A bola vai rolar nesta quinta-feira (11) para a maior Copa do Mundo já realizada. Pela primeira vez, o torneio reúne 48 seleções, será disputado em três países e contará com 104 partidas ao longo de pouco mais de um mês. A abertura acontece na Cidade do México, com o confronto entre México e África do Sul, marcando o início de uma competição que promete recordes dentro e fora de campo.
Para a Fifa, o evento representa uma celebração global do futebol. O presidente da entidade, Gianni Infantino, classificou o torneio como “uma grande festa”. No entanto, o Mundial de 2026 começa sob um cenário marcado por disputas diplomáticas, barreiras migratórias, preços elevados e desafios de organização que contrastam com o discurso de integração que acompanhou a candidatura vencedora.
Uma Copa entre aliados em conflito
Quando Estados Unidos, México e Canadá conquistaram o direito de sediar a Copa, em 2018, a candidatura conjunta foi apresentada sob o slogan “united as one” (“unidos como um só”). Oito anos depois, a realidade política dos três países está longe da imagem de união projetada pela campanha.
Questões relacionadas ao comércio, à imigração e ao combate ao tráfico de drogas ampliaram os atritos entre os governos. A volta de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos contribuiu para aumentar as tensões regionais, especialmente diante de declarações envolvendo os países vizinhos.
O cenário internacional também impacta diretamente o torneio. Pela primeira vez em décadas, uma Copa do Mundo é realizada enquanto um dos países-sede está envolvido em um conflito militar direto com uma das seleções participantes.
Irã enfrenta obstáculos dentro e fora de campo
A situação mais delicada envolve a seleção do Irã. Desde o início dos ataques dos EUA ao país asiático, em fevereiro, surgiram dúvidas sobre a participação da equipe no torneio.
Os iranianos disputarão todos os jogos da fase de grupos em território estadunidense, mas a delegação precisou alterar seu planejamento. A concentração inicialmente prevista para Tucson, no Arizona, foi transferida para Tijuana, no México, próxima à fronteira com os Estados Unidos.
Além das dificuldades logísticas, persiste a preocupação com a entrada dos atletas em solo estadunidense e com a presença de torcedores. Segundo a FFIRI (Federação de Futebol do Estado Islâmico do Irã), a cota de ingressos destinada aos iranianos foi cancelada às vésperas da competição.
Nesta quarta-feira (10), Trump afirmou que os Estados Unidos estão “trabalhando para garantir que as pessoas certas entrem”.
Barreiras migratórias geram polêmica
O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan ficou impedido de participar da Copa após enfrentar problemas para ingressar no país. Segundo ele, toda a documentação exigida estava regular.
“Eu tinha os documentos certos. Eu tinha o visto correto”, disse o juiz, que foi interrogado por 11 horas. “Acho que eles têm um problema com o meu país.”
Outros relatos semelhantes vieram de integrantes das delegações de Uzbequistão, Senegal e Iraque. O atacante iraquiano Aymen Hussein, responsável pelo gol que garantiu a classificação de sua seleção, permaneceu quase sete horas sob questionamentos antes de receber autorização para entrar nos Estados Unidos.
Ingressos milionários e críticas aos preços
Se a questão política afasta parte dos participantes, os preços elevados dificultam a presença de muitos torcedores.
A Fifa adotou um sistema de valores dinâmicos, ajustados conforme a procura. Com isso, os preços dispararam em diversos jogos. De acordo com plataformas especializadas em monitoramento do mercado de ingressos, algumas partidas registraram valores considerados inéditos em Copas do Mundo.
Casos extremos surgiram no mercado oficial de revenda, onde os próprios compradores podem definir os preços dos ingressos. Um dos anúncios mais comentados oferecia uma entrada para a final por US$ 2 milhões.
Questionado sobre o tema, Infantino tratou o assunto com humor.
“Se alguém coloca o bilhete por US$ 2 milhões em um mercado de revenda, em primeiro lugar, isso não significa que ele custe US$ 2 milhões. Em segundo lugar, isso não significa que alguém vá comprar. Na verdade, se alguém comprar um bilhete por US$ 2 milhões, eu mesmo lhe levarei um cachorro-quente e uma Coca-Cola para garantir uma ótima experiência”, divertiu-se.
Enquanto isso, a entidade projeta arrecadar cerca de US$ 11 bilhões com a competição.
Os custos não se limitam aos ingressos. Em cidades que recebem partidas decisivas, torcedores relatam aumento expressivo nos preços de transporte, hospedagem e alimentação.
Estados Unidos ainda não respiram Copa
Apesar da magnitude do evento, a Copa do Mundo ainda não domina as conversas em diversas cidades dos EUA.
Na região de Nova York, por exemplo, o foco esportivo está voltado para a disputa da NBA, especialmente pela possibilidade de o New York Knicks conquistar um título histórico.
Pesquisas recentes também apontam um interesse relativamente modesto da população local. Segundo levantamento do Pew Research Center, 66% dos adultos estadunidenses demonstram pouca ou nenhuma intenção de acompanhar a competição.
A expectativa é que o interesse aumente à medida que o torneio avance, especialmente nas fases eliminatórias, que serão integralmente disputadas nos Estados Unidos a partir das quartas de final.
Messi e Cristiano Ronaldo podem disputar a última Copa
Dentro de campo, a competição também carrega um forte componente emocional. Tudo indica que esta será a despedida de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo dos Mundiais.
Aos 38 anos, Messi chega defendendo o título conquistado pela Argentina no Qatar e liderando uma equipe apontada entre as favoritas.
Já Cristiano Ronaldo, aos 41 anos, tentará conduzir Portugal ao maior feito de sua história em Copas do Mundo, apoiado por uma geração considerada uma das mais talentosas já reunidas pela seleção portuguesa.
Brasil busca encerrar jejum de 24 anos
A Seleção Brasileira desembarca na América do Norte sem o favoritismo de outras edições, mas carregando o peso de sua tradição.
Sem conquistar a Copa desde 2002, o Brasil passou por um longo período de instabilidade técnica após a eliminação para a Croácia nas quartas de final do Mundial do Qatar.
O ciclo contou com mudanças frequentes no comando da equipe até a chegada do técnico Carlo Ancelotti. O treinador italiano assumiu a missão de reorganizar a seleção e recolocar o país entre os candidatos ao título.
Uma das decisões mais comentadas foi a convocação de Neymar, que retorna a uma Copa após enfrentar sucessivos problemas físicos nos últimos anos.
Sem um armador clássico em sua formação, Ancelotti optou por uma equipe mais intensa na marcação e com forte pressão sobre os adversários.
Mesmo sem aparecer entre os principais favoritos nas projeções internacionais, o elenco brasileiro mantém confiança na conquista do hexacampeonato.
“Aonde vai o Brasil é favorito, tem cinco estrelas no peito. Claro que isso não entra em campo. Mas temos jogadores brilhando nos melhores clubes do mundo. Onde eu jogo, na Inglaterra, a gente se sente respeitado. O Brasil vai ser sempre um dos favoritos. Não significa que vamos ganhar, mas estamos no bolo.”
A declaração do volante Bruno Guimarães resume o sentimento da delegação brasileira. Em uma Copa marcada por conflitos políticos, desafios logísticos e expectativas gigantescas, a Seleção tenta transformar tradição e talento em mais um capítulo de sua história no futebol mundial.






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