Lula critica crise da ONU, defende fim da escala 6×1 e manda recado a Trump: ‘Brasil não cabe no quintal de ninguém’

Presidente brasileiro cobra reforma do Conselho de Segurança, critica governo Netanyahu e Hamas, defende diplomacia para Ucrânia e rejeita interferências externas na América Latina

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu nesta terça-feira (22) o Debate Geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, com críticas ao funcionamento da ONU e uma defesa da soberania dos países diante do aumento das disputas geopolíticas. Em discurso anterior ao do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Lula também abordou os conflitos em Gaza, Irã e Ucrânia.

O brasileiro afirmou que a ONU atravessa uma crise e que sua credibilidade está baixa. Também voltou a cobrar mudanças no Conselho de Segurança, que, segundo ele, sofre com o imobilismo diante de guerras e outras crises internacionais.

A necessidade de reforma do órgão também foi abordada pelo secretário-geral António Guterres antes do pronunciamento do brasileiro.

“O Conselho de Segurança foi criado no rescaldo da Segunda Guerra Mundial. Mas o mundo mudou fundamentalmente desde então. E essa mudança está longe de ser refletida no Conselho de Segurança”, afirmou.

Guterres citou como exemplo a ausência de representação permanente africana.

“O exemplo mais impressionante é a África. Quando a ONU foi fundada, a maior parte da África ainda estava sob domínio colonial. Hoje, a África continua sem um assento permanente no conselho. Um Conselho de Segurança do século 21 sem representação permanente da África é injusto e indefensável. Isso precisa mudar”, afirmou Guterres.

Críticas a Netanyahu e ao Hamas

Ao tratar do Oriente Médio, Lula criticou o governo do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu pelo que classificou como genocídio na Faixa de Gaza. Ao mesmo tempo, condenou os ataques cometidos pelo Hamas contra Israel.

Segundo o presidente, “civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas”.

Lula também defendeu a atuação de Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas para os territórios palestinos ocupados. O presidente foi aplaudido durante esse trecho do discurso.

A posição brasileira sobre Gaza tem provocado divergências diplomáticas com o governo israelense, enquanto Lula mantém a defesa de uma solução política para o conflito e da criação de um Estado palestino.

Irã e Ucrânia entram no discurso

Lula também abordou a guerra envolvendo o Irã e seus efeitos econômicos internacionais. O presidente afirmou que “ameaçar civilizações de extinção não trará estabilidade para o Oriente Médio”.

Ao mencionar uma das principais rotas de transporte de petróleo do mundo, alertou para as consequências do conflito sobre diferentes países.

“O Estreito de Ormuz transformou-se em trincheira da guerra quando deveria permanecer uma passagem vital para o comércio internacional”, alertou.

Segundo Lula, famílias em várias partes do mundo sentiram os efeitos da guerra por meio da elevação dos preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos.

O presidente também voltou a defender uma saída negociada para a guerra entre Rússia e Ucrânia. Para Lula, não haverá vencedores no campo de batalha.

“Diplomacia é a única opção”, ressaltou.

Lula citou ainda o chamado Grupo de Amigos da Paz, iniciativa articulada por Brasil e China com o objetivo de promover diálogo em torno de uma solução para o conflito.

‘Brasil não cabe no quintal de ninguém’

Ao entrar no tema da América Latina, Lula criticou interferências externas e defendeu maior autonomia dos países da região.

“O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento. Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para a maior integração entre vizinhos”, adicionou.

Em outro momento, Lula também fez uma referência à presença militar na região:

“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas.”

O presidente relacionou a discussão ao funcionamento das democracias e às disputas internacionais por influência e recursos.

“A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais. A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos”, comentou.

Ao abordar países latino-americanos individualmente, Lula afirmou que os venezuelanos devem decidir o próprio destino e fez uma crítica ao governo da Nicarágua, afirmando que o país “não vai resolver os seus problemas impedindo a oposição de disputar eleições”.

O presidente voltou ainda a condenar o embargo econômico dos Estados Unidos contra Cuba, classificando a medida como ilegal.

Combate ao crime organizado

Lula também reservou parte do discurso para o avanço do crime organizado. O presidente defendeu maior cooperação internacional para impedir a circulação de armas e dinheiro que financiam organizações criminosas.

Segundo ele, o Brasil pretende ampliar o enfrentamento à lavagem de recursos do crime realizada fora do território nacional.

“Esse é o espírito da proposta que entreguei ao presidente dos Estados Unidos”, adicionou.

A manifestação ocorre em um momento no qual o governo brasileiro busca ampliar a cooperação internacional no rastreamento de recursos financeiros e no combate às estruturas econômicas de organizações criminosas.

Lula defendeu que o enfrentamento ao crime transnacional seja realizado por meio da cooperação entre os países, em vez de ações que coloquem em risco a soberania das nações latino-americanas.

Meio ambiente, Margem Equatorial e terras raras

Na área ambiental, Lula afirmou que o Brasil tem condições de conciliar crescimento econômico, redução das emissões de gases de efeito estufa e preservação dos recursos naturais. O presidente destacou a queda do desmatamento e apresentou o país como referência na produção de energia limpa.

Ao defender a preservação da Amazônia e de outros biomas, Lula afirmou que “a floresta vale mais em pé”. Ao mesmo tempo, deixou claro que o governo pretende continuar buscando o aproveitamento econômico de recursos naturais considerados estratégicos.

Nesse contexto, o presidente citou a Margem Equatorial e as reservas brasileiras de terras raras, minerais essenciais para diferentes tecnologias relacionadas à transição energética. Segundo Lula, a exploração dessas riquezas pode ocorrer sem abandonar os compromissos ambientais e o processo de descarbonização da economia.

O presidente também ressaltou que os recursos naturais existentes no território nacional pertencem ao povo brasileiro e defendeu que sua exploração resulte em benefícios econômicos e sociais para a população.

Lula defende escala 6×1

Ao abordar as transformações no mercado de trabalho, Lula defendeu mudanças nas jornadas para ampliar o tempo destinado ao descanso, à qualificação profissional e à convivência familiar.

“O mundo do trabalho está em transformação. Pessoas idosas querem permanecer ativas, jovens desejam empreender, o trabalhador precisa ter tempo para descansar, se qualificar e conviver com a família”, afirmou o presidente.

Lula relacionou esse cenário à defesa do fim da escala 6×1 no Brasil, modelo no qual o trabalhador cumpre seis dias de trabalho para um de descanso. O presidente também associou a mudança à redução da sobrecarga doméstica enfrentada pelas mulheres.

“No Brasil, concretizar esse objetivo passa pelo fim da escala 6×1, para garantir ao trabalhador dois dias livres por semana. Essa mudança é fundamental para aliviar a sobrecarga doméstica que ainda recai sobre as mulheres”, defendeu o líder brasileiro.

Discurso ocorre a menos de duas semanas da eleição

A participação de Lula na Assembleia Geral acontece a menos de duas semanas do primeiro turno das eleições brasileiras, marcado para 4 de outubro.

Presidentes brasileiros já utilizaram discursos na ONU realizados em anos eleitorais para apresentar resultados internos e tratar de temas ligados ao cenário nacional. Em 2022, Jair Bolsonaro mencionou a recuperação econômica depois da pandemia e o que chamou de “fim da corrupção sistêmica”.

Em 2014, Dilma Rousseff destacou a proximidade das eleições, a saída do Brasil do Mapa da Fome e iniciativas na educação. Em 2006, Lula mencionou a queda do desemprego, o aumento do poder aquisitivo e o Bolsa Família.

A agenda eleitoral também deve contribuir para uma passagem mais curta de Lula por Nova York neste ano. Antes da Assembleia Geral, o presidente teve encontros com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, o senador socialista estadunidense Bernie Sanders e o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi.

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