Macron diz que França não apoiará acordo Mercosul-UE

Presidente francês afirma que pacto não será assinado sem novas garantias aos agricultores e forma minoria de bloqueio no bloco europeu

O presidente da França, Emmanuel Macron, reafirmou nesta quinta-feira (18), em Bruxelas, que seu país não dará apoio ao acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul sem garantias adicionais para os agricultores franceses. A declaração foi feita antes do início de uma reunião de cúpula da UE e elevou ainda mais a tensão em torno de um tratado negociado há mais de duas décadas.

“Quero dizer aos nossos agricultores, que manifestam claramente a posição francesa desde o início: consideramos que as contas não fecham e que este acordo não pode ser assinado”, declarou Macron, reforçando a linha dura adotada por Paris desde o avanço das negociações.

Resistência francesa e aliados estratégicos

Na véspera, o presidente francês já havia antecipado que a França se oporia a qualquer “tentativa de forçar” a adoção do acordo com o bloco sul-americano, mesmo após as alterações aprovadas pelo Parlamento Europeu na terça-feira (16). As mudanças incluíram salvaguardas agrícolas justamente para atender às preocupações de países como a França.

Apesar disso, Paris mantém posição contrária e conta com o apoio de Itália, Polônia e Hungria para barrar a assinatura do tratado. Com a adesão formal da Itália anunciada na quarta-feira, o grupo passou a reunir as condições necessárias para formar a chamada minoria de bloqueio no Conselho Europeu: ao menos quatro dos 27 países-membros que representem, juntos, 35% da população da União Europeia.

Na prática, isso significa que, se o tema for levado a votação, o acordo pode ser vetado mesmo diante de uma maioria favorável.

Risco de novo adiamento

O posicionamento francês abre caminho para o adiamento da assinatura do documento, que vinha sendo negociado desde 1999 e chegou a um entendimento político entre os blocos apenas recentemente. Mais do que um simples atraso, o impasse atual tem potencial de devolver o acordo à estagnação por mais um longo período.

Isso porque a divisão dentro da União Europeia é vista como profundamente política e distante de uma solução de curto prazo. Além disso, a iminente presidência paraguaia do Mercosul não demonstra grande disposição para priorizar o tema, o que pode esfriar ainda mais as tratativas.

Pressão do Brasil e aviso de Lula

Do lado sul-americano, a reação foi imediata. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou na quarta-feira que, caso a assinatura prevista para sábado (20) seja adiada, o acordo não será mais aceito pelo governo brasileiro durante o restante de seu mandato, que se encerra em 31 de dezembro de 2026.

“Eu agora estou sabendo que eles não vão conseguir aprovar [no Conselho Europeu]. Está difícil, porque a Itália e a França não querem fazer por problemas políticos internos”, disse Lula.

“E eu já avisei para eles, se a gente não fizer agora, o Brasil não fará mais acordo enquanto eu for presidente. É bom saber. Faz 26 anos que a gente espera esse acordo. 26 anos”, completou.

Alerta vindo do Parlamento Europeu

O desgaste também foi reconhecido por lideranças europeias favoráveis ao tratado. No início da semana, o chefe do comitê de comércio do Parlamento Europeu, Bernd Lange, alertou para o risco de perda definitiva da oportunidade de acordo com o Mercosul.

“Os países do Mercosul estão ficando sem paciência. Se não for possível assinar agora, a janela de oportunidade se fechará e eles procurarão países que não nos agradam”, afirmou.

A declaração reflete o temor, dentro da própria União Europeia, de que o fracasso do acordo empurre os países sul-americanos para parcerias comerciais alternativas, especialmente com a China e outros mercados asiáticos, reduzindo a influência europeia na região.

Um acordo sob ameaça real

Com a formação da minoria de bloqueio e a escalada de declarações públicas, o acordo UE-Mercosul entra em um de seus momentos mais críticos desde o início das negociações, em 1999. O que estava desenhado para ser um desfecho histórico pode, mais uma vez, ser adiado ou até enterrado, em meio a disputas políticas internas na Europa e à crescente impaciência do lado sul-americano.

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