Um relatório sigiloso do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) expõe uma sofisticada rota de transferências entre o Banco Master e empresas controladas pelo ex-senador Luiz Estevão. O documento, produzido a partir de alertas da Caixa Econômica Federal, mapeia R$ 27,2 milhões repassados entre 2024 e 2025 que, segundo a autoridade de inteligência, apresentam indícios de movimentação em benefício de terceiros, segundo informações obtidas pelo jornal O Estado de São Paulo.
A investigação do Coaf identificou que o Metrópoles — portal comandado pelo ex-senador — realizava “débito imediato” dos valores recebidos do Master para três companhias: Madison Gerenciamento S/A, Sense Construções e Participações S/A e Macondo Construções e Participações S/A. Todas elas têm Luiz Estevão e suas filhas no quadro societário ou em cargos de direção.
A Caixa Econômica, instituição financeira que processava as transações, comunicou ao Coaf uma série de irregularidades. O banco estatal apontou “movimentação de recursos incompatível com o faturamento médio mensal”, “recebimento de transferências de valores inusitados” e, principalmente, o padrão de crédito com “débito imediato dos valores”. O documento cita ainda “indícios de movimentação de recursos em benefício de terceiros” e “movimentação com pessoas expostas politicamente”.
“A comunicação ao Coaf é justificada pois no período analisado foi movimentado recursos incompatíveis com o faturamento médio mensal da pessoa jurídica, identificamos o recebimento de transferências de valores inusitados, a movimentação foi caracterizada pelo recebimento de crédito com o débito imediato dos valores, há indícios de movimentação de recursos em benefício de terceiros e movimentação com pessoas expostas politicamente”, detalha o relatório.
O documento foi elaborado durante o período de colapso do Master. Entre março, quando Daniel Vorcaro tentou vender o banco ao BRB, e novembro de 2025, quando o conglomerado foi liquidado pelo Banco Central, a instituição financeira transferiu R$ 27.283.800 para a empresa Metrópoles Marketing e Propaganda LTDA. O banqueiro está preso sob acusação de fraude bilionária.
Defesa do empresário
Luiz Estevão, quando procurado, defendeu os valores negociados. Segundo o ex-senador, os repasses — que ele atribui ao patrocínio do Will Bank à Série D do Brasileirão — deveriam ter sido ainda maiores. “O valor foi maior. Eles não pagaram tudo. Ainda estão devendo dinheiro e estamos atrás de receber”, afirmou, acrescentando que precisava adquirir os direitos de transmissão junto à CBF.
“O valor não está nada fora. E ainda temos que comprar os direitos da CBF, que não disponibiliza gratuitamente, não”, completou.
A cronologia, porém, desafia essa versão. O Master iniciou os pagamentos em janeiro de 2025, enquanto a Série D só começou em 19 de abril. O acordo de exibição entre Metrópoles e CBF foi anunciado apenas em julho, com as primeiras transmissões ocorrendo na 11ª rodada. A logomarca do Will Bank só apareceu nos estádios em 26 de julho — na 14ª rodada, última da fase inicial — mais de seis meses após o início dos repasses bancários.
Sobre os débitos imediatos para empresas familiares, o ex-senador foi taxativo. “O dinheiro que eu recebi passa a ser meu e faço com ele o que eu quiser. Posso comprar publicidade no Estadão, posso transferir esses recursos para outras empresas minhas, comprar um imóvel, fazer o que quiser”, declarou.
As três firmas têm Luiz Estevão e filhas no quadro societário ou em funções de direção e o fluxo financeiro “pode configurar, possível movimentação de recursos em benefício de terceiros”.
A reportagem do jornal sondou operadores do mercado de futebol que sinalizaram que a Série D, tradicionalmente, não gera lucro para quem a transmite. Historicamente, há poucos interessados na competição — o que torna os valores milionários ainda mais notáveis.
A investigação mostra como uma instituição financeira em processo de liquidação canalizou dezenas de milhões para um veículo de comunicação que, no mesmo instante, redirecionava os recursos para outras companhias de sua família, levantando questionamentos sobre a destinação final desses recursos e seu papel no colapso do conglomerado bancário.






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