Mãe do Complexo do Alemão distribui fones com abafadores para crianças não escutarem tiros

Trocas de tiros entre bandidos e policiais viraram rotina assustadora e ruidosa em muitas comunidades

As trocas de tiros que viraram uma rotina assustadora e ruidosa em muitas comunidades do Rio está gerando traumas e atrasos no desenvolvimento das crianças que vivem em favelas. Entre as atípicas, com Transtorno do Espectro Autista, por exemplo, a situação é mais grave. Elas têm hipersensibilidade auditiva.

Para tentar amenizar os impactos da violência urbana na vida de todas as crianças, uma mãe do Complexo do Alemão está distribuindo fones com abafadores acústicos de alto poder de isolamento. A ideia é que elas, pelo menos, não escutem os sons dos tiros.

A informação é de matéria do Jornal Nacional, da Rede Globo, desta segunda-feira (19). A criadora do projeto foi Rafaela França, fundadora do Núcleo de Estimulação Estrela de Maria. “Eu via a minha filha Maria tendo que ficar reclusa dentro de um quarto, com aqueles ventiladores antigos muito barulhentos, mais o ar-condicionado ligado para a gente tentar diminuir os sons da guerra. Tanto com as operações policiais, tanto com as guerras entre facções e tanto com bailes funks com sons muito altos. Eu comecei a botar força para conseguir doações desses abafadores para crianças de periferias e de favelas”, conta Rafaela.

A reportagem do jornalista Chico Regueira mostrou o impacto direto da violência armada na infância. Crianças crescem convivendo com balas perdidas, sirenes e o medo constante. “É muito complicado, desesperador”, desabafa Thais Rodrigues, mãe do pequeno Kauã, ao ser questionada sobre como é enfrentar uma troca de tiros dentro da favela.

A sensação de pânico é comum entre as mães. Jéssica Marques Melo, que cuida de dois filhos, relata a reação do mais novo: “Na hora que começa, ele até fala ‘pou pou’. ‘Mamãe, eu estou com medo’, aí eu vou e pego ele”.

Para o educador Matheus Lopes de Oliveira, o barulho dos tiros agrava o terror vivido pelas crianças: “O som do tiro parece ser dentro de casa, mas não é não. Com o eco que faz, as crianças ficam com medo”.

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