Em 1974, o mundo assistiu atônito a um grupo de cabeludos vestindo laranja redesenhar os campos de futebol, estabelecendo ali as bases do que passaria a se chamar de “modernidade tática”. Mas o problema do carrossel holandês nunca foi a ausência de beleza plástica ou a capacidade de asfixiar o adversário, mas sim uma crônica incapacidade de entender que, o que conta no futebol, é bola na rede, e não as notas de jurados de patinação artística. Décadas se passaram, gerações mudaram, e os Países Baixos (que a gente chamou errado de Holanda por um tempão) transformaram o ato de quase vencer em uma das mais refinadas formas de arte contemporânea. 

Há exatos 20 anos, os Países Baixos não perdem uma partida em tempo normal em Copas do Mundo. Tabu que a Laranja Mecânica defende desde a derrota por 1 a 0 diante de Portugal nas quartas de final da Alemanha 2006, num confronto tão violento que entrou na história com o nome dramático de “Batalha de Nuremberg”. Vinte anos sem perder em noventa minutos. Zero títulos mundiais no mesmo período. 

Talvez seja esse o verdadeiro caráter da seleção nas Copas: a capacidade de impressionar sem nunca, de fato, vencer o jogo mais importante. Dos campos de batalha táticos da década de 1970 à pancadaria generalizada de Joanesburgo em 2010, os relatos dos arquivos históricos e jornais esportivos revelam uma seleção que flerta constantemente com a eternidade, embora pareça gostar de permanecer no purgatório do futebol mundial. 

Plantação de tulipas nos Países Baixos (Crédito: Reprodução)

A Holanda não perde em Copas há 20 anos? 
 
Vamos combinar. A seleção dos Países Baixos carrega a fama de “vice eterna”, mas não perde uma partida em tempo regulamentar em Copas do Mundo desde 2006, quando caiu por 1 a 0 diante de Portugal nas oitavas de final, na partida que ficou conhecida como Batalha de Nuremberg, um dos confrontos mais violentos da história das Copas, encerrado com o recorde de quatro expulsões, duas para cada lado (fora 12 cartões amarelos). Esta última derrota holandesa em tempo normal foi marcada por um nível de violência em campo digno de nota, que para os supersticiosos era um prenúncio e tanto do que viria a acontecer quatro anos depois em Johanesburgo. 

Desde então, todas as eliminações holandesas seguintes (em 2010, 2014 e 2022) ocorreram na prorrogação ou na disputa por pênaltis, nunca nos noventa minutos regulares. A FIFA registra os resultados das Copas e considera oficialmente as decisões por pênaltis como empates nos números da partida. Um detalhe que ajuda a calibrar o tamanho deste feito: a Holanda igualou, entre 2014 e 2022, o recorde de invencibilidade do Brasil em Copas do Mundo, de treze jogos sem derrota, uma marca construída entre 1958 e 1966. Só que não perder, nem levar, não enche a barriga do mais aguerrido dos torcedores laranjas. 

Logo da Federação de Futebol dos Países Baixos

O que foi a tal Laranja Mecânica? 

Para os mais jovens, um momento mágico do futebol, disponível em grande parte no Youtube. A seleção ficou fora das Copas de 1950, 1954, 1958, 1962, 1966 e 1970. Mais de três décadas de ausência completa do principal palco do futebol mundial. A virada veio com uma geração e um conceito. 

A expressão “Laranja Mecânica”, também chamada de “Carrossel Holandês”, nasceu, claro, nos cinemas após o sucesso do filme homônimo de Stanley Kubrick, mas ganhou os gramados em 1974 para batizar a seleção que implodiu os conceitos tradicionais do esporte.  

Sob o comando tático do treinador Rinus Michels, os Países Baixos apresentaram ao planeta o Futebol Total, um modelo revolucionário onde nenhum jogador de linha tinha posição fixa. Defensores atacavam, atacantes recompunham a defesa e a troca constante de funções sufocava os rivais em uma engrenagem perfeitamente sincronizada. 

E ainda tinha Cruyff. 

O craque da camisa 14 Johan Cruyff, um dos maiores jogadores de todos os tempos (Crédito: Reprodução)

Quem foi Johan Cruyff? 

Não dá para falar dos Países Baixos em Copas sem dedicar espaço a Cruyff, e seria desonesto tentar. Cruyff foi um dos maiores jogadores de todos os tempos, vencedor da Bola de Ouro em 1971, 1973 e 1974, acumulou uma quantidade enorme de troféus em sua carreira de clube e se tornou o símbolo do chamado “futebol total” sob o comando de Rinus Michels, tendo vivido seus melhores anos justamente no Ajax e no Barcelona. 

Foi o cérebro e o maestro do time que encantou o mundo na Copa de 1974. Com a camisa 14, ele liderou os Países Baixos até a final daquele Mundial, marcou gols, deu assistências e revolucionou a maneira de jogar futebol. Cruyff era ambidestro, inteligente e visionário. Sua importância vai além dos 48 jogos e 33 gols pela seleção. Ele foi o precursor de uma filosofia tática que influenciaria gerações. Mas, curiosamente, sua maior marca nas Copas é uma ausência: a de 1978, como veremos adiante. 

A “Laranja Mecânica” de 1974 (Crédito: Reprodução)

Mas, com isso tudo, como chegaram à final em 1974, 1978 e 2010 e perderam as três? 

Não só perderam como cada derrota teve seu sabor próprio de tragédia. Em 1974, liderada pela lenda Johan Cruyff, a Holanda perdeu para a Alemanha Ocidental por 2 a 1, em Munique, depois de abrir o placar logo aos dois minutos com gol de Neeskens e ver os anfitriões virarem com gols de Breitner e Gerd Müller, dois símbolos do futebol alemão daquela geração. 

Em 1978, a Holanda caiu diante da Argentina por 3 a 1 na prorrogação, com show de Mario Kempes, artilheiro daquela Copa, num detalhe que ganha ainda mais peso quando se sabe quem estava ausente daquele time, assunto que merece seção própria mais adiante. Já em 2010, a seleção foi derrotada pela Espanha por 1 a 0, com gol de Andrés Iniesta na prorrogação, fechando o ciclo mais recente de quase-glória. Três finais, três adversários diferentes, três formas distintas de partir o coração laranja. 

Quem não jogou em 1978 e teria sido tão decisivo assim? 

Nada menos que Johan Cruyff. E por trinta anos, ninguém soube ao certo o que aconteceu. Durante todo esse tempo, a versão política foi a que mais circulou. Alguns diziam que se tratava de um protesto político silencioso, já que a Argentina vivia sob uma ditadura militar na época; outros afirmavam que sua esposa o havia convencido a não viajar, com receio de alguma aventura noturna com os parças; e havia ainda os maledicentes que espalhavam rumores de uma disputa com a federação por bônus. 

A tese política parecia plausível porque Cruyff tinha um histórico de se manifestar sobre questões sociais, e uma recusa a competir numa Copa organizada por um regime opressor se encaixava perfeitamente em seu perfil.  Ao assinar com o Barcelona em 1973, o próprio jogador declarou estar satisfeito por não ter se transferido para o Real Madrid, devido às relações do clube madrilenho com o ditador espanhol Francisco Franco. 

O próprio Cruyff jamais confirmou nenhuma dessas versões enquanto era jogador, e a ambiguidade durou exatamente até 2008, quando ele decidiu, enfim, contar a verdade, que era bem mais sombria do que qualquer teoria política. 

Cruyff em ação pelo Barça em 1978 (Crédito: Reprodução)

O que aconteceu de tão grave? 
 
A revelação surpreendeu o mundo do futebol. Cruyff finalmente quebrou o silêncio em 2008, revelando em entrevista que o motivo real de sua ausência foi uma tentativa de sequestro de sua família em Barcelona, ocorrida um ano antes da Copa. Em entrevista à Rádio Catalunya,  ele descreveu o episódio em primeira pessoa, contando que teve um fuzil apontado contra sua cabeça e foi amarrado junto da esposa, diante dos filhos, no apartamento da família em Barcelona. Um detalhe dá ainda mais dimensão ao terror vivido. Segundo as investigações, pelo menos sete criminosos invadiram a casa de Cruyff. 

O desfecho exato do episódio nunca foi totalmente esclarecido, nem pelo próprio Cruyff. O que acrescenta ainda mais uma camada de mistério ao episódio. A única coisa que ficou clara foi o efeito duradouro do trauma sobrea família, sua rotina e suas prioridades. Segundo o jornal Irish Times, os filhos passaram a ir à escola escoltados pela polícia, agentes armados dormiram na casa da família por quatro meses, e o próprio Cruyff passou a ser acompanhado por um miniexército de guarda-costas até praticamente a beira do campo antes das partidas.   

Uma mudança de vida que, nas próprias palavras de Cruyff, reproduzidas pelo Irish Times, fez com que ele e a esposa decidissem “parar com isso e ser um pouco mais sensatos”.  Cruyff explicou na entrevista que, exposto a tamanha violência e vulnerabilidade, o futebol perdera o sentido absoluto e ele não possuía o estado mental necessário para se afastar de casa por semanas. Para jogar uma Copa do Mundo, segundo Cruyff, é preciso estar 200% focado, e os valores da vida haviam mudado para ele naquele momento. 

Cruyff e família (Crédito: Reprodução)

A final mais indisciplinada de todos os tempos 

Na decisão da Copa de 2010, em Johanesburgo, os Países Baixos decidiram romper com o romantismo de seu passado. Ciente da superioridade técnica do estilo de troca de passes da Espanha, o treinador Bert van Marwijk desenhou uma estratégia baseada na intimidação física e na interrupção do jogo adversário por meio de faltas violentas.  

O comportamento da equipe em campo foi tão agressivo que o próprio Johan Cruyff, em sua coluna na época, rotulou a atuação holandesa como anti-futebol, lamentando que seu país tivesse escolhido um caminho tão feio e vulgar. O jogo, que já havia sido precedido pela “Batalha de Nuremberg” contra Portugal em 2006 (o jogo dos 12 amarelos e quatro vermelhos), consolidava a má fama do time como uma seleção que, quando não ganhava no talento, tentava vencer na força bruta 

Xabi Alonso recebendo um golpe de kung fu de Nigel de Jong (Crédito: Reprodução)

O símbolo máximo dessa metamorfose violenta ocorreu ainda no primeiro tempo. Em uma disputa de bola no círculo central, o volante holandês Nigel de Jong desferiu um golpe espetacular de karatê com a sola da chuteira diretamente no esterno do espanhol Xabi Alonso, um lance que valeria aplausos em um octógono de vale-tudo, não em um gramado de futebol. 

O árbitro inglês Howard Webb optou por punir o meio-campista holandês apenas com o cartão amarelo, uma decisão que o próprio juiz admitiria anos mais tarde ter sido um erro crasso. Um de muitos, pelo visto. A final de 2010 terminou com 13 cartões amarelos e um vermelho, sendo oito amarelos para os Países Baixos e cinco para a Espanha, além da expulsão do zagueiro neerlandês John Heitinga no segundo tempo da prorrogação. Esse recorde de cartões em uma final de Copa do Mundo permanece até hoje. 

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