A madrugada desta quarta-feira (29) marcou um raro silêncio no Rio de Janeiro. Após a megaoperação das polícias Civil e Militar nos complexos da Penha e do Alemão, que deixou mais de 100 mortos e provocou uma onda de retaliações do tráfico, o cenário na cidade foi de ruas vazias, bares fechados e medo generalizado.
O clima de apreensão começou ainda durante a tarde de terça-feira, quando o município entrou no estágio 2 do nivelador de risco, devido às interdições e ataques de criminosos em diferentes pontos da cidade.
Segundo a RioÔnibus, ao menos 71 coletivos foram usados como barricadas nas Zonas Norte, Oeste, Sudoeste e no Centro. Comerciantes relataram que foram obrigados a fechar as portas e que o retorno para casa se tornou um desafio caótico.
Silêncio na boemia carioca
Na Tijuca, Zona Norte, o silêncio tomou conta até dos espaços tradicionalmente mais animados. Por volta das 23h, uma moradora passeava com seu cachorro pela Praça Varnhagen, quando comentou a estranheza do momento: “Parece Covid-19, né? Muito estranho”, disse ela ao jornal O Globo.
A comparação não é exagerada. O “Buxixo”, reduto da boemia tijucana conhecido por suas rodas de samba e bares cheios, ficou irreconhecível. Onde normalmente há som, risadas e movimento, restaram apenas calçadas vazias e portas fechadas.
Vila Isabel e Grajaú às escuras
Nas primeiras horas da madrugada, o Boulevard 28 de Setembro, em Vila Isabel, outro símbolo da vida noturna da Zona Norte, estava deserto. A reportagem percorreu toda a via e encontrou apenas dois garis, dois catadores de recicláveis e um único botequim aberto.
A Rua Teodoro da Silva, que liga Vila Isabel a bairros como Grajaú e Andaraí, também estava vazia, sem um único veículo em circulação. No Largo Verdun, no Grajaú, até mesmo uma farmácia 24 horas fechou as portas, e o entorno ficou completamente sem movimento.
O mesmo cenário se repetiu no Engenho Novo, onde o bloqueio da Autoestrada Grajaú-Jacarepaguá chamou atenção. “Via bloqueada. Proibida a circulação”, dizia uma placa. A via, que conecta a Zona Norte à Zona Sudoeste, só foi totalmente liberada por volta das 3h30, segundo o Centro de Operações e Resiliência (COR-Rio).
Zona Sul sem o brilho de sempre
Na Zona Sul, o tradicional agito também deu lugar ao vazio. Após o caos no trânsito e o medo de circular, as ruas de bairros como Laranjeiras, Flamengo, Botafogo e Copacabana ficaram praticamente desertas.
A Praça São Salvador, outro reduto da boemia carioca, também estava silenciosa, com moradores esporádicos indo ao mercado ainda aberto. No Largo do Machado, bares e restaurantes da rua Arno Konder abriram com público muito abaixo do normal.
Em Botafogo, a Rua Voluntários da Pátria, uma das mais movimentadas do bairro, ficou praticamente deserta, e até a Rua Arnaldo Quintela, eleita pela revista Time Out uma das mais descoladas do mundo, estava vazia. A orla de Copacabana, conhecida por “nunca dormir”, também perdeu o movimento — os quiosques estavam fechados e as calçadas, desertas até o Leblon.
Centro vazio e transporte irregular
No Centro do Rio, o vazio também predominou. Nem a boêmia Lapa escapou do esvaziamento. Em plena Avenida Mem de Sá, menos de cinco estabelecimentos estavam abertos. O trânsito leve e as ruas escuras transformaram um dos polos culturais mais movimentados da cidade em um cenário de completo abandono.
Dificuldades na Zona Oeste e Sudoeste
Nas zonas Oeste e Sudoeste, os reflexos das barricadas e interdições realizadas pelos traficantes continuaram a causar transtornos. Muitos trabalhadores não conseguiram voltar para casa e alguns caminharam quilômetros.






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