Nacional de Cuidados e Família do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS) revela que metade das mulheres a partir dos 18 anos vive uma dupla ou até tripla jornada, conciliando estudos, trabalho remunerado, tarefas domésticas e cuidados com familiares.

Os dados mostram ainda que apenas uma pequena parcela das jovens — cerca de 2% — não está envolvida em pelo menos uma dessas atividades. O levantamento também contesta a ideia de que grande parte da juventude estaria sem ocupação. Segundo os pesquisadores, muitas jovens classificadas como “nem-nem” estão, na prática, dedicando grande parte do tempo ao trabalho doméstico e aos cuidados de crianças, idosos ou outros parentes.

O estudo “Juventudes e a Política de Cuidados” foi elaborado com base nos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua Anual) de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os resultados preliminares foram divulgados por meio do informativo Superposição de atividades na juventude: estudar, trabalhar e cuidar.

Mulheres concentram maior carga de cuidados

De acordo com a pesquisa, 82,5% dos jovens entre 15 e 29 anos realizam algum tipo de atividade de cuidado. Entre as mulheres, esse percentual sobe para 90%, evidenciando uma distribuição desigual dessas responsabilidades.

O estudo aponta ainda que a desigualdade racial amplia essa sobrecarga. Jovens mulheres negras dedicam, em média, o dobro de horas ao trabalho de cuidados quando comparadas aos homens brancos e negros. Entre 18 e 24 anos, elas destinam cerca de 19 horas semanais a essas atividades não remuneradas.

Para a secretária nacional da Política de Cuidados, Laís Abramo, os dados reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas para esse grupo.

“A Política Nacional de Cuidados dedica atenção especial às pessoas jovens, especialmente às jovens mulheres e às jovens mulheres negras. Elas são as mais sobrecarregadas com o trabalho não remunerado de cuidados, o que compromete o exercício de direitos como educação, trabalho, cultura, lazer e participação na vida pública”, afirmou.

Estudos e trabalho convivem com responsabilidades domésticas

A pesquisa destaca que a juventude é uma fase de transição em que muitos deixam de ser apenas receptores de cuidados para se tornarem responsáveis por cuidar de outras pessoas.

Entre as estudantes com mais de 18 anos, mais de um quarto também desempenha funções de cuidado dentro da família. Isso representa aproximadamente 1,2 milhão de mulheres em todo o país.

Na faixa de 15 a 17 anos, três em cada quatro adolescentes conciliam os estudos com trabalho doméstico ou atividades de cuidado não remuneradas. Já a chamada tripla jornada — estudar, trabalhar e cuidar simultaneamente — atinge 9% das mulheres entre 18 e 24 anos e 18% daquelas entre 25 e 29 anos.

Por outro lado, o percentual de mulheres que não estudam, não trabalham e não realizam atividades de cuidado varia entre apenas 0,7% e 2,6%, dependendo da faixa etária.

Pesquisa questiona conceito de juventude desocupada

Segundo André Sobrinho, coordenador da Agenda Jovem Fiocruz, os resultados mostram que a juventude brasileira é marcada pelo acúmulo de tarefas e não pela falta de ocupação.

“É muito comum no debate público o alarme em torno dos jovens que nem estudam e nem trabalham. Mas nossos estudos demonstram que essa é uma fase marcada pela superposição de atividades. Muitos jovens estão inseridos no mercado de trabalho, conciliam os estudos e ainda assumem responsabilidades de cuidado, especialmente as mulheres”, afirmou.

Base para a Política Nacional de Cuidados

O levantamento integra uma parceria entre a Secretaria Nacional de Cuidados e Família do MDS e a Fiocruz, envolvendo o Grupo de Informação em Saúde e Envelhecimento (Gise), do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), e a Agenda Jovem Fiocruz.

O objetivo é subsidiar a implementação da Política Nacional de Cuidados, instituída pela Lei nº 15.069/2024, e do Plano Nacional de Cuidados Brasil que Cuida.

A coordenadora do Gise, Dalia Romero, destaca que o trabalho de cuidado ainda é pouco visível nas estatísticas oficiais e que novas formas de mensuração são necessárias para compreender melhor a realidade da juventude brasileira.

A parceria também desenvolve o painel interativo DataCuidados, ferramenta que reúne indicadores sobre a realidade dos cuidados no Brasil e auxilia gestores públicos na formulação de políticas voltadas ao tema.

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