Maricá se prepara para ocupar um lugar inédito no mapa da inovação agroecológica e enológica do Brasil. O prefeito Washington Quaquá anunciou oficialmente a criação da Universidade do Vinho de Produtos Agroecológicos Especiais, um ambicioso projeto que vai muito além da vitivinicultura: trata-se de um centro de excelência voltado à pesquisa, produção e qualificação de alimentos e derivados naturais de alta qualidade, integrando tecnologia, sustentabilidade, soberania alimentar e turismo de alto padrão.
“Nós criamos a Universidade do Vinho”, anunciou Quaquá em pronunciamento. “Na verdade, vai ser a Universidade do Vinho de produtos agroecológicos especiais. Vamos fazer queijos de alta qualidade, charcutaria, o pernil pata negra com o porco preto alentejano adaptado ao Brasil, que é o cachaço brasileiro”, detalhou o prefeito, ao Agenda do Poder, revelando que a proposta busca criar um novo eixo de especialização rural e urbana, com foco em produtos nobres e sustentáveis.
O projeto inclui ainda a produção de alimentos sem agrotóxicos, com pesquisas integradas nas áreas de alimentação, farmacologia e cosméticos naturais.
“Queremos que a empresa de alimentação de Maricá, a Amar, seja a empresa que vai pesquisar não só alimentação, mas também fármaco e cosméticos, enfim, tudo ligado à natureza, sem agrotóxico, para fazer os produtos de altíssima qualidade”, reforçou Quaquá.
Campus avançado da Serra
A estrutura da universidade será dividida em dois polos complementares: a sede principal ficará em Maricá, com ênfase nas caves de vinho e na promoção do turismo enológico de alto padrão, enquanto um campus avançado será implantado na histórica Fazenda Passatempo, em Paraíba do Sul, na Região Serrana fluminense. A fazenda está em processo de aquisição pelo município e abrigará a produção vitivinícola e experimentos agroecológicos.
“Estamos comprando a fazenda Passatempo, ali em Paraíba do Sul, que vai ser o campus avançado da universidade na Serra. A sede, obviamente, vai ser aqui em Maricá, onde nós vamos ter as caves”, explicou o prefeito.
“Eles vão fazer em Maricá como o Gaia e o Porto fazem com o Douro. O vinho é produzido lá, envelhecido aqui, nos tonéis e nas caves de vinho.”
A inspiração em modelos europeus de excelência, como o da região do Douro, em Portugal, é clara — mas com um diferencial tropical e sustentável. A meta é ousada: transformar Maricá em referência nacional e internacional na produção de vinhos e alimentos agroecológicos de alto valor agregado. Para Quaquá, trata-se também de um reposicionamento estratégico frente ao modelo tradicional do agronegócio brasileiro:
“Acho que ninguém no Brasil vai investir tanto quanto Maricá vai investir nesse agronegócio de alta especialização. O Brasil tem grande agronegócio, mas fica vendendo material primário para o mundo.”

Com a criação da Universidade Livre do Vinho, o município projeta não só ganhos econômicos e turísticos, mas também um novo paradigma de desenvolvimento: ético, sustentável, gourmet e integrado ao território. A iniciativa ainda promete atrair um novo perfil de visitantes e investidores, interessados em experiências sensoriais, culturais e ecológicas de alta qualidade.
“A nossa ideia é entrar de cabeça na produção do vinho nacional, que não só é um produto altamente qualificado e com um valor elevado, mas também traz um turismo de régua alta aqui para a nossa cidade. Então, esse é o objetivo da Universidade do Vinho”, concluiu Quaquá.
O projeto já está em andamento, com negociações para aquisição de terras, articulações com especialistas nacionais e estrangeiros, e planejamento de infraestrutura voltada à pesquisa, produção e recepção turística. Trata-se de um marco não só para Maricá, mas para a reinvenção do potencial agroecológico brasileiro no século XXI.
Reitor ‘importado’ do Sul
O projeto também prevê a vinda de professores universitários e técnicos da Europa, aliados à valorização da inteligência científica e cultural brasileira, numa união de saberes para desenvolver produtos únicos e sofisticados. O primeiro nome confirmado é Leonardo Cury, especialista em fitotecnia e manejo da videira do Instituto Federal do Rio Grande do Sul, que será o reitor da universidade. Quaquá já preparou um ofício pedindo a liberação de Cury junto ao MEC e deve ir a Brasília nos próximos dias para formalizar a transferência.

No último sábado, Leonardo Cury participou de um evento em Areal realizado pela Aviva (Associação dos Viticultores das Serras do Rio de Janeiro), onde foi realizado um encontro técnico com degustação de vinhos produzidos nas regiões de Areal e Paraíba do Sul, realizado na Fazenda Vale dos Desejos. O professor Leonardo Cury, apresentou o cenário atual da produção e novas tecnologias que devem ser adotadas nas regiões produtoras.
O evento contou com a presença do prefeito de Maricá, Washington Quaquá, acompanhado do presidente da Amar, Marlos Costa, e do secretário de Turismo, Comércio e Indústria de Maricá, José Alexandre Almeida.
Os prefeitos Gutinho Bernardes (Areal) e Julio Canelinha (Paraíba do Sul) destacaram a importância do vinho para o desenvolvimento econômico e a promoção turística da região.
Representando o município de Nova Friburgo, que se destaca como um promissor produtor de vinhos, esteve presente Dirceu Tardim, presidente da Câmara Municipal.

Produtores comemoram a iniciativa
A notícia da criação da Universidade do Vinho em Maricá foi recebida com muito entusiasmo pelos produtores de vinho da Região Serrana. Leandro Caiaffa, proprietário da Vinícola Caiafa, em Três Picos, Nova Friburgo, destacou a importância de um projeto que visa a integração do enoturismo no Estado do Rio.
Caiaffa propõe que a Prefeitura de Maricá, ao implantar sua universidade e suas caves enoturísticas, avalie o potencial de cooperação com as regiões serranas, como Nova Friburgo, especialmente por meio de parcerias com a Aviva (Associação dos Vitivinicultores do Estado do Rio de Janeiro) e instituições de ensino como o Colégio Técnico IBELGA, referência histórica na formação de técnicos agrícolas.
Para Leandro, a criação da universidade é um passo estratégico que pode ampliar e qualificar a cadeia produtiva do vinho no estado. Ele lembra ainda que Maricá e Nova Friburgo têm inclusive ligações geográficas, apesar da distância.
“A conexão entre Maricá e Nova Friburgo é geográfica quanto simbólica: os Três Picos podem ser avistados de Maricá em dias claros, simbolizando essa ponte natural entre o litoral e a serra, ambas situadas na parte nordeste da Baía de Guanabara”, lembra Caiaffa.
Uma rota do vinho com identidade fluminense
A Vinícola Casa Caiafa, em fase de implantação nos arredores dos Três Picos, aposta na combinação entre tradição familiar, inovação agroecológica, turismo de experiência e formação técnica voltada para a agricultura familiar. Nesse sentido, está diretamente alinhada com os princípios anunciados para a Universidade do Vinho em Maricá: pesquisa, sustentabilidade, turismo e formação profissional de excelência.
A proposta da Casa Caiafa é também cultural e educacional: oferecer experiências sensoriais ligadas ao terroir da serra fluminense, promovendo a valorização da produção local e do saber técnico tradicional, aliado à inovação em práticas sustentáveis e agroecológicas. Isso inclui visitas guiadas, cursos, degustações e formação em vitivinicultura, com foco na agricultura de base familiar e na valorização da identidade fluminense.

Com a criação da Universidade Livre do Vinho em Maricá e a aquisição de um campus avançado na Serra (Fazenda Passatempo, em Paraíba do Sul), abre-se uma janela histórica para a construção de uma rede estadual do vinho e da agroecologia, articulando litoral, serra e interior em torno de um eixo comum de desenvolvimento sustentável, turístico e científico.
Para Caiaffa, é hora de pensar grande:
“O vinho não é só produto. É cultura, é educação, é turismo e é também uma nova forma de o estado do Rio se ver e se valorizar.”, afirma.
A conexão entre os Três Picos e o mar de Maricá pode, assim, deixar de ser apenas uma bela imagem no horizonte — e se tornar a espinha dorsal de um novo ciclo econômico, cultural e ecológico no território fluminense.






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