Lula manda recados aos EUA, cita Roosevelt e defende a paz como eixo da América Latina

Em discurso no Panamá, presidente critica aventuras militares, lamenta paralisia da integração regional e afirma que a única guerra necessária é contra a fome e a desigualdade

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quarta-feira (28) que a América Latina deve rejeitar aventuras militares, disputas por zonas de influência e novas formas de dominação externa. Em um discurso com forte conteúdo político e geopolítico, o petista enviou recados indiretos ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao defender que a única agenda capaz de unir a região é a da paz, da integração e do desenvolvimento social.

A declaração foi feita durante a sessão de abertura do Fórum Econômico Internacional da América Latina e Caribe, realizado no Panamá. As informações foram publicadas originalmente pelo site Brasil 247. Lula aproveitou o simbolismo histórico do país-sede, que há 200 anos recebeu o Congresso Anfictiônico, para traçar paralelos entre os ideais de integração do século XIX e o atual momento de fragmentação regional.

Integração em crise e retrocesso histórico

Ao relembrar o Congresso do Panamá de 1826, Lula destacou que daquele encontro surgiram princípios fundamentais do direito internacional, como a solução pacífica de controvérsias, o respeito à soberania e a integridade territorial dos Estados, mais tarde incorporados à Carta das Nações Unidas. Apesar disso, afirmou que a região vive hoje um “retrocesso histórico” no processo de integração.

Segundo o presidente, a experiência da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) fracassou por falta de tolerância política. “Voltamos a ser uma região dividida, mais voltada para fora do que para si própria”, afirmou, ao criticar a incapacidade de convivência entre diferentes visões políticas e o impacto de disputas ideológicas externas.

Celac paralisada e desafios comuns

Lula também apontou a paralisia da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), atualmente o único organismo que reúne todos os países da região. De acordo com ele, o bloqueio político é tão profundo que o grupo não conseguiu sequer aprovar uma declaração conjunta contra intervenções militares ilegais.

O presidente ressaltou que a falta de coordenação regional comprometeu respostas a desafios sistêmicos, como a pandemia de Covid-19, o avanço do crime organizado transnacional e o enfrentamento da crise climática. Para Lula, a ausência de ação coletiva enfraquece a América Latina no cenário global.

Críticas ao unilateralismo e alerta aos EUA

Ao analisar o contexto internacional, Lula afirmou que a ruptura da ordem liberal, aliada ao ressurgimento do protecionismo e do unilateralismo, expôs os limites de paradigmas tradicionais como o pan-americanismo e o bolivarianismo. Ele defendeu que a União Europeia seja vista como referência, mas sem ignorar as diferenças históricas, econômicas e culturais da América Latina.

Nesse ponto, mencionou a proximidade geográfica com “a maior potência militar do mundo”, em referência aos Estados Unidos, alertando para o “recrudescimento de tentações hegemônicas”. Para Lula, a história demonstra que o uso da força jamais ofereceu soluções duradouras para os problemas do continente.

Roosevelt, diplomacia e quatro liberdades

Apesar das críticas, o presidente lembrou que houve momentos em que os Estados Unidos atuaram como parceiros do desenvolvimento regional. Lula citou o ex-presidente Franklin D. Roosevelt e a política da boa vizinhança, que buscava substituir a intervenção militar pela diplomacia na relação com a América Latina.

Ao mencionar Roosevelt, Lula destacou as chamadas quatro liberdades fundamentais: liberdade de expressão, liberdade de culto, liberdade contra as privações e liberdade contra o medo. Segundo ele, esses princípios seguem atuais como base da defesa da democracia, dos direitos humanos e da convivência pacífica entre as nações.

A única guerra necessária, segundo Lula

“Para o Brasil, a única guerra que precisamos travar nesta parte do mundo é contra a fome e a desigualdade”, afirmou o presidente. Ele disse que as únicas armas legítimas para esse enfrentamento são os investimentos, a transferência de tecnologia e o comércio justo e equilibrado.

Lula também criticou a lógica de exploração primária de minerais críticos e terras raras, defendendo que esses recursos só terão valor estratégico se forem transformados nos próprios países latino-americanos, gerando empregos, renda e desenvolvimento.

Balanço econômico e integração regional

Durante o discurso, o presidente fez um balanço de sua trajetória à frente do governo brasileiro. Lembrou que assumiu a Presidência pela primeira vez, em 2003, em meio a uma grave crise econômica, e afirmou que o país conseguiu quitar dívidas, acumular reservas internacionais e promover ampla inclusão social.

Ao comparar aquele período com o cenário encontrado em 2023, Lula disse que o Brasil voltou a crescer acima de 3%, reduziu a inflação, alcançou recordes de emprego, renda e exportações e ampliou políticas sociais. Para ele, não há saída individual para os problemas históricos da região, apenas soluções coletivas.

América Latina como zona de paz

Ao encerrar, Lula reforçou que somente um bloco econômico sólido, comprometido com o combate à fome, à desigualdade e à violência, poderá evitar que a América Latina chegue ao fim do século tão pobre quanto começou. Segundo o presidente, a integração regional é condição essencial para manter a região como uma zona de paz, cooperação e respeito ao direito internacional.

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