Lulinha surge em grupo de WhatsApp usado para discutir negócios com governo

Relatório da Polícia Federal aponta atuação coordenada entre filho do presidente, Roberta Luchsinger e Fernando Bittar; defesa afirma que diálogos não demonstram crime

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Mensagens analisadas pela Polícia Federal colocam Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em conversas relacionadas a negócios e articulações conduzidas pela lobista Roberta Luchsinger junto ao governo federal. O material integra investigação sobre suspeita de tráfico de influência e foi revelado inicialmente pela revista Veja. O conteúdo também foi confirmado por outros veículos nesta quinta-feira (20).

Segundo o relatório policial citado nas reportagens, Lulinha, Roberta e o empresário Fernando Bittar formariam um núcleo de atuação coordenada para interlocução de interesses privados com integrantes da administração pública. A PF também aponta uma possível “comunhão de interesses econômicos” entre os envolvidos. A defesa de Lulinha nega irregularidades e afirma que o material não demonstra a prática de crime.

“Vai com tudo”

Uma das conversas destacadas ocorreu em março de 2024, quando Roberta se preparava para uma reunião envolvendo integrantes do Ministério da Saúde. Segundo o material divulgado, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe de gabinete do presidente Lula, havia intermediado um encontro da empresária com Swedenberger Barbosa, que ocupava o cargo de secretário-executivo da pasta.

“Pousei. Vou lá no Berge”, escreveu Roberta a Lulinha. O filho do presidente respondeu: “Que ótimo. Vai com tudo. Manda bjo pro Berge e fala que não fui pq vc não chamou”.

A reunião fazia parte de tratativas relacionadas ao interesse de empresários em negócios envolvendo medicamentos à base de cannabis medicinal. Reportagens baseadas na investigação indicam que essas investidas não resultaram na assinatura do contrato pretendido com o Ministério da Saúde.

Grupo reunia os três

Outro elemento destacado pela investigação é um grupo de WhatsApp denominado “Musaranhos”, formado por Lulinha, Roberta e Fernando Bittar. Segundo o relatório reproduzido pelas reportagens, o espaço era utilizado para discutir projetos e negócios.

A PF afirma que Lulinha, mesmo aparecendo de forma menos exposta em algumas tratativas, era tratado por Roberta como uma referência para decisões relacionadas aos projetos discutidos pelo grupo.

Fernando Bittar é amigo e antigo sócio de Lulinha e ficou nacionalmente conhecido durante as investigações da Lava Jato por ser um dos proprietários formais do sítio de Atibaia.

As conclusões apresentadas até agora são dos investigadores e ainda estão sujeitas à análise das demais instâncias responsáveis pela apuração. Lulinha não foi condenado pelas suspeitas investigadas.

Negociações no Ministério da Saúde

A atuação de Roberta junto ao Ministério da Saúde é um dos principais eixos das investigações. A Polícia Federal apura uma tentativa de viabilizar a comercialização de medicamentos derivados de cannabis para o governo federal.

Entre os materiais encontrados pelos investigadores estava uma minuta relacionada à venda desses produtos. Roberta chegou a encaminhar um modelo de contrato a Marcola. Ele confirmou ter recebido o documento, mas classificou o envio como inadequado e afirmou que não repassou a proposta nem favoreceu os interessados. O negócio não foi concretizado.

A PF também investiga a relação de Roberta com Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”. Segundo as apurações, a lobista recebeu R$ 1,5 milhão para prestar serviços destinados à tentativa de viabilizar negócios no governo. Roberta sustenta que os pagamentos correspondiam a serviços de consultoria.

Defesa nega crime

O advogado Marco Aurélio de Carvalho, responsável pela defesa de Lulinha, afirmou que não teve acesso à íntegra do inquérito e contesta a interpretação atribuída às mensagens.

“Não tem crime, não tem ato de ofício, não tem agente de Estado, não tem dinheiro público, não tem nenhuma relação do caso com o do INSS — portanto, isso deveria ter sido arquivado”, afirmou o advogado, segundo o relato publicado.

A defesa também vem criticando a divulgação de trechos da investigação e sustenta que não há irregularidades na atuação de Lulinha. As apurações continuam e investigam, entre outros pontos, se houve tráfico de influência em tentativas de aproximação de interesses privados com integrantes do governo federal.

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