Magda garante que Petrobras seguirá lógica do mercado e abrirá novas fronteiras para garantir autossuficiência

‘Se tem lucro, tem dividendos. Se existe uma coisa que tenho certeza é que a empresa vai dar muito lucro’, afirmou a nova dirigente

A nova presidente da Petrobras, Magda Chambriard, disse hoje em sua primeira entrevista coletiva no cargo que a empresa tem de ser rentável e atender aos interesses dos acionistas, sejam eles privados ou governamentais.

No entanto, frisou o fato de a Petrobras ser classificada como uma empresa de “economia mista”, ou seja, tem capital aberto em Bolsa, acionistas privados, mas é controlada pela União, como as outras estatais. Ela defendeu a expansão da produção de petróleo da Petrobras, confirmou que pode fazer mudanças na diretoria e defendeu distribuição dos ganhos da empresa entre acionistas: “Se tem lucro, tem dividendos”.

— Isso (rentabilidade) se busca com conversa. Gerir essa empresa para dar lucro é muito fácil. E vamos fazer isso. Nosso esforço será pela tempestividade e agilidade. Vamos respeitar a lógica empresarial. Dando lucro, sendo tempestiva e atendendo aos interesses dos acionistas públicos e privados. A palavra-chave é conversa. E colocar a empresa à disposição dos acionistas dentro da lógica empresarial.

Perguntada sobre quem terá a palavra final na estatal, ela respondeu que a Petrobras é uma empresa de “economia mista”.

— A Petrobras é uma empresa de economia mista. Ela roda com diretoria colegiada e submetida com conselho de administração. A lógica empresarial é essa.

Magda indicou que pretende trabalhar pela recuperação da credibilidade da empresa junto ao mercado financeiro, que penalizou as ações da empresa com forte desvalorização após a decisão do presidente Lula de substituir Jean Paul Prates.

— Quando fui indicada, as ações caíram. E pensei é ‘hora de comprar’. Primeiro porque vocês conhecem minha história e conhecem a história da empresa. Somos top 10 em tudo. Qual dúvida se tem sobre essa empresa, de que vai dar lucro?

Magda Chambriard fez uma forte defesa de ampliação da produção de petróleo pela Petrobras e do aumento da atividade de exploração para ampliar reservas, dado que, segundo ela, o declínio da produção a partir de 2030 pode tirar do Brasil a condição de autossuficiente.

Ela defendeu a exploração da chamada Margem Equatorial, no litoral norte, sobre a qual pesam questões ambientais. Ela afirmou que vai buscar esclarecer melhor as autoridades ambientais sobre os planos da Petrobras na região.

— Precisamos ter autorização para explorar. Vamos ter que conversar com o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e mostrar o que a Petrobras está ofertando cuidado com o meio ambiente, muito mais do que a lei demanda. O Ministério de Minas e Energia (MME) está louco para perfurar — afirmou Magda. — O histórico da Petrobras é de respeito à sociedade. O Ministério do Meio Ambiente precisa ser mais esclarecido sobre a necessidade de a Petrobras e o país explorar petróleo e gás até para liderar a transição energética.

— O foco é zelar para que os ativos de petróleo da Petrobras persistam crescendo. A sobrevivência da Petrobras tem um componente que é a produção tempestiva, com zelo, máximo aproveitamento e com reposição de reservas. E isso significa que é essencial continuar explorando petróleo na costa brasileira. A Margem Equatorial e a costa do Amapá estão nesse contexto.

Segundo ela, a exploração de petróleo no pré-sal representa 26% da balança comercial do Brasil. Mas, disse, que o pico de produção dessas reservas chega por volta de 2030. Por isso, ela defendeu a expansão das atividades de exploração para que a estatal passe a produzir em novas áreas.

— Temos de tomar cuidado com as reposições da reserva. E está fora de cogitação a importação. É trazer a necessidade de explorar novas fronteiras, como a questão do Amapá, na Margem Equatorial, e Pelotas, no Sul do Brasil. Isso tem que ser enfrentado e acelerado. Isso faz parte de uma lógica negocial da empresa. Avançar em novas fronteiras e incentivar a cadeia nacional estão no nosso escopo. É garantir uma Petrobras com perenidade de atuação.

Em outro momento da entrevista, a presidente da Petrobras lembrou que a exploração de petróleo na Margem Equatorial tem de ser debatida no Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que envolve vários ministérios, a Agência Nacional de Petróleo (ANP) e a Petrobras.

— Quando a gente restringe a discussão a uma instituição única, a gente sai perdendo. Se o MME tem uma posição e o MMA tem outra, o árbitro tem de ser o presidente da República. No fundo temos um fórum para isso, que é o CNPE.

Apesar da prioridade na expansão da produção de óleo, Magda afirmou que pretende continuar a investir em fontes alternativas de energia e defendeu que é importante ampliar a produção de petróleo para sustentar esses novos investimentos.

— A Petrobras está fazendo essa diversificação. É isso que vai garantir o futuro.

Sobre a atuação da Petrobras no exterior, Magda disse que a internacionalização “é uma possibilidade”, mas reafirmou que sua prioridade será a atuação da empresa no Brasil.

— Mas a prioridade é absolutamente o território nacional. Faz parte da encomenda, que é o respeito à sociedade brasileira.

A executiva disse que encontrou muitos desafios na estatal e afirmou ter como missão retribuir “com muito zelo” a confiança do governo em sua indicação:

— Quero agradecer a confiança do governo brasileiro e tenho que retribuir com muito zelo. A Petrobras é uma empresa com trajetória de imensos desafios. O pré-sal foi um deles e foi superado. Hoje, temos mais um. E temos a garantia da segurança energética do país em um momento em que também temos que enfrentar a transição energética.

Magda afirmou que o pedido que recebeu do presidente Lula foi para ela gerir a “empresa com respeito à sociedade brasileira”.

— A demanda que eu tive do presidente Lula foi: “Eu tenho um carinho pela Petrobras. Esse é o tamanho do desafio que estou te dando. Gostaria que você gerisse essa empresa com respeito à sociedade brasileira” — contou Magda. — Eu não posso ter mensagem mais clara que essa. A sociedade brasileira tem vários componentes.

Perguntada sobre a retomada das encomendas de navios e plataformas a estaleiros brasileiros, uma demanda do governo, Magda lembrou que há muita capacidade de produção desenvolvida no Brasil e indicou que vai perseguir a nacionalização das encomendas da estatal:

— Minha obrigação é reforçar essas cadeias nacionais.

Magda, no entanto, lembrou que a empresa tem que estabelecer igualdade de condições entre fornecedores nacionais e estrangeiros:

— O que é importante é que para uma empresa explorar e produzir petróleo no país ela precisa ser contratada para isso. Quando ela ganha essa licitação, os contratos têm a obrigação de igualdade e condições entre fornecedores nacionais e estrangeiros. Vamos ter que honrar essa igualdade de oportunidades. E só com isso a gente já ajuda a reforçar a cadeia de fornecedores.

A executiva indicou que cogita alterar a diretoria atual, montada pelo antecessor no cargo, Jean Paul Prates:

— Ainda estou conhecendo os diretores. Uma coisa que é natural quando o gestor entra é identificar sinergias. Isso estou fazendo. Se eu fizer uma troca, não faz desabonar ou abonar ninguém. É um ajuste de perfil.

Sobre a distribuição de dividendos da companhia, um dos fatores que desgastaram a relação entre Prates e o governo, Magda afirmou que ainda vai entender as prioridades da empresa e as demandas dos diversos componentes da sociedade para dar uma posição sobre o pagamento do montante extraordinário de remuneração aos acionistas, limitado a 50% pelo conselho.

— Se tem lucro, tem dividendos — disse Magda. — Se existe uma coisa que tenho certeza é que a empresa vai dar muito lucro.

Sobre a negociação da estatal com a Unigel para a produção de fertilizantes no país, ela disse que o acordo está sendo estudado. Lembrou que se o Tribunal de Contas da União (TCU) tem dúvidas sobre se o acordo é lucrativo, a Petrobras vai dialogar com a instituição, repetindo que o “respeito à sociedade” foi uma das missões que recebeu do presidente Lula.

— Faremos, se isso for bom para nós. Ninguém vai rasgar dinheiro. Vamos explicar para os órgãos de controle que fertilizantes é um bom negócio. E isso vai ampliar o gás na matriz brasileira. Temos o produto gás, que tem um espaço para produzir fertilizantes. Vou fazer isso a qualquer preço? Não. Precisa dar lucro.

Sobre a política de preços dos combustíveis, Magda disse que vai seguir com o “abrasileiramento” de preços, como ficou conhecida a nova política de reajustes implementada pelo antecessor, Jean Paul Prates.

— Indesejável é trazer para a sociedade uma instabilidade de preços. O presidente Lula prometeu abrasileirar os preços, e isso foi feito. É uma lógica empresarial. Isso não é uma invenção. Essa simples mudança representou, de janeiro de 2023 até hoje, uma redução no diesel de quase 25%. Isso foi feito e vamos continuar fazendo. Essa lógica pretende não apenas vender o produto, mas garantir market share (fatia de mercado). Se eu aumentar o preço, eu vou perder o market share. Esse preço segue a lógica empresarial e que não quer perder mercado. Vamos perseguir essa direção.

Magda foi diretora-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP) entre 2012 e 2016, durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff. Antes de ingressar na ANP, foi funcionária de carreira da Petrobras, onde trabalhou por 22 anos. Ela assume a companhia no lugar de Jean Paul Prates. Engenheira, ela participou do grupo de transição na área de energia do governo Lula.

Com informações de O Globo.

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